18 março 2010

é certo que tudo tende ao tédio.




10 março 2010

Da contradição

Eu já tenho 19 anos e continuo achando tudo isso um saco. Porque os anos todos passam em um arranhar de dentes amarelados de cafeína, em um piscar de olhos sujos do rímel de ontem. A manhã seguinte brinca de ser a de hoje. Eu já me senti feliz me esquentando em fogo de palha, por não conseguir perceber que o quente são os detalhes e os detalhes nunca estiveram nos meus olhos, nem no meu toque, nem na minha boca. Eu já aprendi que o amor não é gritado, mas nas entrelinhas. Eu já me apaixonei mil vezes pra depois perceber que eu estava apaixonada por mim mesma. Eu já fui o inferno para os outros e, para alguém, eu talvez ainda seja. Eu já mudei a cor dos cabelos tentando ser outra pessoa, mas era a mesma pessoa que os hidratava todos os sábados e o colorido deles, não coloria a vida e nem a segunda-feira.

Já fui contra capitalismo, socialismo, liberalismo, marxismo, zapatismo e principalmente, cristianismo. Por que será que as ideologias terminam com “ismo”? Assim como algumas máfias... Já fui bruxa e disso conservo meu tarô, esquecido em alguma gaveta. Já fui à missa, mas sou pagã de nascença, nomeada com nome de guerreira africana que minha avó renegava, querendo me chamar de Maria. Já fui ao cemitério uma dúzia de vezes. Já quebrei todos os dedos das mãos, os dois joelhos, os dois pés e um fêmur. Já sofri três acidentes de carro. Já pulei de bang-jump. Já fui poliglota, música, atriz, bailarina, tri-atleta, contorcionista, artista plástica, por um período de três meses, cada. Eu já fui pedra, mas hoje sou coração. Eu já quis ser tudo e ser nada. Mas hoje, quero ser mulher, jornalista, socióloga, professora, livre e mãe de filhos adotados ou que tenham os olhos do meu pai e os livros do meu pai e os discos do meu pai.

Eu já fui a menina dos olhos. Eu já fui a neta preferida. Eu já fui de andar de skate, de pular corda, de pular elástico, de subir em árvore, de escalar erosão, de jogar futebol com a rua de cima. Eu sempre serei mineira e atleticana. Mesmo em 2005, na segunda divisão. Mesmo em 2010, quatro anos longe de minha cidade natal. Eu já fui errática, megalomaníaca e maledicente. Eu já menti pra Deus e o mundo, e posso estar mentindo por não acreditar em Deus e nem no mundo. Eu já morri de rir. Eu já renasci de rir. E estou renascendo desde então. Mas a manhã de hoje brincou de ser a manhã de ontem e continuo achando tudo isso um saco.

P.s: Eu já fui bipolar e já nasci geminiana.

04 março 2010