22 maio 2008

A consulta.

- Bom dia.
- Bom dia, o que traz a senhorita aqui?
- Ai doutor, eu estou sentindo dores fortes, bem fortes mesmo. E não entendo o porquê.
- Você tem antecedentes na família?
- Criminais? Ah! Acho que meus pais foram presos e torturados durante a ditadura, sabe, eles eram comunistas, o que é engraçado frente à posição alienada que ocupo no mundo. E hm... acho que tenho um tio que foi preso por porte de maconha. Maconha não dá dor, dá?
- Não, a senhorita entendeu tudo errado, quando digo ‘antecedentes’, me refiro ao coração e claro que maconha não dá dor, mas que idéia.
- Ai, que alívio... Antecedentes de coração? O Sr. Quer dizer as dores?
- Sim, dores, desconforto...
- Bom, minha mãe andou com dores cruéis, até outro dia...
- E é o único caso?
- Da minha mãe sim, foi a primeira vez que sentiu dor no coração. Teve dor também com meu pai, mas foi dor de ego, acho que você não é médico disso, né? É que o ego não está relacionado com coração. Bom, pelo menos não deveria não... E o meu pai também teve dores, acabou um relacionamento de sete anos e daí nós fomos ao show da Maria Rita e ele chorou pra valer quando ela cantou “Muito Pouco”, bem encostado assim no meu ombro. Foi lindo! Faz tempo que ele não faz isso, encostar no meu ombro. É que o coração dele está muito bem agora e não sobra muito tempo para me oferecer afeto. Acho que isso gera desconforto no meu coração e...
- Oh minha filha, não é nada disso! Eu quero saber se há alguém na sua família que tenha falta de ar, dores no peito, se alguém teve um AVC...
- AVC?!
- Enfarto.
- Meus avós por parte de mãe, os dois tiveram enfarto. Tristeza que só, pois eles tinham um coração bem vivido e se amaram por demais. O coração não poderia mesmo agüentar mais anos de tanta felicidade. É a única explicação.
- Sei... E você sente algum desses sintomas que eu descrevi?
- Não, falta de ar eu sentia quando criança. Era sopro. Sopro no coração, engraçado esse nome, né? Hoje deve ter só um assobio de nada.
- Vamos ver, sente-se aqui, respire profundo e diga trinta e três.
- Trinta e três? Por que não trinta e quatro ou vinte e quatro?
- Diga apenas trinta e três, por favor!
- Trinta e três... Trinta e três... Trinta e três... Trinta e três... Trinta e três... Trinta e três...
- Pronto, está bem assim. Você não tem nada, está tudo perfeito.
- Nem um assobio?
- Nem um assobio, muito menos um sopro.
- Mas e as dores doutor?
- Receio que essas dores não sejam especificamente de coração. A senhorita está muito bem e nossa consulta está terminada. Pode chamar por Caio Teixeira ao sair da sala? Ele é o próximo, por favor.
- Mas não é possível, eu sinto tanta dor e o Sr. não vai fazer nada?
- Sugiro que você comece por arranjar um bom amor para você, pois quando acabar, aí sim você vai ver o que é dor de verdade.
- O senhor não entende. Eu não consigo amar, acho que não aprendi isso não. O meu pai está se afastando de mim cada dia mais. Meus amigos moram bem longe e eu não consigo fazer novos amigos nessa cidade aqui. Não há ninguém que possa me ouvir. Até minha mãe, companheira de todas as horas, fica com os olhos transbordando quando conto do meu pesar. Eu tô com tanto medo.
- A senhorita que não entende! Eu tenho cinqüenta e quatro anos e não conheci meus pais. Casei-me três vezes e me separei de todas as minhas mulheres. Ninguém permanece do meu lado. Meus filhos adultos estão perdidos pelo mundo. Meus filhos mais novos não sabem meu nome e eu sou obrigado judicialmente a me manter afastado deles por pelo menos cinco metros, enquanto cinqüenta por cento do meu salário vai para a conta da puta da mãe deles. Eu sempre pego plantões nos finais de semana para não me achar sozinho em casa, bebendo vinho tinto de noite e vinho branco de manhã. Para não dormir a tarde toda e sem sonhar, pois faz anos que não tenho um sonho se quer, nem mesmo pesadelo. Eu sinto dores, você sente cócegas!
- Pois então, o Sr. não conhece uma cura para os nossos corações? Você é médico, você deveria saber...
- Eu sou médico porque isso dá dinheiro, não é médico que pode nos curar não. Se médico cuidasse desse tipo de dor eu seria mais rico ainda. Agora, por favor, chame o Sr. Caio Teixeira e boa sorte, sim?
- Ah, obrigada. Para você também.