22 maio 2011
Praquê
Cantando. Apaixonei-me por um percussionista. Com seus olhos revirados no tesão de tocar a próxima música que me fará sorrir. Sabe que não sou a mais bonita das cabrochas dessa ala. E o ranger dos meus dentes, tempo arranhado. O batom vermelho que saiu mais tarde, em seus lábios. Vermelho, cor de viva memória. Suas mãos avermelhadas de tanto bater naqueles tambores, que a cá imagino as abas de minha bunda. Estática, que a essa observação te ouça no pé do ouvido um suspiro velado. De amor. E eu, calada. A maravilha de ouvir, sem dizer, ouvir. Quando queres assim, calar o momento para que o finalmente aconteça. Grandioso demais. Naquela sala abarrotada de gente. Você. Eu, do lado de cá da fantasia, sempre desejando as coisas erradas, etéreas, efêmeras. Você. Nós fumando um no sofá-cama, com meias desordenadas e ainda faz frio. Não sei o nome do filme, mas ele era alemão. E já não tinha mais tanta gente, ou o barulho do tambor, do vento frio, o suspiro, o ranger, só a pipoca triturada sob os caninos e eu querendo ser aquele momento. Todo ele. Sempre em mim. Vida que acontece, mas que não escolhi. Filme sem cor, porém ao teu lado. Arrancaram do meu delírio o desespero, a felicidade. Soletro teu nome e assino com um d-e-s-a-p-e-g-o. Você. Acho que te vi na padaria. Suas mãos não estavam rosadas dos tambores ou das abas da minha bunda. Amareladas das folhas viradas de livros antigos demais e de cigarros fedorentos que a mim esse mal não mais abate. Você e o vício. Você do meu lado, na cama de outrem. Com a cabeça encostada na minha. Não ouso pegar em sua mão. Eu não sou sua e nem posso. d-e-s-a-p-e-g-o. E aquele vestido que você gostava, eu doei, eu doída.