03 agosto 2012

O Monte


Um vácuo dentro dela suga aquilo que eu mais amava. É tanta dor e ausência, um sistema complexo de erros entrelaçados. Um turbilhão de sentimentos e palavras não ditas. Ela costumava sorrir para mim, me acalmava, me emocionava com a beleza das pequenas coisas, dos pássaros, dos muros coloridos da cidade grande, dos cabelos lisos e ruivos, dos sons metálicos, dos odores da cozinha da minha avó. Eu me admirava. Desejava mais e mais dela, que viesse de uma vez, me arrancasse o mundo, fosse eternamente minha. De tão minha não pudesse pertencer a mais ninguém. Eu me contorcia de prazer. Mas um vácuo suga o que eu amava nela, decepa cada fragmento, parte a parte, abre buracos entre suas vísceras, deixa escapar fluídos enlameados, me joga na cara distraída suas vicissitudes. Indigesta, rompe as manhã frias, apreende meus orgasmos, quebra as minhas unhas, arranca meus suspiros, espera a morte. Espera, Vida.