24 setembro 2009

2006

Tinha um lenço na lapela que cheirava a colônia (herança de alguém) e andava como um doido procurando coisa alguma sem que ninguém pensasse que lhe faltava o que quer que fosse. Estratagema de imagem. Ela se sentia uma tola por não ter nada daquilo que tanto precisava e por estar sempre pelos cantos se lamentando da serenidade perdida ou das moedas caídas dos bolsos furados. Mania de berço de se fazer de vítima e não esconder a necessidade vital de ser acalmada e acariciada, religiosamente. Tinha a certeza absoluta de que ele era incapaz de amá-la e de compreender as letras e significados implícitos nessa palavra - amor - tão forçosamente importante a todas do seu gênero. Acredito que, por culpa do senso que ele tinha de realidade, ela era apenas um deleite que lhe acontecia quando se cansava demais disso tudo o que é natural. Pois se amavam em outro plano e toda vez que encostava seus sussurros na audição dela provocava choques de consciência que negavam todos os pavores do mundo. Era como um eterno tobogã. Bebiam café enquanto ele fazia monólogos sobre os mais variados assuntos, que ela não precisava compreender. Enquanto isso, ela planejava alguma frase, junção de sílabas, que o convencesse a voltar, quem sabe, no mesmo dia. Caso acontecesse, a cachaça da cabeceira ia o embebedando de tanto carinho, enquanto ela contava sobre o dia banal, sobre as horas sem ele, sobre os minutos de saudade. Seu sorriso debochado permanecia por toda a noite, e os lábios abertos que sempre deixaram claro o tamanho da sua liberdade. Mas com uma paciência jamais vista nesta cidade, ela abria os braços que logo eram recompensados com a certeza de que era o colo dela, o peito dela, o encaixe dela que tanto lhe fazia falta. Porque de completo, eles só tínham a cama de solteiro que obrigava suas pernas a ocuparem o mesmo espaço. Disso tudo ela aprendeu a dizer sim, palavra fácil e macia se dita ao lado dele.

E, de tanto dizer sim, acabaram acorrentados, mas, dessa vez, a um compromisso social de dividir a cama de casal, sem que tentem, por momento algum, ocupar o mesmo espaço.