09 novembro 2009

Impulso


O primeiro sinal foi rasgar um por um dos cento e cinqüenta e quatro diferentes papéis de bala, edição especial “dia dos namorados”, que a Big-Big fez em 2001. Rir em voz alta de cada um deles, como se qualquer gesto tão sugestivo jamais conseguisse representar outra coisa a não ser desespero. E desde criança, eu tinha muito medo do desespero. Talvez porque ele afugentasse a razão humana e transformasse qualquer coisa em abrigo disfarçado, talvez porque o desespero seja o sentimento mais cruel existente, desses que a gente só sente quando o mundo inteiro faleceu ou quando se têm quatro anos e encontra-se a si mesma completamente sozinha no shopping mais movimentado da cidade. Mas o fato é que eu tinha medo do desespero.


Depois decorei, como boa menina, a frase absoluta: “não é com você, é comigo”. E a repeti algumas vezes sem compreender que o abandono completo era mais íntegro do que uma desculpa tão esfarrapada.


Os anos se passaram e as possibilidades de solidão eram tão atraentes que a minha energia era desperdiçada nos inúmeros personagens que criei e nas cartas que enviei aos que possuíam endereço. O meu azar foi que alguns personagens não sabiam nem ao menos ler, ou não percebiam a força de minhas metáforas e como o mundo seria perfeito se os meus desejos fossem realizados. No geral, por recíproca deles ou por cansaço meu, foram quase todos assassinados ou esquecidos, assim como minha mania de tentar prever o futuro com os diferentes oráculos estudados nos círculos de Wicca. Eu fui atingida pela inegável realidade do tempo e pela inegável mediocridade dos personagens que nunca eram tão bons como na minha cabeça. Porque a vida nunca é tão boa como na minha cabeça.


Gabriel García Marquez confessou, no “Cheiro de Goiaba”, que chorou durante duas horas depois de matar o Coronel Buendía. Entrelaçado nos braços de sua mulher, ele entendeu por ser o próprio criador, que seu personagem mais importante, companheiro presente em toda a sua obra, precisava ir embora mais cedo ou mais tarde. Pois existem tramas, anteriores a nós, que já estão preparadas para serem escritas e vivenciadas. Existem personagens enraizados no nosso subconsciente, desde antes da consciência de inconsciente, que estão fatalmente destinados a nos pertencer e depois morrer. Como tudo, no ciclo imperdoável da vida, os personagens morrem para que novas tramas sejam possíveis e para que as mais importantes experiências possam ser imortais no coração de quem existe. De quem compõe, ou escreve, ou declama, ou tenta fugir de alguma forma dessa existência pavorosa.De alguém como eu, como os meus personagens, como Gabriel. Pessoas com porta de entrada no meu mundo.


Desejo, desesperadamente, enterrar os personagens que ainda passam pelos meus olhos no sábado à noite. Para que os reais sejam tocados pelos meus sentidos inebriados. Eu me embriaguei de sonhos, tão apaixonada pelas imagens criadas por mim que todo o resto me é nada. E o que me aconteceu foi transformar-me também em imagem, em sonho, em mentira. Intocável para os que me queriam por estar tão imensamente ocupada com o que eu queria. Pois o que eu quero agora é ser alguém para alguém que saiba ler, goste de metáforas e exista, não como personagem, mas de verdade, de uma forma menos pavorosa. Que componha, ou escreva, ou declame, ou desenhe, mas que me ame de madrugada. Alguém com esperança.