28 novembro 2010

morder.você.



morder, morder, morder, morder.

23 novembro 2010

underworld

Escrito em setembro, encontrado hoje.

Mal consigo me lembrar dos motivos iniciais. A cidade, suja cidade, desperta agora olhos mais críticos e que, ultimamente, andam amargurados. Onde estava escondia toda essa pobreza de espírito e de bolso? Como se esconderam de mim, decadência e precariedade?

A cidade, a minha cidade, agora explícita em sua pequenez. O esforço desperdiçado anda a vagar, em um último suspiro de impaciência. Seus defeitos agora são impiedosos, fazem questão de esfregar os destroços dos meus sonhos pueris na minha cara tão limpa e dispersa. Olhos, redondos olhos, assustados olhos e por fim, molhados, encharcados olhos.

E eu pergunto, por que?

Talvez porque a esperança tardava na caixa preta de Pandora e agora, que se pôs a mostra não deixou nem sombra da nostalgia de antes. Arrastou a inocência de mim, essa quimera.

Mas eu te amo, não entenda mal. Apenas te amo com suas cicatrizes, sua face paralisada, sua anemia, sua intoxicação, seus germes, suas desgraças. Oh, cidade sitiada. Eu te amo, mas não te desejo mais.

...

Ps: ser romântica mas não amar, arranca de mim toda a minha capacidade criativa.

08 novembro 2010

Aos crentes

Anna Karina, dans Vivre sa vie.



É fácil para uma mulher dizer que nunca amou ninguém. Sorrir, olhando para o trio de ases, sorrir. É fácil expressar assim, com a ponto dos dedos e indicar o caminho da cama. “Há tantos destinos por aqueles lençóis”, é fácil pensar. Sentir o cheiro de suor, os cabelos grudados na nuca. É fácil sair só de sutiã, buscar um café na cozinha. Encher a casa de aroma campestre. É fácil oferecer um chá preto, para curar a garganta arranhada. Alisar o nariz na face cheia de pêlos, de barba, ou beijar, carinhosa, os machucados que a lâmina faz em dia de feira. É fácil buscar uma cerveja gelada, ou uma sopa, um pedaço de pão. Pintar os lábios, rosar as bochechas e exercitar a sutileza. Mas é ainda mais fácil para uma mulher dizer que nunca amou ninguém.

E todos hão de acreditar.

18 setembro 2010

Histórias de amor não duram nem 90 minutos

É raro que filmes façam retratos tão fiéis de mim a ponto de meus dedos sentirem o impulso para lamentar sobre o assunto. Hoje aconteceu.

Deitada na cama enorme, cama de pequeno-burguês, eu me vi sozinha, mais sozinha do que o normal e ainda por cima, com tesão por Caio Blat. Não é uma novidade. Caio Blat, para mim, sempre será Caio Blat. Mas desta vez foi o personagem, versão masculina de mim mesma, que me molhou inteira, por dentro e por fora.


Então é isso? Procuro, ao final, por mim mesma com um pênis? Com uma bunda redonda, uma barba por fazer e um vazio no bolso e no peito. É isso?

E por fim, eu concordo. Provável que aos 30 anos também não tenha realizado a mim mesma. Uma dessas pessoas que escorrega pela vida, que era promessa de tudo mas acabou por não fazer nada do que estava apta a fazer. Jogou os sonhos no lixo e fumou, e cheirou, e bebeu, e injetou todos os dons. Chorou as lágrimas mais sôfregas com a água da banheira entupindo os pulmões, o cheiro do gás entupindo as veias e o corte profundo levando o sangue embora. Mas no dia seguinte, permaneceu viva para escrever.

Escrever é um lixo. “Imagino mil histórias para todas as pessoas que vejo na rua. Mas acabo, por fim, sempre escrevendo sobre mim mesmo. E penso – quem é que vai querer ler algo sobre mim? A minha vida é uma bosta”, ou mais ou menos isso.

Diferente, no entanto, os meus ídolos nunca se mataram. Aceitaram a carne, o vício da esperança e entenderam o depois. São os homens revoltados, porém covardes. Homens ateus, com as calças borradas de tantos penachos, que falam as frases que mais me fazem sangrar e deliram com as drogas que esse mundo há de me proporcionar também, um dia. Quando toda a juventude já tiver me abandonado.

“Tem pessoas que simplesmente não sabem ser felizes”. Sim. Há frase semelhante também em Closer. Haverá a mesma sentença por todos os 365 dias do meu ano.

"A vida dura muito mais do que 90 minutos" e o amor nem isso consegue durar. Não para mim.

17 setembro 2010

Página virada, descartada

Eu acho que você não entende o que foi que me fez.

Ontem eu fui à terapia. Voltei para a terapia. Queria contar a ela que tinha retomado meus vícios. Disse a ela que precisaria deles em São Paulo. Porque eles me permitem ser alguém que não sou. Ela perguntou “quem você é?”. Pateticamente, eu respondi “eu sou alguém triste”. E então, claro, ela quis saber o porquê. E eu disse “acho que é porque minha casa não tem janelas o suficiente”.

Provavelmente ela não esperava por essa reposta. Talvez muita gente diga que é triste. Ali, naquele mesmo divã. Aliás, devem ser todos tristes. No entanto, que covardia é essa de perguntar, para alguém que já recorre a um terapeuta, quem essa pessoa é? Que soco covarde é esse? Que tiro nas costas!

Fico pensando, toda vez que ela me olha com cara de compreensão que, na solidão da casa dela, ela deve bater mais siririca do que eu. Talvez naquele mesmo divã, algum dia ou de vez em quando.

Vai saber. “A gente nunca imagina a vida por detrás da página”. E nós não conhecemos ninguém de verdade. O mais normal é sempre o mais vadio, o mais safado, o mais promíscuo. Pelo menos, eu prefiro acreditar que toda pureza é mito e que toda normalidade é falsa. Terapia é o caralho.

Pensei em você naquela sala. Mas não falei sobre você. Não achei que merecia.

-

Estou ouvindo Gal agora. Nunca te perguntei se gostava de Gal e agora já não faz mais sentido. Mas é provável que goste. Eu nunca saberei.

Nós nunca saberemos.

08 setembro 2010

Cinema Mudo




Eu temia meu orgulho, acreditando que seria ele o causador da destruição de tudo o que há de belo na vida. Eu temia minhas palavras entrecortadas, que viviam a assumir minha suprema liberdade e independência. Eu temia a mim e somente aos meus atos. Pois não contava com a covardia alheia, maior defeito do mundo. 

Logo tu, Brutus, que me ouviu reclamar de como faltavam culhões no mundo, de como os homens são criados como maricas (Isso sem fazer nenhuma referência aos homossexuais. Porque, sinceramente, conheço homossexuais que são sete mil vezes mais homens do que esses desmembrados de masculinidade) e de como os desprezo. Logo tu, que sabia qual era o golpe final, aquele que mais me magoaria e que me afastaria, léguas e léguas a nos separar. Até tu, Brutus, resolves-te me envergonhar por ter acreditado, em um singelo momento, que poderia haver gente excepcional no mundo? Precisava, Brutus? Forçar sua presença sem razão e depois arrancá-la, impiedoso, como se não houvesse nenhuma conseqüência para seus atos. As músicas não tocam mais, os livros não são lidos e os filmes já não são vistos. O tempo, todo aquele tempo que gastamos, poeira de tempo! Ora Brutus, quanto esforço por tão pouco, quanta infantilidade. Sinceramente, pesavas mesmo que poderia destronar meu orgulho, apenas porque me viu volúvel? Apenas porque, por um momento, fui sua? Total e irracionalmente sua? Não compreendes Brutus, não compreendes. 

Veja a sua volta Brutus, me diga o que mudou. Sinta o silêncio e depois me diga, vamos! Quem te ouvirá nas noites tardias? A quem poderá lamentar a ignorância de seus amigos, a forma como eles já não te completam? Quem te ligará de madrugada pra comentar um trecho de romance que você jamais lerá? Quem ouvirá sobre os seus sonhos e te apoiará nos fracassos? Quem? Com quem poderá se informar sobre os filmes que virão e sobre os imperdíveis do passado? Quem listará as melhores músicas, as fundamentais? Vamos, respire e me diga! Quem, nesse seu mundo medíocre, te ouvirá nas noites tardias? 

Espero que o grito sufocado que andei a ouvir de ti não te mate, lentamente, levando o ar de seus pulmões. Carregando os segundos de vida, mantendo-o preso no silêncio. Espero que não sofras sozinho. Espero que se cure. Porque Brutus, nós somos diferentes. Eu não quero que definhes na minha frente e nem longe de mim. Aprendi a lição e isso não me mudará. Porque tenho pena Brutus, muita pena. Fico pensando que, quando a vida me espalmar com luvas (ou sem elas), eu poderei escrever, como sempre fiz. Poderei afastar as desgraças do mundo. Senti-las abandonando meus dedos, a medida que junto as palavras em uma folha de papel. Eu tenho minha terapia. Já você, você não tem nada, Brutus. Nada! Você não sabe ser verdadeiro com aqueles que se importam contigo, você não acredita em terapia, você não lê filosofia e você não escreve. O que será de ti? 

Sugiro que arrume culhões Brutus, ou em breve, não existirá nem mesmo um gênero a que possa pertencer. Pois mulheres e homossexuais tem muito mais bolas do que você. E é lamentável.

05 setembro 2010

Verdade, é difícil?




Pouco antes do inferno eu disse: “Ok, só me diga a verdade”. Nunca tinha tido problemas de rejeição antes. Óbvio, já tinha sido rejeitada, muitas e muitas vezes. Mas isso não me incomodava. As pessoas vêm e vão. As vontades também. É muito natural que em um dia corrosivo te olhem nos olhos e digam “Desculpe, eu não quero mais”. Também já falei isso. A sinceridade, um dom. Gosto que me digam se estou fedendo, se tenho algo agarrado no dente, se engordei cinco quilos em uma semana, se meus sapatos não combinam com minha roupa, se preciso cortar o cabelo. Mas, principalmente, eu gosto de saber o que está acontecendo ao meu redor. Ter esse controle é vital para o bom funcionamento do meu cérebro. Preferiria mil vezes que me dissesse “Eu não quero“, do que todos esses subterfúgios que afugentam minha admiração e meu desejo. E sabe? Desejo é tudo. O mundo nasceu do desejo. E nosso mundo morrerá sem ele.



Todo esse drama. Killing me softly.

03 setembro 2010

Das conversas com taxistas, esses filósofos

- Olá, bom dia!
- Bom dia! Para onde?
- Ah, eu não sei o nome da rua. Não, não. Não se preocupe! Eu sei como chegar nela, eu só não sei nomeá-la.
- Tem certeza?
- Sim,sim. Quer dizer... acho que sim. BH não mudou, mudou?
- Não, BH nunca muda.
- Fale por você!
- O quê?
- Nada não. Por favor, vire a esquerda.

[...]

- As passagens aumentaram de novo?
- O quê?
- As passagens de ônibus, aumentaram de novo?
- Eu não tenho idéia, senhorita. Mas deve ter aumentado sim, teve greve outro dia.
- É, eu vi no jornal. E está escrito ali, na parede.

>>CONTRA O AUMENTO DAS PASSAGENS<<
>>USE SUA CONSCIÊNCIA, VOTE NULO<<

- Pois é, essas paredes estão sempre pichadas. Não há o que fazer.
- É, nisso BH não mudou.
- Você é daqui?
- Sim, mas não totalmente.
- Como assim?
- Eu moro em Brasília hoje. Mas nasci aqui, minha mãe é de Mutum e meu pai é de Salvador. Então, acho que sou de todos esses lugares. Eu gosto muito de cada um deles, pra coisas diferentes.
- Eu estive em Brasília ano passado. Fiquei três meses, a serviço. Gostei muito. Mas prefiro aqui. Não me leve a mal, eu não sou mineiro-mineiro. Mas encontrei minha cidade, quando cheguei aqui.
- Entendo o que você quer dizer. Mas olha, as coisas mudam quando a gente vai embora. Quer dizer, BH continua sendo minha cidade, mas não é a única. Nela também faltam muitas coisas.
- Você quer dizer, emprego, essas coisas?
- Também, também. Mas principalmente, pessoas. Gente com diferentes pontos de vista, sabe? Acho que, depois que você conhece outras realidades, ficar em um só lugar dá claustrofobia. Cada ausência dói mais do que deveria e ausência de opiniões, isso é ainda mais forte.
- Eu não entendi.
- Ah, quero dizer que as pessoas de BH pensam de uma forma. Elas esperam uma coisa da vida, levam a rotina de um jeito, saem no final de semana para alguns lugares. Em Brasília as pessoas esperam e fazem coisas diferentes. Em Salvador, ainda por cima, é super diferente. Claro, isso as minhas pessoas. Não estou generalizando... Aí, cada mania dessas pessoas acabou tomando importância na minha vida. Vire ali, a direita e depois esquerda. Então, as vezes quero fazer coisas que só faria em BH e, noutras vezes, quero viver minha vida cronometrada de Brasília ou a folia de Salvador. No final das contas, não posso viver em paz em nenhum desses lugares e também não posso juntar tudo isso em um lugar só. Bom, esse lugar só não existe.
- Você pode tentar.
- É isso que faço, vez ou outra. Mas quando não dá certo, cansa. Sentir ausência cansa.
- Mas não sentir a ausência é impossível. Quer dizer, sempre estaremos sentindo falta de alguma coisa, não é?
- Provavelmente, sim. Mas o senhor já se sentiu dividido entre tantas cidades assim?
- Não, cidades não. Já me senti dividido entre mulheres, muitas mulheres. Mas acabei escolhendo uma e ela foi a certa para mim. Não me arrependi da minha escolha, apesar de ainda sentir saudade das outras. Isso é inevitável.
- Mas Belo Horizonte não é uma mulher, né? Não posso testá-la pra descobrir nossas afinidades.
- Claro que pode e tenho certeza que você vai.
- É ali, 61. Aqui, isso. Obrigada. Deu quanto?
- R$ 13,00.
- Calma, acho que tenho trocado aqui, em algum lugar. Aqui, tome. Obrigada, muito obrigada.
- Obrigado você. Boa estadia, espero que consiga escolher, espero que seja BH.
- Veremos. Veremos.

* Para registro, eu não concordo com a política de votar nulo. Se você quer se ausentar de uma posição, então depois não julgue a decisão que os outros tomaram em seu lugar. Para reclamar é preciso comprometimento. E tenho dito!

02 setembro 2010

A Sutileza



Me escreva uma carta sem remetente
Só o necessário e se está contente
Tente lembrar quais eram os planos
Se nada mudou com o passar dos anos
E me pergunte o que será do nosso amor?

Descreva pra mim sua latitude
Que eu tento te achar no mapa-múndi
Ponha um pouco de delicadeza
No que escrever e onde quer que me esqueças
E eu te pergunto o que será do nosso amor?

Ah! Se eu pudesse voltar atrás
Ah! Se eu pudesse voltar.

30 agosto 2010

Saudade. Beijo.

Veja bem, eu não consigo juntar as sílabas como você faz. Expressar desejos, dúvidas e sentimentos com uma palavra e ponto final. “Antes uma única palavra do que onomatopéias”, eu poderia dizer. Mas não quero inventar desculpas por você ser como é. Eu quero ver a vida com o seu jeito, quero aceitá-lo. Percebe a força disso? Eu quero entrar nas coisas que vejo nos seus olhos e que ouço na sua voz, toda vez que você assim permitir. Mas também quero aceitar aquelas que jamais poderei tocar, por serem suas demais. Por você ser outro alguém. Já entendi que você jamais pertencerá a mim e nem eu a você. Eu não quero ser algo vital, tipo água, ou fogo, terra, ar e cosmo. Nem por um segundo, não quero te ver preso ou te ter só para mim. Você é tão maravilhoso batendo suas asas por aí, caminhando contra o tempo. Eu não sinto medo como antes. Eu sinto calmaria e, por enquanto, esse sereno não dói. Palavra e ponto final.

Se cuida.

21 agosto 2010

Agosto, moglie mia non ti conosco


Natasha, to love is to suffer. To avoid suffering, one must not love. But, then one suffers from not loving. Therefore, to love is to suffer, not to love is to suffer, to suffer is to suffer. To be happy is to love, to be happy, then, is to suffer, but suffering makes one unhappy, therefore, to be unhappy one must love, or love to suffer, or suffer from too much happiness. I hope you're getting this down. 

Woody Allen, Love and Death (1975)

19 agosto 2010

Das cartas que te escrevo e não envio


(É preciso antes contextualizar os sentimentos. Quando me disse que tinha me enviado um fino, eu fiquei com o coração na boca. Acho que isso foi há um mês atrás. É claro que sei que não é um gesto romântico. Mas eu também acredito que não é romantismo que espero. Porque eu teria que retribuí-los e não sei ao certo se saberia fazer isso. Com gestos, não sei. Lembro que também me disse que eu poderia te enviar o que eu quisesse. No começo eu pensava em te mandar fragmentos dos livros que leio, aqui, longe de ti. Depois pensei em te enviar tirinhas, de jornal, de revista e dos meus quadrinhos. E depois, quando percebi que, na verdade, nunca teria coragem de te enviar nada disso, passei a escrever cartas. Escrever de verdade, páginas e páginas das coisas mais banais. Das coisas que só são banais porque você não está aqui. Algumas hoje devem estar na reciclagem. Aqui fazemos coleta seletiva. O fato é que essas cartas são verborrágicas e quando as leio novamente, são aflitivas para mim. Você não me perdoaria se eu as enviasse, porque, diferente de ti, não sei dar um peso de afeto nas coisas que digo e não sei manter o mistério. Sou sempre dramática e as coisas que digo, não têm perdão. Eu teria dito que te amava, sem amar. Que te odiava, sem odiar. Porque o valor do que sinto, nunca é claro para mim. E a verdade, no final das contas, é que talvez nada sentia e não sinto. Só curiosidade por algo que nunca tive e, no seu caso, o algo que ninguém jamais conseguirá ter. É por isso que pensa que ninguém escreve ao Coronel. Pois se engana, eu escrevo ao matemático quase diariamente. Mas, a força de minhas palavras tanto me apavora que há muito tempo me livrei de teu endereço. O próximo passo será livrar-me de mim ou de ti. Veremos com o decorrer do tempo...)


Duas Semanas Atrás
Terminei de ler um livro hoje que meu amigo argentino me indicou. Foi o único indicado por ele que eu não tinha lido ainda. Por isso, o comprei. Me arrependi. Afora algumas metáforas, não vale R$ 39,90. E, não quero parecer preconceituosa, mas não sabia que japoneses sabiam fazer piadas de humor negro. Eles nem mesmo beijam em público, como podem ironizar?
Mas é engraçado, por mais medíocre que um livro seja, sempre há um trecho que prende minha atenção por alguns momentos. Uma vez eu tinha cinco reais no bolso e passei em uma banca para comprar um maço. Na época eu fumava Lucky Strike vermelho. Era uma época mais niilista. Acontece que não comprei o cigarro. Por algum motivo, comprei uma daquelas publicações com papel de jornal, de onde saem às novelas mexicanas. Já viu? Se houvesse algumas cenas de sexo nesses folhetins, estou convencida de que dariam filmes pornôs perfeitamente passáveis. Apesar de nunca ter assistido um de verdade, eles sempre me deram muito sono. Enfim, o trecho do folhetim que me deixou intrigada dizia:
“Latinoamericanos sabem como se deve sofrer”
Lembro que essa frase me arrancou um sorriso. Porque é um tanto animador atribuir o sofrimento como uma característica. Ou seja, o drama recebendo seu lugar de direito. É bonito, não é?
Outro dia minha mãe disse algo como o contrário disso. Ela disse que eu não sabia nem sofrer e nem ser feliz. Eu adoro a simplicidade como as coisas saem da boca dela. É claro que eu me denfendi, porque se não eu seria como um rio de nada, um tédio sem trilhos, “oceano sem mar”. Então, contei a ela sobre essa coisa dos trechos, como sou apegada as frases no geral. Ela se convenceu, disse que havia esperanças para mim, afinal. Tive que revelar outras manias também, associadas ao tema “das pequenas coisas”. Mas eu não contaria, todas elas, a você, em uma carta. Quer dizer, minhas manias são demasiado especiais para serem dadas assim, de bandeja. Não queremos que você se apaixone por mim. Vou poupá-lo então, da dimensão do meu charme.
Sim, voltando ao livro do Japonês. A personagem principal escreve ao narrador uma carta de cinco páginas. Apenas falando trivialidades, assim. Se eu escrevesse cinco páginas, você as leria? Teria paciência para elas?
Eu ainda não contei, entretanto, o trecho do livro que me fez sorrir. Vou transcrevê-lo aqui:
“ – Depois disso tudo, não comece a me odiar, está bem? – disse Sumire. Sua voz foi como uma fala em um velho filme preto e branco de Juan-Luc Godard, filtrando-se além de minha consciência.
- Depois disso tudo, não vou começar a odiá-la – repliquei.”
E então, o que achou? Primeiro eu sorri. Imaginar um diálogo em japonês em um filme do Godard, foi como imaginar um filme do Almodóvar sobre heterossexualismo. Depois eu me deixei envolver pela força do diálogo e claro, pelo sentimento do narrador. Deve ser incrível ouvir uma frase tão singular que ela faz com que você se sinta em um filme e deve ser impressionante ter o poder de infiltrar na consciência, brincar de se instalar ali sem que nunca mais consigam se livrar de suas palavras. Palavras eternas.
Será que um dia serei capaz de tais palavras?
Semana Passada
Eu preciso rebatizar o que sinto por você. Não é mais a mesma coisa. Nesse momento, não conheço a palavra que nomeia esse sentimento. Sinto você escorrendo para fora de mim e é algo simples, como suor nas noites de verão. Sinto a derrota de escapar mais uma vez, mas meu corpo aceita, submisso. Os meus olhos nem sequer ficam molhados vendo você se esvaindo, descendo pelo ralo de manhã. A idéia que eu tinha de você foi deposta, escorraçada em praça pública, apedrejada, humilhada e maltratada. A ilusão morreu.
Mas o que, então, é isso que sinto por esse você que existe aí, distante? Eu ainda não sei nomear e mesmo exercitando a minha leitura, não consigo trazer para o meu vocabulário essa palavra sutil que finalmente limitará seu poder sob mim e o meu sobre ti.

– Depois disso tudo, não comece a me odiar, está bem? –
Hoje
“Qualquer maneira de amor vale o pranto”.

05 agosto 2010

Invalidez

Sempre achei que existiam apenas dois tipos de pessoas. As que gritavam e as que ouviam a curva do vento passar pela janela. Passei muitos anos e muitas linhas até descobrir que o grito não fazia com que o vento da janela fosse menos ameaçador. Era preciso menos urgência e, definitivamente, era preciso coragem.

Meu medo, pequenino, era um dia me calar de uma só vez, por dar mais valor à palavra do outro do que a minha própria. Seria sinal da minha imensa vulgaridade, a necessidade de outra voz. O que eu queria era a independência eterna. Eu não queria mais nada além de mim mesma e eu também não precisava.

“O que me vale mais, a felicidade barata ou o sofrimento elevado?”, dizíamos eu e Anna Karenina, viciadas no impossível, no intocado, na morfina e entregues ao suicídio depois que já não havia nada a ser realizado. Antes atropeladas por um trem do que pelo tédio.

Agora chego a esse impasse. A escolha silenciosa entre meu grito ou a curva incestuosa do vento. Fico muda, frente ao seu poder, sua negligência, sua existência escorregadia e sua absoluta falta de tato.  Fico surda ao lamento dos outros, as suas preocupações com meu coração inexperiente. Fico cega e lamentavelmente fraca. Por você, sou inválida.



A verdade é que eu só não queria ser conhecida como alguém que sonhava os sonhos errados. 

04 agosto 2010

20 julho 2010

É




De tudo, fizemos

Você não poderia dizer “Vem. Vem que eu te quero fraca”. Você não me quer assim, não suporta me ver perguntando o que devo fazer. Ver-me pedindo por ajuda te enoja. Você me quer madura, pronta pro mundo, com as garras de fora, o sarcasmo afiado. Você me quer inteira, tem preguiça de colher os meus pedaços por aí.
Você ri e desdenha das minhas dúvidas e meus receios. Meu medo, meu supremo e absoluto medo, você não o compreende.  Acredita ser infantil esse pavor que passa por meus olhos antes da madrugada me seduzir. Você não compreende.
Você tem razão. Está entendendo? Você é o dono da razão. Pois tudo aquilo que começa doloroso, há de acabar em sanatório. E eu, fraca assim, só te trarei decepção. Reclamando do barulho do relógio, da ventania de agosto, do café gelado e principalmente, de você.


E quando eu me curasse, você diria “Vem. Vem que eu te quero forte”. Mas então eu responderia, “Agora é tarde, ta lindo lá fora”. 

Eu não vou mais sangrar perto de ti.


06 julho 2010

Janela, palavra linda.

Uma vez eu conheci um americano que tinha muitos defeitos. Fora o fato de ser americano, obviamente. Mas de uma coisa devo perdoá-lo. Quando ele disse, reprimindo o bairrismo, que a “janela” era a palavra mais linda de minha língua. Pude sorrir triunfante, pois, realmente, que coisa maravilhosa é a língua portuguesa.

Janela • sf (lat vulg ianuella, dim de ianua) 1. Abertura nas paredes dos edifícios, para deixar passar a luz e o ar. 2. Caixilho de madeira, ferro com que se fecha essa abertura. 3. fam Abertura, buraco ou rasgão na roupa ou no calçado. 4. Geol Abertura no solo, causada pela erosão, por onde se percebe o substrato de camadas mais antigas. 5. Tip Claro existente num escrito, correspondente a alguma palavra que falta e se deve escrever. 6. Abertura nos veículos, de forma variável, em geral com vidro, pela qual os passageiros podem ver a paisagem.

Pois que digam mal de nossas ignorâncias, mas deve ser horrível mirar windows, e não janelas e principalmente, deve ser amedrontador não saber sentir saudade.








Parafraseando de(coeur)ação: Eu tenho inveja de quem tem banco na janela.
 
Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.

- Adélia Prado





27 junho 2010

"O último dos sonhos que eu sempre sonhei"

Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.
E este é o motivo pelo qual permaneço aqui,
Sozinho e vagorosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens ao lago,
E nenhum pássaro canta.








A saudade é um veneno e um vício. Como um opiário que me permite trazer aquilo que aqui não está e, embriagada, fica mais fácil imaginar o que não vivi como uma lembrança.
Eu vivi pouco e, por isso, invejo esses casos trágicos de personalidades que escreveram seus nomes na linha do tempo de todos os amantes e ainda são felicitados com uma pneumunia fulminante ou uma tuberculose, aos 25 anos. Como é bonito morrer gênio e jovem. Não ser obrigado a ver seu próprio declínio, a conviver com a soberania do tempo que transforma toda genialidade em passado e toda lembrança em saudade. Morrer são e invicto. Como um imperador que suspira pela última vez com a memória fresca de seu legado intocado. 
É impiedoso o que escrevo, mas essa é a noite mais fria do ano e não existe outro sentimento a não ser a saudade - essa maldita que é incapaz de esquentar meus pés.
Sinto-me por vezes tão feliz, porque finalmente os meus anseios foram atendidos e me foi demonstrado que "alguém definido" existe. Existe com maestria, de um jeito único e gostoso, atribuindo novo significado à condição de haver. Um jeito singular que, em 20 anos de poesia, nunca me passou pela cabeça. 
Mas, por fim, acostumada com a maneira simplória com que a vida me passa, lembro-me de todas as impossibilidades da minha condição frágil de humana e também das obrigações que tenho com a sociedade burguesa-patriarcal. A premissa de fazer sentido e ser útil da qual sou escrava.
Sim, eu não sei dirigir. Mas também não sei voar, não sei me deslocar automaticamente, por mais intenso que meu desejo seja e é. Não sei nadar, a braçadas largas, pelo fio da vida até encontrar repouso onde gostaria de estar. A relatividade do tempo me acorrenta e tortura, repetidas vezes, como um carrasco que encontra a morada perfeita para seu sadismo.
Ser humana é vulgar e patético. Nós, diferentes do vinho, por mais bem guardados que sejamos, não nos transformaremos em champagne. Se meu nome fosse John, faltariam cinco anos até que uma noite, mais fria que esta, me carregasse em um delírio, para um fim mais digno do que o envelhecer. 
Se fossemos pássaros, estaríamos juntos ao Sul.

24 junho 2010

05 junho 2010

Chupa essa, que é de uva





E assim você chegou, três anos atrasado, com seu sotaque sulista e sua magreza monumental. Abraçado em toda a boçalidade. E eu já te chamei de sisudo e de altivo. O tempo passa e os adjetivos mudam, é inevitável. É estranho, você sempre foi e sempre será estranho. Mas não do tipo emocionante-estranho, não mais.


Eu sabia seus caminhos, os corredores que percorria na biblioteca pública, os livros que tinham suas anotações e com quais eu concordava. Eu as tinha na ponta da língua. Porque um dia, através do espelho¹, eu diria, como se suas palavras fossem minhas, que “O Estrangeiro não consegue ser melhor do que A Metamorfose, mesmo o ateísmo sendo mais atraente no primeiro”. A República Dominicana nunca mais seria a mesma, eu pensava.


Eu admirava suas unhas ruídas, suas calças rasgadas, suas poucas palavras, seu rosto inexpressivo, sua ausência. Eu amava a sua ausência. Pois ela era a única constante na minha vida de menina mimada, de menina sofrida, de menina sozinha, de menina masoquista, de menina. Todos os dias eu te esperava, mas a verdade é que eu esperava por mim mesma. Por uma voz dentro de mim que concordasse com quem eu era.


É covarde aquele que espera. O nome da espera é medo. Não há nada mais confortável do que esperar. O (in)certo é a procura, a entrega e, enfim, a liberdade. O humano, demasiadamente humano², seria levantar-se em minha duas patas traseiras, caminhar até você e descobrir sua mediocridade três anos atrás. Descobrir sua confusão e, principalmente, ajudá-lo a se esclarecer. Toda aquela filosofia e mitologia gregas, os contos eróticos e os aterrorizantes, os romances niilistas, as músicas de protesto, o cinema de vanguarda, a sociologia aplicada não conseguiram te transformar em alguém definido³. Você será sempre o Outro, para homens, mulheres e, para mim, ser sempre Outro é patético. Porque você não consegue criar identidade nem consigo mesmo.


Os beijos que pediu, seriam de escárnio, pode apostar. O vinho que ofereceu, seria uma ofensa minha a você. E nenhuma cama, em nenhum hotel, em nenhum momento, poderia mudar essa minha nova percepção. Não há, ainda, nenhuma voz dentro de mim que concorde com essa que sou. Mas eu sou e eu procuro ser. Eu estou sempre à procura de alguma coisa que nunca vou encontrar. A diferença é que ninguém poderá dizer que eu não tentei, que não fui livre, que não atravessei o espelho, que não dancei na chuva, que não nadei pelada, que não me solidarizei com o mundo, que não apontei estrelas por medo de verrugas, que não beijei meu semelhante, que não cuspi em meu semelhante, ou que fui objeto de eterna alteridade. A diferença entre nós e entre mim e a menina que te amou, é que a incompletude do mundo não me apavora e paralisa. Ela me faz reagir e como parte do inevitável círculo da vida, eu discorro sobre o tempo e a modernidade com o sorriso faceiro de ter te dado o não que você sempre mereceu.


04 junho 2010

Der Mann ohne Eigenschaften, Der Mann ohne Verwandtschaften

Quando o Amor junta-se à Sociologia...

“Odo Marquard falou, não necessariamente com ironia, do parentesco etimológico entre zwei e Zweifel (‘dois’ e ‘dúvida’) e insinuou que o elo entre essas palavras vai além da simples aliteração. Onde há dois não há certeza. E quando o outro é reconhecido como um ‘segundo’ plenamente independente, soberano – e não uma simples extensão, eco, ferramenta ou empregado trabalhando para mim, o primeiro – a incerteza é reconhecida e aceita. Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro.
Franz Kafka observou que somos duplamente distintos de Deus. Tendo comido da árvore do bem e do mal, nós nos distinguimos Dele, enquanto o fato de não termos comida da árvore da vida O distingue de nós. Ele (a eternidade, na qual se abraçam todos os seres e seus feitos, em que tudo que pode ser é, e tudo que pode acontecer acontece) está próximo de nós. Fadado a permanecer secreto – eternamente além de nossa compreensão. Mas sabemos disso, o que não nos permite ter sossego. Desde a fracassada tentativa de erigir a Torre de Babel, não podemos deixar de tentar e errar e fracassar e tentar novamente.
Tentar o quê? Rejeitar essa distinção, rejeitar a negação do direito aos frutos da árvore da vida. Prosseguir tentando e fracassar nas tentativas é humano, demasiadamente humano. Se a alteridade é, segundo Levinas, o derradeiro mistério, o absolutamente desconhecido e o totalmente impenetrável, isso não pode ser uma ofensa e um desafio – precisamente por ser divino: barrando o acesso, negando o ingresso, inatingível e eternamente além do nosso alcance. Mas (como Rozenberg insiste em nos lembrar) ‘o limitado não pode ser alcançado por meio da organização... As coisas mais elevadas não podem ser planejadas. Imediatez é tudo para elas.’
Imediatez para quê? ‘O discurso é amarrado ao tempo e por ele nutrido... Não sabe de antemão onde vai terminar. Segue o exemplo de outros. De fato, vive em virtude da vida de outro... Na conversa real, alguma coisa acontece’. Rosenweig explica quem é esse ‘outro’, por cuja vida vive o discurso de modo a que alguma coisa possa acontecer na conversa: esse outro ‘é sempre um alguém bem definido’ que não tem ‘apenas ouvidos, como todo mundo, mas também uma boca’.
É exatamente isso que faz o amor: destaca um outro de ‘todo mundo’, e por meio desse ato remodela ‘um’ outro transformando-o num ‘alguém bem definido’, dotado de uma boca que se pode ouvir e com quem é possível conversar de modo a que alguma coisa seja capaz de acontecer.
E o que seria essa ‘alguma coisa’? Amar significa manter a resposta pendente ou evitar fazer a pergunta. Transformar um outro num alguém definido significa tornar indefinido o futuro. Significa concordar com a indefinibilidade do futuro. Concordar com uma vida vivida, da concepção ao desaparecimento, no único local reservado aos seres humanos: aquela vaga extensão entre a finitude de seus feitos e a infinidade de seus objetivos e conseqüências.”
Em Amor Líquido, Bauman.


29 maio 2010

Brangane nos enganou

Hoje confundi um pombo com um gato. Estava sem óculos fazendo a vista diária na janela  da sala, para ver se o mundo mudou em alguma coisa. Bom... as vezes ele parece diferente. Tanto que até consigo confundir um animal nojento como um pombo com um gato. O gato, apesar de rua, sempre é de alguém e, por isso, ele não é tão nojento assim. Ele sabe precisar...
Estava com um copo d'água na mão que não matou minha sede, porque pensava em um cigarro e em você. Duas coisas que não posso ter. Aliás, você é como fumar. Não como o cigarro. Mas a sensação de ter o cigarro na bolsa e poder acendê-lo a qualquer hora. Puramente utópica e iverossímel.

"Na sala o velho parou. Fez um gesto largo com o chapéu em direção de Alice, como um nobre saudando uma rainha. Depois, na porta, olhou o homem e a mulher sérios no meio da sala e disse, grandiloquente: 'A porção que Brangane lhes deu para beber não é mortal'. Dito isso retirou-se dramaticamente."

Ainda não entendi se sou sua Alice ou sua Salete.

19 maio 2010

Evil

Querida,

É complicado isso que vou dizer, mas sinto que só me sobra uma chance. É agora ou nunca, Rosemary. Poderíamos estar em outra situação, é um fato. Porque esse envelhecimento que te tarda bateu na minha porta antes mesmo de você me conhecer. Queria te dizer que esse seu mundo não existe, que essa noção de posse te torna banal. Ninguém te pertence. Você se pertence quando se olha no espelho e não reconhece a imagem do fracasso que te envolve em um olhar de pena? Eu poderia te pertencer?

Responda-me, eu poderia pertencer a alguém?


Sandy, why can't we look the other way?

12 maio 2010

Signos


Já eu...



minha voz


não chega aos teus ouvidos


meu silêncio


não toca teus sentidos


sinto muito


mas isso é tudo que sinto
- alice ruiz.

11 maio 2010



Quando somos sinceros demais, arranhamos o tempo e a função do existir - a existência já é uma mentira. Vivo arranhada e já não me importo. Eu vivo. Ontem contei uma mentira e ela dói dentro de mim. Não sei viver doída, por isso me importo. Doerá dentro de ti, quando, em um dia demasiado exaltado, eu usar o meu dom mais grosseiro, esse que me faz juntar as sílabas feito faca que corta a carne até mesmo de quem amo. (Leia-me nas referências). Se as palavras tivessem retorno eu choraria por teu nome. Mas elas não têm e chorar por teu nome é tolice. 
O novo nome deste plural é "arrependimento". 

03 maio 2010

In The Sun






We all get to sleep sometimes everyday, menos você. Você é diferente de tudo o que eu vejo por aí, everyday. Aliás, você é irritantemente diferente. Você me irrita, everyday. Mas também me fascina e me faz desistir um pouco do convencionalismo (e da paralisia).

É como um Vaglia, que significa “acordar”. Mas, “acordar para o quê, Meu Deus?” – disse Clarice. E eu lhe pergunto, deveríamos acordar, mas para o quê? Dessa juventude que de tão lúcida me transformou em velha, “passada dos 40” – eu te disse. Por quê?  Porque não poderíamos ser mais fáceis e simples? - porém jamais simplórios.

We all feel ashamed sometimes everyday, e eu também. Sinto-me tão envergonhada de não ser a mesma de ontem e me refazer em palavras e em tão pouco tempo e por motivo tão seu. I'll just keep it to myself in the sun, in the Sun. Nós nunca saberemos. Porque o tempo é cruel, ele é Vaglia. Vaglia controla o tempo e não é molhado isso que escrevo. Não sou Clarice. Não poderia. Apesar de já estar passada dos 40.
My baby, my Darling, nós podemos fazer tudo de novo. Do começo.


– Chico, nosso.

28 abril 2010

Quando escrevem sobre ti


Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que eu via.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo, e reverência. Mas nunca tinham me falado do carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-se toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor?  De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem nenhum sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado podia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? No rato? Naquela janela? Nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? Pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde pra você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta pro rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque eu sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada essa minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu mundo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu.  Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

Perdoando Deus,
Felicidade Clandestina

Considerações:
Engraçado que meu prato preferido do Rayuela chame-se Felicidade Clandestina. 
Precisava me jogar na cara tão nua um rato morto? 

24 abril 2010

Belo Horizonte,


Talvez você não tenha mudado, minha querida. E é mesmo provável que eu tenha mudado você. Durante esses anos de descanso, tenha provacado em minha mente lembranças tão doces, tão longínquas que te destruí em pensamento. Chego então a pensar que você nunca existiu. Existia era uma menina que andava por seus morros procurando o bom da vida. Mas seus morros são os mesmos, já a vida da menina...
Um dia vou esquecê-la de forma que poderei significar o esquecimento do amor. Porque palavra prostituta é essa que não tem definição por ser sempre subjetiva e mal paga. Você era o meu amor, querida, mas, quando outros amores me passarem pelas pernas, quando já não me lembrar da temperatura dos seus pés, ou da intensidade de seus beijos, ou da força de seus lamentos, poderei então saber que não era contigo o meu repouso. Morro por morro, encontrarei o abismo.