Aqui transcrevo Huxley, esse norte-americano direitista safado que confunde comunismo com ditadura, mas que acerta quanto à falsa democracia que faz de nós um produto pré-idealizado e com layout. Contextualize ainda, em meio à Guerra Fria:
Regresso ao Admirável Mundo Novo
194. Neste ponto encontremo-nos frente a uma pergunta atribuladora: Desejamos realmente agir segundo o que sabemos? Considerará a maioria da população que vale a pena fazer esforços ingentes com o objetivo de parar e, se possível, inverter a tendência atual para o controle totalitário integral? Nos Estados Unidos – e a América é a figura profética do que será o resto do mundo urbano-industrial dentro de alguns anos – investigações recentes da opinião pública revelaram que a maioria dos adolescentes abaixo de vinte anos, os eleitores do futuro, não acreditam nas instituições democráticas, não vêem desvantagens na censura das idéias impopulares, acham impossível um governo do povo pelo povo e julgar-se-iam perfeitamente satisfeitos por serem governados de cima por uma oligarquia de técnicos qualificados, se puderem continuar a viver conforme o estilo que a prosperidade os habituou. Que tantos jovens espectadores bem alimentados da televisão, na mais poderosa democracia do mundo, sejam tão totalmente indiferentes à idéia de se governarem a si próprios, que pouco se interessem pela liberdade de pensamento e pelo direito de discordar, é pesaroso, mas não muito surpreendente. “Livre como um pássaro”, dizemos e invejamos os seres alados devido seu poder de movimento ilimitado nas três dimensões do espaço, mas esquecemos, ai de nós, a nossa menoridade. Todo pássaro que aprendeu a esgaravatar uma boa porção de vermes sem ser impelido a usar as asas, logo renunciará ao privilégio de voar e permanecerá para sempre na terra. Algo de semelhante se passa com os seres humanos. Se o pão lhes é fornecido regular e fartamente três vezes ao dia, muitos deles ficarão satisfeitos vivendo apenas de pão – ou pelo menos, de pão e de espetáculos de circo. “Ao final”, diz o Grande Inquisidor na ficção de Dostoiewski, “ao final hão de depor a liberdade aos nossos pés e hão de dizer-nos: ‘Torna-nos teus escravos, mas alimenta-nos’”. E quando Alyosha Karamazov pergunta ao irmão, o narrador da história, se o Grande Inquisidor está falando sarcasticamente, Ivã responde: “Absolutamente! Ele reivindica com um louvor para si próprio e para sua Igreja o terem subjugado a liberdade, de o terem feito para tornar os homens felizes”. Sim, para tornarem os homens felizes. “Porque nada”, afirma o Grande Inquisidor, “jamais foi mais insuportável para um homem ou uma sociedade humana do que a liberdade”. Nada, exceto a ausência de liberdade, porque quando as coisas vão mal e as rações são limitadas, os infantilmente presos ao solo reclamam pertinazmente as suas asas – apenas para as renunciarem, uma vez mais contudo, quando os tempos melhorarem e os forjadores dos homens se tornarem mais indulgentes e mais generosos. A juventude que raciocina agora de forma tão chã sobre a democracia poderá crescer para lutar pela liberdade. O grito de “Deem-me televisão e cachorros-quentes, mas não me assombrem com as responsabilidades da liberdade”, pode ceder lugar, sob uma modificação das circunstâncias, ao grito de “Deem-me a liberdade ou a morte”. Se tal revolução se realizar será em parte devida à operação de forças sobre as quais até os mais poderosos dirigentes exercem muito pouco domínio, em parte devido à falta de competência desses dirigentes, pela sua incapacidade para tornarem eficiente o emprego dos instrumentos de manipulação do espírito com que a ciência e a tecnologia favoreceram, e continuarão a favorecer, o aspirante a tirano. Considerando o pouco que sabiam e quão pobremente se encontram preparados, os Grandes Inquisidores do passado atuaram de forma esplêndida. Porém os seus sucessores, os ditadores bem informados e totalmente imbuídos de espírito científico do futuro, farão, sem dúvida, muito melhor. O Grande Inquisidor reprova o Cristo por ter chamado os homens à liberdade e diz-lhe: “Corrigimos a tua obra e estabelecêmo-la no milagre, no mistério e na autoridade”. Mas o milagre, o mistério e a autoridade são o necessário para a ditadura. No Admirável Mundo Novo, os ditadores acrescentaram a isso a ciência, o que lhes permitia assegurar a sua autoridade pela manipulação de embriões, dos reflexos nas crianças e dos espíritos de pessoas de qualquer idade. Em lugar de falar apenazmente de milagres e de fazer alusões simbólicas aos mistérios, estavam à altura, graças às drogas, de fazerem que os seus súditos sentissem a experiência direta de mistérios e milagres – transformando fé em conhecimento extasiado. Os ditadores antigos caíram porque nunca forneceram em quantia suficiente aos seus súditos, pão, jogos, milagres e mistérios; também não tinham um método verdadeiramente eficiente de manipulação mental. No passado, livres-pensadores e revolucionários eram muitas vezes produtos da educação mais religiosamente ortodoxa. Não é de se admirar. Os sistemas adotados pelos educadores clássicos eram, e ainda são, extremamente ineficientes. Sob a palmatória de um ditador científico, a educação produzirá realmente os efeitos desejados e daí resultar que a maioria dos homens e das mulheres chegarão a adorar a sua servidão sem nunca pensar em revolução. Parece que não há motivo válido para que uma ditadura perfeitamente científica seja algum dia derrubada.
Entretanto, sobra ainda alguma liberdade no mundo. É verdade que muitos jovens parecem não apreciá-la. Porém, um relativo número de pessoas crê ainda que sem ela os seres humanos não podem tornar-se verdadeiramente humanos e que a liberdade é, por isso, um valor supremo. Talvez as forças que agora ameaçam o mundo sejam demasiado poderosas para que se lhes possa resistir durante muito tempo. É ainda nosso dever fazer tudo que pudermos para resistir-lhes.
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Parece-me cruel que este retrato tenha sido feito enquanto meus pais ainda eram esperma. Depois de 1959 os jovens passaram por muitas privações: épocas de escândalos, direitos individuais interrompidos, ditaduras prolongadas, necessidade de guerrear, buscar por si mesmo, aprender a ter voz... mas será que o fizeram por consciência ou não estavam, ainda, inebriados o suficiente, por sonhos milagres fé e drogas? Penso nesse meu tempo, nos jovens com quem convivo. Falta a eles um tanto de charme, que agora, posso jurar, chama-se liberdade! Não a comedida, com tempo pré-determinado, não a quinzenal. Mas a liberdade suprema, de se babar e gozar, e morrer de fome e amor. Voar sem precisar de asas.
28 maio 2011
22 maio 2011
Praquê
Cantando. Apaixonei-me por um percussionista. Com seus olhos revirados no tesão de tocar a próxima música que me fará sorrir. Sabe que não sou a mais bonita das cabrochas dessa ala. E o ranger dos meus dentes, tempo arranhado. O batom vermelho que saiu mais tarde, em seus lábios. Vermelho, cor de viva memória. Suas mãos avermelhadas de tanto bater naqueles tambores, que a cá imagino as abas de minha bunda. Estática, que a essa observação te ouça no pé do ouvido um suspiro velado. De amor. E eu, calada. A maravilha de ouvir, sem dizer, ouvir. Quando queres assim, calar o momento para que o finalmente aconteça. Grandioso demais. Naquela sala abarrotada de gente. Você. Eu, do lado de cá da fantasia, sempre desejando as coisas erradas, etéreas, efêmeras. Você. Nós fumando um no sofá-cama, com meias desordenadas e ainda faz frio. Não sei o nome do filme, mas ele era alemão. E já não tinha mais tanta gente, ou o barulho do tambor, do vento frio, o suspiro, o ranger, só a pipoca triturada sob os caninos e eu querendo ser aquele momento. Todo ele. Sempre em mim. Vida que acontece, mas que não escolhi. Filme sem cor, porém ao teu lado. Arrancaram do meu delírio o desespero, a felicidade. Soletro teu nome e assino com um d-e-s-a-p-e-g-o. Você. Acho que te vi na padaria. Suas mãos não estavam rosadas dos tambores ou das abas da minha bunda. Amareladas das folhas viradas de livros antigos demais e de cigarros fedorentos que a mim esse mal não mais abate. Você e o vício. Você do meu lado, na cama de outrem. Com a cabeça encostada na minha. Não ouso pegar em sua mão. Eu não sou sua e nem posso. d-e-s-a-p-e-g-o. E aquele vestido que você gostava, eu doei, eu doída.
08 maio 2011
Oh, minha mágoa
Sentia-se apertada. Desconfortável. A situação foi piorando até que era difícil para ela, até mesmo, respirar. Não havia espaço para todos os sonhos. Inflava o peito a procura do oxigênio que não vinha. Foi diminuindo, tão cheia de capacidades, diminuindo. Nunca mais cresceria e seria grandiosa novamente. Nunca mais.
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Tenta batalhar, diariamente, com a lembrança cruel dos melhores tempos. Os que passaram, pois já não confia nos que virão e não confiar é um novo status. Tenta sobreviver nessa nova realidade escorregadia, sem respeitar a si e aqueles que ama. Escorregando. De mês em mês, lhe é esfregado na cara a insensatez do mundo. O desmanche das coisas belas, em ferro velho. Os paparicos e souvenires, à venda, expostos como sucata. As frases sutis, os olhares de lado. Pisados, escarrados e sujos. Como marido bêbado encontrado na porta do botequim. E bebe essa amargura, e maltrata seus amores, e esconde seus medos e sofre, em silêncio, sofre. “Rir ainda consegue”, dizem. “Aprendeu a disfarçar”, respondem.
Há dias, entretanto, que permite certos sonhos. Não são maravilhados e desconcertantes, não dão tesão e nem provocam suspiros. Para todos os efeitos ainda são sonhos. Modestos, é o que se permite. Nesses dias, ela se sente melhor, sorri de dente em dente, cantarola as músicas que a ninavam na infância, faz poesias em guardanapos, toma cafés com bastante açúcar, encontra pessoas aparentemente magníficas, usa vestidos estampados e joga os cabelos para um lado e para o outro, acompanhando o compasso dos quadris.
O mundo sente-se esperançoso: Oh, criatura vil que só enxerga em mim as mazelas. Oh, minha mágoa. Há, afinal esperanças para que me ame?
Esperança, pensa sempre Pandora, que falácia dos Deuses, que ultraje essa tal esperança.
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Tenta batalhar, diariamente, com a lembrança cruel dos melhores tempos. Os que passaram, pois já não confia nos que virão e não confiar é um novo status. Tenta sobreviver nessa nova realidade escorregadia, sem respeitar a si e aqueles que ama. Escorregando. De mês em mês, lhe é esfregado na cara a insensatez do mundo. O desmanche das coisas belas, em ferro velho. Os paparicos e souvenires, à venda, expostos como sucata. As frases sutis, os olhares de lado. Pisados, escarrados e sujos. Como marido bêbado encontrado na porta do botequim. E bebe essa amargura, e maltrata seus amores, e esconde seus medos e sofre, em silêncio, sofre. “Rir ainda consegue”, dizem. “Aprendeu a disfarçar”, respondem.
Há dias, entretanto, que permite certos sonhos. Não são maravilhados e desconcertantes, não dão tesão e nem provocam suspiros. Para todos os efeitos ainda são sonhos. Modestos, é o que se permite. Nesses dias, ela se sente melhor, sorri de dente em dente, cantarola as músicas que a ninavam na infância, faz poesias em guardanapos, toma cafés com bastante açúcar, encontra pessoas aparentemente magníficas, usa vestidos estampados e joga os cabelos para um lado e para o outro, acompanhando o compasso dos quadris.
O mundo sente-se esperançoso: Oh, criatura vil que só enxerga em mim as mazelas. Oh, minha mágoa. Há, afinal esperanças para que me ame?
Esperança, pensa sempre Pandora, que falácia dos Deuses, que ultraje essa tal esperança.
02 maio 2011
Padawan
Ontem eu olhei para o céu depois de ver um filme lindo sobre ser você em frente aos outros. Tomaso assume a vocação de escritor, mas o filme acaba sem que o mundo o ouça dizer “sou gay, namoro Marcos e o amo”. O exemplo não se aplica a mim, porque eu falo muito além do que verdadeiramente sou. Digo que amo mais do que sou capaz de amar. E a lista de exemplos seria interminável. Aos olhos de outrem sou mais complexa do que aqui, dentro de mim.
Pensei em tudo isso porque estava irremediavelmente frustrada. Eu, genética e socialmente programada para não me magoar, vivo a jogar em minha face o escárnio da minha falta de coragem. Bolas, melhor não tê-las, mas se não temos, como sabê-lo? Coragem, palavra faceira. Meio modesta, fica a brincar no quarto ao lado. A chamo para o almoço, ela diz que não tem fome. A chamo para a cama, ela diz que não tem sono. A chamo para me salvar da solidão, ela nem sequer responde.
- Eu quero uma chance – ela disse, embaixo da sombra da mangueira na frente de minha casa. Nunca tinha reparado como aquela sombra poderia criar um ótimo jogo de luzes.
- Chance para quê ? – perguntei, ainda focalizando os olhos na cena, percebendo os tons, as nuances, guardando por fim, na memória. Enquadrando o momento.
- Você sabe – ela ficou vermelha, a foto fica a cada quadro ainda mais bonita.
- Não, me explica – eu queria mais, queria prender a respiração CLICK. Meu Deus, como tudo aquilo era emocionante.
- Chance para nós dois. Percebe a força disso? Pense. Todo mundo merece uma chance, não afobe o momento e não vá se perder por aí. Quando nos encontrarmos, faça com que seja especial. Diga algo como “a chance chegou”, coloque os dedos na minha nuca ou os entrelace aos meus e espere que eu responda, “percebe a força disso?“ – Fui nocauteado, a foto foi perdida, desfocada, muita luz, muita luz entrou, quando ergui os olhos, ela não estava mais lá e a sombra da mangueira era só um espaço vazio. Ainda não a encontrei. Eu sei que ela quer que seja casual. Já se passaram sete meses. Se eu contar ninguém acredita mas, desde então, aquela mangueira nunca deixou de dar mangas. Enormes, rosadas e protegidas pela já comentada sombra, onde fico durante alguns minutos enquadrando aquela mesma foto e aguardando pela chance, percebe a força disso?
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