09 agosto 2009

Verde e Cinza.


Ela não pretendia chorar além do que os olhos podem suportar e além da água que possuía no corpo. O corpo sozinho e oco que carrega por esses anos que a carregam vida afora. Mas descobriu o valor imenso de se consolar com a desidratação. Descobriu que ter fugido todos esses meses das letras douradas e garrafais, não resguardou seu coração. Pelo contrário, o tornou seco e sombrio. Sabia, com todos os detalhes, que sua imagem não era mais a mesma e que já não mentia sua saúde mental com tanta sutileza. Não convencia a ninguém porque sentia as picadas eternas dos dias banais. Desta forma, merece muita palma e muito apoio por ter se prostrado à grama mexida recentemente, que serve de moradia eterna a parte amada de seu ser. Sua teoria era a de que, quando amamos alguém, esse alguém passa a ser nós mesmos. Pois o único amor que entrava no seu entendimento prático e racional era o amor-próprio. E pedaço de seu amor-próprio estava enterrado a sete palmos do chão, sem ter recebido um adeus ou o mar de lágrimas que fariam brilhar todo o verde ao seu redor. Pois a coragem, finalmente, a mobilizou. Ela, com o jeans sujo de grama, o sol queimando suas costas e seu colo, chorou por sobre o mármore bons minutos, misturados a pedidos de desculpas e promessas de eterna amizade. Limpou cada letra, ainda mais dourada com os raios solares, da poeira que a cercava. Passou a ponta dos dedos por sobre o nome ali gélido no mármore frio, como se o toque pudesse fazer ressurgir uma esperança de vida que transpassasse não só sua pele, mas seus sistemas todos, e órgãos, e tecidos, e células, e moléculas e sorrisos. Ficou ali, soluçando, sem tirar os olhos do nome adorado, perdendo a voz aos poucos, assim como as forças para criar novas lágrimas. E ficou ali também, cravada e emoldurada para quem quiser se certificar, a felicidade pueril que carregou quando criança. Pois agora, depois de tanta dor, não ousava assistir ao mundo com os olhos encharcados e manter intocável sua esperança no amanhã. Pois amanhã, ou mais tarde, se jogaria de novo em uma grama menos verde, com letras menos douradas, em um futuro muito mais cinza.