17 outubro 2009

Res

Ando abandonada. Por vários sentimentos, principalmente, e também porque às vezes sinto que ser abandonada é ter um passo a frente. Mas esta talvez seja uma covardia claustrofóbica. Apesar de quatro paredes não me assustarem em nada, nem sei como expressar. É lá fora que mora o perigo. Imenso e perturbador que me aflige a ponto de trancafiar-me a romances meia boca e filmes assistidos as pressas madrugada a fora. Não sei nomear a fobia de vida que possuo e todo o melodrama também não me deixa alegre ou contente em ser eu mesma. É como um vazio. E chaves e cadeados me impedem de fugir disso tudo. Porque às vezes acordo sobressaltada de qualquer devaneio e percebo, colérica, que sou humana como qualquer outro. Sem coisas especiais a minha volta ou prévias de amanhã. Apenas essa certeza masoquista de que existe um amanhã que quase me mata de tédio. Certeza absoluta que não parece ocorrer a todos: arrepio de todos os pêlos e respirar confuso. Mas o corpo se acostuma a me forçar a respirar, quando perco assim, por momentos, minha consciência de toque, de vento, de frio ou até de dor. E coisas que me ardem por dentro começam a explodir em minha mente que se sente traída e traidora por acreditar, por um segundo, em experiências extracorpóreas. Ou mais que isso, experiências que vêm de antes. De quando eu não me sentia tão triste por ser somente o mesmo, todos os dias e provavelmente, também amanhã. Com certeza amanhã. Essas experiências que terapia não resolve, que parecem nos levar a resoluções acima do bem ou do mal, resoluções de caráter, posturas sólidas e irrevogáveis. Coisa que não vem de berço, criação ou vivência. Coisa que vem de dentro. É quando me perco nisso que sinto o sol paralisado, esquentando minha face da Terra, fazendo possíveis os pavores das eras que virão, quando não terei mais esse ar enfraquecido nos pulmões e quando o fato de ser humana, como qualquer outro, não amargue esperanças alheias no amanhã. O fato de não ser mais nada colore o mundo nas particularidades sutis que passam desapercebidas aos meus abandonos.