Eu poderia rechear de palavrões um relato simples. Eu sei usar palavrões. Os burgueses usam palavrões, eles fingem que não, mas eles usam e acham isso moderno. As moças peidam e de realidade em realidade, nada mais existe além dos palavrões. Não cheguei a essa limitação de verbetes por ninguém e, que eu saiba, não a provoquei em ninguém. Assim espero. Quero ser, para sempre, uma figura de linguagem. Como uma metáfora do Gabriel, qualquer uma. Inconfundível e gostosa como “Doce de goiaba”. Não quero ouvir falar de mongolóides que comiam o “ranho um do outro”. Não estou pronta pro mundo. Pro “traficante que faz sinal da cruz em frente à Igreja”. E queria mesmo morrer de câncer ao invés de morrer de amor. E me queimar com cigarros fedorentos e deixar as marcas que não são externas para quem tem olhos desatentos. Cortar os pulsos ou a orelha. Pintar em folhas de ouro, fazer da minha vida uma arte. Beijar marinheiros no final de uma guerra, ser fotografada por isso. Passear com sapatilhas vermelhas por tijolos eternamente amarelos. Ter um filho para dar a exata educação que recebi. Entender o porquê de o céu ser azul e o mar também. Transar com um gênio e me sentir diva de uma obra. Queria ter coragem para explicar todo o meu medo. Hoje o céu estava violeta e as nuvens estavam vermelhas. Eu queria chorar. Não chorei até agora. Eu queria te ter e não saber de você, ao mesmo tempo. Que você me odiasse e que visse em mim os defeitos que desempenho tão bem. Eu queria usar um palavrão na sua frente e ter coragem de desafiar o nosso encontro. Mas não estou pronta pro mundo. Porra, eu te quero tão bem que eu quero chorar porque eu não sei querer e sei que não me faço entender. Perdi minhas vírgulas, novamente.
Ponto (Palavrão).
Ponto (Palavrão).
