02 maio 2011

Padawan

Ontem eu olhei para o céu depois de ver um filme lindo sobre ser você em frente aos outros. Tomaso assume a vocação de escritor, mas o filme acaba sem que o mundo o ouça dizer “sou gay, namoro Marcos e o amo”. O exemplo não se aplica a mim, porque eu falo muito além do que verdadeiramente sou.  Digo que amo mais do que sou capaz de amar. E a lista de exemplos seria interminável. Aos olhos de outrem sou mais complexa do que aqui, dentro de mim. 

Pensei em tudo isso porque estava irremediavelmente frustrada. Eu, genética e socialmente programada para não me magoar, vivo a jogar em minha face o escárnio da minha falta de coragem. Bolas, melhor não tê-las, mas se não temos, como sabê-lo? Coragem, palavra faceira. Meio modesta, fica a brincar no quarto ao lado. A chamo para o almoço, ela diz que não tem fome. A chamo para a cama, ela diz que não tem sono. A chamo para me salvar da solidão, ela nem sequer responde.


- Eu quero uma chance – ela disse, embaixo da sombra da mangueira na frente de minha casa. Nunca tinha reparado como aquela sombra poderia criar um ótimo jogo de luzes. 

- Chance para quê ? – perguntei, ainda focalizando os olhos na cena, percebendo os tons, as nuances, guardando por fim, na memória. Enquadrando o momento. 

- Você sabe – ela ficou vermelha, a foto fica a cada quadro ainda mais bonita. 

- Não, me explica – eu queria mais, queria prender a respiração CLICK. Meu Deus, como tudo aquilo era emocionante. 

- Chance para nós dois. Percebe a força disso? Pense. Todo mundo merece uma chance, não afobe o momento e não vá se perder por aí. Quando nos encontrarmos, faça com que seja especial. Diga algo como “a chance chegou”, coloque os dedos na minha nuca ou os entrelace aos meus e espere que eu responda, “percebe a força disso?“ – Fui nocauteado, a foto foi perdida, desfocada, muita luz, muita luz entrou, quando ergui os olhos, ela não estava mais lá e a sombra da mangueira era só um espaço vazio. Ainda não a encontrei. Eu sei que ela quer que seja casual. Já se passaram sete meses. Se eu contar ninguém acredita mas, desde então, aquela mangueira nunca deixou de dar mangas. Enormes, rosadas e protegidas pela já comentada sombra, onde fico durante alguns minutos enquadrando aquela mesma foto e aguardando pela chance, percebe a força disso?