05 junho 2010

Chupa essa, que é de uva





E assim você chegou, três anos atrasado, com seu sotaque sulista e sua magreza monumental. Abraçado em toda a boçalidade. E eu já te chamei de sisudo e de altivo. O tempo passa e os adjetivos mudam, é inevitável. É estranho, você sempre foi e sempre será estranho. Mas não do tipo emocionante-estranho, não mais.


Eu sabia seus caminhos, os corredores que percorria na biblioteca pública, os livros que tinham suas anotações e com quais eu concordava. Eu as tinha na ponta da língua. Porque um dia, através do espelho¹, eu diria, como se suas palavras fossem minhas, que “O Estrangeiro não consegue ser melhor do que A Metamorfose, mesmo o ateísmo sendo mais atraente no primeiro”. A República Dominicana nunca mais seria a mesma, eu pensava.


Eu admirava suas unhas ruídas, suas calças rasgadas, suas poucas palavras, seu rosto inexpressivo, sua ausência. Eu amava a sua ausência. Pois ela era a única constante na minha vida de menina mimada, de menina sofrida, de menina sozinha, de menina masoquista, de menina. Todos os dias eu te esperava, mas a verdade é que eu esperava por mim mesma. Por uma voz dentro de mim que concordasse com quem eu era.


É covarde aquele que espera. O nome da espera é medo. Não há nada mais confortável do que esperar. O (in)certo é a procura, a entrega e, enfim, a liberdade. O humano, demasiadamente humano², seria levantar-se em minha duas patas traseiras, caminhar até você e descobrir sua mediocridade três anos atrás. Descobrir sua confusão e, principalmente, ajudá-lo a se esclarecer. Toda aquela filosofia e mitologia gregas, os contos eróticos e os aterrorizantes, os romances niilistas, as músicas de protesto, o cinema de vanguarda, a sociologia aplicada não conseguiram te transformar em alguém definido³. Você será sempre o Outro, para homens, mulheres e, para mim, ser sempre Outro é patético. Porque você não consegue criar identidade nem consigo mesmo.


Os beijos que pediu, seriam de escárnio, pode apostar. O vinho que ofereceu, seria uma ofensa minha a você. E nenhuma cama, em nenhum hotel, em nenhum momento, poderia mudar essa minha nova percepção. Não há, ainda, nenhuma voz dentro de mim que concorde com essa que sou. Mas eu sou e eu procuro ser. Eu estou sempre à procura de alguma coisa que nunca vou encontrar. A diferença é que ninguém poderá dizer que eu não tentei, que não fui livre, que não atravessei o espelho, que não dancei na chuva, que não nadei pelada, que não me solidarizei com o mundo, que não apontei estrelas por medo de verrugas, que não beijei meu semelhante, que não cuspi em meu semelhante, ou que fui objeto de eterna alteridade. A diferença entre nós e entre mim e a menina que te amou, é que a incompletude do mundo não me apavora e paralisa. Ela me faz reagir e como parte do inevitável círculo da vida, eu discorro sobre o tempo e a modernidade com o sorriso faceiro de ter te dado o não que você sempre mereceu.