29 setembro 2009

Dos diálogos que ouvimos em pontos de ônibus

- Do livro dos livros, minha filha. A palavra da salvação.
- Não, obrigada.
- Aceite. Que mal há nisso? Vejo que anda perdida, é coisa que se percebe pelo olhar, pelos vícios.
- Não é para se compreender. Dizem por aí que a cada cigarro perde-se 15 minutos de vida, é nisso que acredito. Trata-se de minha crença principal. Mas por cinco segundo sente-se uma tremedeira nas pernas que me valem a eternidade, como uma força superior que vem de dentro, os dedos dos pés se esticam todos e é, nesse momento, que eu percebo toda e qualquer existência. Não acho que a senhora vá entender, mas Deus provavelmente sabe. Os meus motivos são muitos.
- Mais vale a saúde da alma.
- Nem todos acreditam em alma. Eu entendo bem de abstinências. São impossíveis de se explicar. Porém, algumas são inatas. Por exemplo, nasci com uma abstinência de amor quase sobrenatural e penso mesmo que Deus quis assim.
- Não diga isso, você não pode saber. Deus tem muitos planos para você. Falta você querer realizá-los.
- Desculpe, mas estou convencida que, quando fecho os olhos tragando 15 minutos de minha vida, sou tão confundida pelo vício como a senhora o é quando fecha os seus e repassa, mentalmente, alguma oração. São drogas diferentes, é claro, mas ambas nos fazem viver menos. Eu em quantidade e você em qualidade.

24 setembro 2009

2006

Tinha um lenço na lapela que cheirava a colônia (herança de alguém) e andava como um doido procurando coisa alguma sem que ninguém pensasse que lhe faltava o que quer que fosse. Estratagema de imagem. Ela se sentia uma tola por não ter nada daquilo que tanto precisava e por estar sempre pelos cantos se lamentando da serenidade perdida ou das moedas caídas dos bolsos furados. Mania de berço de se fazer de vítima e não esconder a necessidade vital de ser acalmada e acariciada, religiosamente. Tinha a certeza absoluta de que ele era incapaz de amá-la e de compreender as letras e significados implícitos nessa palavra - amor - tão forçosamente importante a todas do seu gênero. Acredito que, por culpa do senso que ele tinha de realidade, ela era apenas um deleite que lhe acontecia quando se cansava demais disso tudo o que é natural. Pois se amavam em outro plano e toda vez que encostava seus sussurros na audição dela provocava choques de consciência que negavam todos os pavores do mundo. Era como um eterno tobogã. Bebiam café enquanto ele fazia monólogos sobre os mais variados assuntos, que ela não precisava compreender. Enquanto isso, ela planejava alguma frase, junção de sílabas, que o convencesse a voltar, quem sabe, no mesmo dia. Caso acontecesse, a cachaça da cabeceira ia o embebedando de tanto carinho, enquanto ela contava sobre o dia banal, sobre as horas sem ele, sobre os minutos de saudade. Seu sorriso debochado permanecia por toda a noite, e os lábios abertos que sempre deixaram claro o tamanho da sua liberdade. Mas com uma paciência jamais vista nesta cidade, ela abria os braços que logo eram recompensados com a certeza de que era o colo dela, o peito dela, o encaixe dela que tanto lhe fazia falta. Porque de completo, eles só tínham a cama de solteiro que obrigava suas pernas a ocuparem o mesmo espaço. Disso tudo ela aprendeu a dizer sim, palavra fácil e macia se dita ao lado dele.

E, de tanto dizer sim, acabaram acorrentados, mas, dessa vez, a um compromisso social de dividir a cama de casal, sem que tentem, por momento algum, ocupar o mesmo espaço.

18 setembro 2009

Cortázar, meu querido.


Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas com soberania liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.


Você me olha, de perto me olha, cada vez mais perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam um dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só salva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.


10 setembro 2009

O Homem Macaco

A coisa mais triste do mundo é quando pessoas escolarizadas preferem permanecer na ignorância. Algo está errado para seguir tal anomalia de consciência. Sinto-me ferida, como se essa fosse uma necrose também na história da humanidade. Por outro lado, não possuo forças para discutir com os cegos de coração ou pior, os surdos que não ouvem os ecos, os gritos, as fúrias da sociedade desigual. E minha mortália me agoniza. O mundo permanece, enquanto bate a porta o meu suicídio social. A cada novo passo um pavor maior me domina. A descrença desvia meu sopro de luz, amaldiçoo o tempo e me obrigo a uma infertilidade forçada. Habitar esse mundo é o maior castigo, em tempo que a vida é adorável em inumeráveis particularidades. Não resta muito aos que odeiam a passividade, temem a morte e amam a vida, a não ser o desprezo. É um desprezo tão grande que altera a condição de existência. É um desprezo tão grande que descolore as relações humanas, como uma alergia sufocante e mortal.
O engraçado, o temoroso, o sádico é que tais pessoas conseguem ser amadas, de forma que o fruto de suas ignorâncias também é plantado em outros, talvez mais passivos e provavelmente mais indiferentes. E como uma epidemia, a ignorância cria sua morada, esparrama-se por entre os que ainda possuiam alguma reflexão. E eu, finalmente vencida, sou condenada a cruz eterna de viver entre os homens sem pensamentos.

"Estão assim até hoje nossas bandeiras.
O povo as bordou com sua ternura,
coseu os trapos com seu sofrimento.
Cravou a estrela com sua mão ardente.
E cortou, da camisa ou do céu,
o azul para a estrela da pátria.
O vermelho, gota a gota, ia nascendo."
- Neruda

08 setembro 2009

O Diabo senta a mesa

"Há quem diga que o diabo faz campana nas encruzilhadas, em busca de desavisados para sugerir tentações e os persuadir.
Já haviam se passado das dez da noite e na pequena televisão do bar transmitia-se um jogo qualquer de futebol. A televisão pequena, posta em um canto acima de um empilhado de engradados vazios, estava repleta de chuviscos e ruídos que só atraiam a atenção de poucos, quase ninguém - Não que pudesse atrair a atenção de muitos, já que, o público presente não ultrapassava dez. Eis que, as atenções, quase inexistentes, se voltam para um homem que implorava ao dono do estabelecimento uma cerveja fiada. O proprietário relutava e o pedinte gritava promessas de paga-lo, no máximo, em dois dias.
O dono, além de dono, era garçom, faxineiro, bedel e caixa, talvez até mesmo psicólogo, nunca se sabe. E pela freqüência quase religiosa de seus clientes fiéis, todos os presentes sabiam que ali, no comando, estava um homem avarento – Murrinha, mão de vaca, sovina, como preferirem. O inesperado então passou desapercebido aos olhos de dois (dos quatro que ainda acompanhavam a súplica alcoólica, em tom de mendigância). O exato momento em que uma sombra de complacência, quase angelical, tomou, por poucos segundos, o rosto daquele dono de bar. Olhou-o silenciosamente de cima a baixo e lhe permitiu uma cerveja fiada, como o carrasco que ouve o último pedido de sua vitima, mas só uma.
-Se ele fosse um maltrapilho, vestido em pano de saco e cinzas, o pedido de fiado não teria sido contemplado, não com a mesma misericórdia.
Existem penas e penas. Temos pena de meninos e homens de rua, sujos, que passam fome, que dormem nas calçadas e se cobrem com papelão. Mas nem sempre damos atenção a isso por pensar que aquela é, e sempre foi, sua condição irrevogável. Temos uma pena diferente quando vemos engravatados moribundos que se arrastam pelas paredes e não conseguem se manter em pé nem para pedir um copo de cachaça. Ao vê-los, nasce uma pergunta natural: “O que foi que os aconteceu?”. Ao vermos a quebra do paradigma social, para pior, nos enxergamos alí... E sentimos uma complacência maior, por medo.
O dono do triunfo da cerveja fiada era um homem de meia idade, com rugas e poros bem abertos. Calças e sapatos sociais, camisa rosa-claro e uma gravata com cores combinadas (que os modistas condenariam sem pensar duas vezes) que ele já não usava como recomendaria o bom figurino... Pois fizera dela um cachecol, um lenço que vivia caindo no chão em suas falas mais exaltadas – que eram muitas. Tinha cabelos lisos, um tanto oleosos, que não cobriam nem metade de sua testa grande. Seus olhos eram pequenos, mas estavam, na maioria do tempo, arregalados – Fazia parte de sua gesticulação natural. O nariz grosso com uma ponta fina o conferia uma certa harmonia, ainda que bizarra, com a boca larga que alternava bicos e mordidas labiais com acenos de cabeça. Parecia que, em tempos pretéritos, ele havia sido vaidoso. E que as desmazelas de sua aparência atual eram herança dos vícios e da escancarada loucura que estampara seu rosto e alma.
Adquirida a dádiva sublime da cerveja concedida aquele homem resolvera, como todo bom bêbado, chato e perturbador, pedir para se sentar com as únicas duas moças presentes no bar. E as duas, como não costumavam ser rudes a quem quer que fosse, permitiram a ousadia. Para impressiona-las com seu conhecimento o homem fazia comparações entre elas e celebridades pouco famosas. Ao ver que o entusiasmo era quase nulo, pediu a palavra dizendo-lhes que tinha algo muito importante a dizer sobre a vida, e disse:
- Quem sobe batendo, desce apanhando.
A primeira moça o olhou e acenou como se concordasse, embora a vontade que tinha fosse de gargalhar, pois sempre achara graça de frases feitas e senso comum.
-Eu pesava 140 kilos e sabe o que eu fiz? Duas palavras: Alcachofra Composta! Uma após cada refeição e continue comendo o que quiser tranqüilamente...O peso vai saindo, saindo, saindo.
Deu uma pausa e olhou pra baixo, fitando a gravata caída no chão...
-Eu vejo que vocês duas são pessoas muito inteligentes, jovens. Se apeguem a fé, ou a deus, ou ao diabo...Existe sombra sem luz? Me diz, existe sombra sem luz? Eu sou o diabo, vocês sabiam? Eu sou o diabo...
As duas moças, já despidas de simpatia, se entreolhavam com ares de quem acaba de ser ofendido. Talvez pela sugestão de um produto emagrecedor milagroso – Elas não precisavam daquilo. Talvez pela sugestão de deus, diabo e apego – Elas também não precisavam daquilo. O dono do bar olhava de longe toda aquela cena, como um pastor que cuida de suas ovelhas. Apesar da avareza já citada, era um bom comerciante. Sabia que clientes satisfeitos acabam sempre voltando. Notou que, de certa forma, aquele homem que se intitulara o demônio incomodava as garotas. E como um pai superprotetor, vez ou outra, interrompia a conversa para perguntar se o homem as incomodava. Elas diziam que não, pois não tinham coragem para dizer o contrário – Remeto, mais uma vez, a teoria da pena.
As falácias sobre sua origem diabólica prosseguiam e o homem mostrava-se cada vez mais atordoado. Seu discurso se embolava em diversas crenças e testemunhos de uma vida, que parecia, torpe.
- Eu já vivi demais e por isso não falo da juventude. Sou casado há muito tempo e minha mulher já não se importa mais. Não tenho filhos, mas quero ter. Se deus nos fez a sua imagem e semelhança ele deve ser muito louco. Pensem assim ó, como deus que levou um tempão pra criar isso tudo. Eu posso ser quem eu quiser, eu sou o diabo! Me apego na sombra, porque não existe sombra sem luz. Eu vejo que você é clarividente – Disse olhando para a primeira garota e dizendo mais uma vez
– Pensa, se deus criou isso tudo...Você consegue pensar nisso?
E a primeira moça, já sem muita paciência, responde:
-Mas...Eu não acredito em deus.
-E no diabo, você acredita?
-Também não.
A segunda moça, menos tímida e mais inteligente, se intromete de repente:
- Deus e o diabo não existem porque são representações humanas.
E antes mesmo que terminasse a frase, ele sussurou:
- Desde que te vi, gostei de você...Você é uma intelectual, tem um grande entendimento da vida, lê muitos livros, mas eu... Eu sou só diabo.
Dito isso, levantou-se com uma grande convicção de si mesmo, de saber ser quem dizia que era, mesmo que não fosse. Tamanha certeza trazia consigo uma coisa estranha no ar, um pouco mística e um tanto folclórica. Ele transformaria céticas em crédulas por alguns instantes, se o olhassem com profundidade nos olhos? Se as perguntassem, negariam. Porque nem a maior autoconfiança do mundo o poupava dos tropeços e da falta de equilíbrio ao andar – É que a fisiologia está acima da maioria das convicções racionais.
Superado os dilemas e todos os minutos, o diabo se retirou. Arrastando a garrafa fiada, completamente seca, e sumindo pela porta, em direção as ruas já vazias, como o ator principal que ao fechar das cortinas, despe-se do personagem e pode se transfigurar em um homem somente, carnal. Não mais procurando uma encruzilhada ou uma mesa de bar."
Porque relato bem contado a gente republica.
Obrigada amiga, por estar sempre comigo
- mesmo no dia de conhecer o Diabo.

03 setembro 2009

O querer.














































E eu que sempre pensei que não sabia o que eu queria.
Pois, aí está.

Sobre o amor para viver

O mundo está vazio. Esquecido entre os velhos que jogam xadrez na esquina. Escondido entre as faixas publicitárias dos muros. Invisível nos bancos coloridos das praças. Pisoteado nas folhas caídas da estação. Evaporado nos sonhos dos que cansaram de sonhar. O mundo está vazio. Somente nós dois percebemos isso. Eu e você e o mundo vazio, coexistimos sem saber existir. Talvez seja porque a voz foi calada e nada mais nos importa, ou o tempo ficou atarefado para nos juntar de novo, ou a cama desarrumada sente saudade do calor de nós. Se acaso o mundo se enchesse de você, dessa vez, pianinho, do jeito mansinho que deve ser, com a voz em compasso, sussurraria baixinho que eu te quero. Eu te quero. Eu te quero. E só de imaginar, o mundo vazio se enche de vida. De amor para viver.