18 setembro 2010

Histórias de amor não duram nem 90 minutos

É raro que filmes façam retratos tão fiéis de mim a ponto de meus dedos sentirem o impulso para lamentar sobre o assunto. Hoje aconteceu.

Deitada na cama enorme, cama de pequeno-burguês, eu me vi sozinha, mais sozinha do que o normal e ainda por cima, com tesão por Caio Blat. Não é uma novidade. Caio Blat, para mim, sempre será Caio Blat. Mas desta vez foi o personagem, versão masculina de mim mesma, que me molhou inteira, por dentro e por fora.


Então é isso? Procuro, ao final, por mim mesma com um pênis? Com uma bunda redonda, uma barba por fazer e um vazio no bolso e no peito. É isso?

E por fim, eu concordo. Provável que aos 30 anos também não tenha realizado a mim mesma. Uma dessas pessoas que escorrega pela vida, que era promessa de tudo mas acabou por não fazer nada do que estava apta a fazer. Jogou os sonhos no lixo e fumou, e cheirou, e bebeu, e injetou todos os dons. Chorou as lágrimas mais sôfregas com a água da banheira entupindo os pulmões, o cheiro do gás entupindo as veias e o corte profundo levando o sangue embora. Mas no dia seguinte, permaneceu viva para escrever.

Escrever é um lixo. “Imagino mil histórias para todas as pessoas que vejo na rua. Mas acabo, por fim, sempre escrevendo sobre mim mesmo. E penso – quem é que vai querer ler algo sobre mim? A minha vida é uma bosta”, ou mais ou menos isso.

Diferente, no entanto, os meus ídolos nunca se mataram. Aceitaram a carne, o vício da esperança e entenderam o depois. São os homens revoltados, porém covardes. Homens ateus, com as calças borradas de tantos penachos, que falam as frases que mais me fazem sangrar e deliram com as drogas que esse mundo há de me proporcionar também, um dia. Quando toda a juventude já tiver me abandonado.

“Tem pessoas que simplesmente não sabem ser felizes”. Sim. Há frase semelhante também em Closer. Haverá a mesma sentença por todos os 365 dias do meu ano.

"A vida dura muito mais do que 90 minutos" e o amor nem isso consegue durar. Não para mim.

17 setembro 2010

Página virada, descartada

Eu acho que você não entende o que foi que me fez.

Ontem eu fui à terapia. Voltei para a terapia. Queria contar a ela que tinha retomado meus vícios. Disse a ela que precisaria deles em São Paulo. Porque eles me permitem ser alguém que não sou. Ela perguntou “quem você é?”. Pateticamente, eu respondi “eu sou alguém triste”. E então, claro, ela quis saber o porquê. E eu disse “acho que é porque minha casa não tem janelas o suficiente”.

Provavelmente ela não esperava por essa reposta. Talvez muita gente diga que é triste. Ali, naquele mesmo divã. Aliás, devem ser todos tristes. No entanto, que covardia é essa de perguntar, para alguém que já recorre a um terapeuta, quem essa pessoa é? Que soco covarde é esse? Que tiro nas costas!

Fico pensando, toda vez que ela me olha com cara de compreensão que, na solidão da casa dela, ela deve bater mais siririca do que eu. Talvez naquele mesmo divã, algum dia ou de vez em quando.

Vai saber. “A gente nunca imagina a vida por detrás da página”. E nós não conhecemos ninguém de verdade. O mais normal é sempre o mais vadio, o mais safado, o mais promíscuo. Pelo menos, eu prefiro acreditar que toda pureza é mito e que toda normalidade é falsa. Terapia é o caralho.

Pensei em você naquela sala. Mas não falei sobre você. Não achei que merecia.

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Estou ouvindo Gal agora. Nunca te perguntei se gostava de Gal e agora já não faz mais sentido. Mas é provável que goste. Eu nunca saberei.

Nós nunca saberemos.

08 setembro 2010

Cinema Mudo




Eu temia meu orgulho, acreditando que seria ele o causador da destruição de tudo o que há de belo na vida. Eu temia minhas palavras entrecortadas, que viviam a assumir minha suprema liberdade e independência. Eu temia a mim e somente aos meus atos. Pois não contava com a covardia alheia, maior defeito do mundo. 

Logo tu, Brutus, que me ouviu reclamar de como faltavam culhões no mundo, de como os homens são criados como maricas (Isso sem fazer nenhuma referência aos homossexuais. Porque, sinceramente, conheço homossexuais que são sete mil vezes mais homens do que esses desmembrados de masculinidade) e de como os desprezo. Logo tu, que sabia qual era o golpe final, aquele que mais me magoaria e que me afastaria, léguas e léguas a nos separar. Até tu, Brutus, resolves-te me envergonhar por ter acreditado, em um singelo momento, que poderia haver gente excepcional no mundo? Precisava, Brutus? Forçar sua presença sem razão e depois arrancá-la, impiedoso, como se não houvesse nenhuma conseqüência para seus atos. As músicas não tocam mais, os livros não são lidos e os filmes já não são vistos. O tempo, todo aquele tempo que gastamos, poeira de tempo! Ora Brutus, quanto esforço por tão pouco, quanta infantilidade. Sinceramente, pesavas mesmo que poderia destronar meu orgulho, apenas porque me viu volúvel? Apenas porque, por um momento, fui sua? Total e irracionalmente sua? Não compreendes Brutus, não compreendes. 

Veja a sua volta Brutus, me diga o que mudou. Sinta o silêncio e depois me diga, vamos! Quem te ouvirá nas noites tardias? A quem poderá lamentar a ignorância de seus amigos, a forma como eles já não te completam? Quem te ligará de madrugada pra comentar um trecho de romance que você jamais lerá? Quem ouvirá sobre os seus sonhos e te apoiará nos fracassos? Quem? Com quem poderá se informar sobre os filmes que virão e sobre os imperdíveis do passado? Quem listará as melhores músicas, as fundamentais? Vamos, respire e me diga! Quem, nesse seu mundo medíocre, te ouvirá nas noites tardias? 

Espero que o grito sufocado que andei a ouvir de ti não te mate, lentamente, levando o ar de seus pulmões. Carregando os segundos de vida, mantendo-o preso no silêncio. Espero que não sofras sozinho. Espero que se cure. Porque Brutus, nós somos diferentes. Eu não quero que definhes na minha frente e nem longe de mim. Aprendi a lição e isso não me mudará. Porque tenho pena Brutus, muita pena. Fico pensando que, quando a vida me espalmar com luvas (ou sem elas), eu poderei escrever, como sempre fiz. Poderei afastar as desgraças do mundo. Senti-las abandonando meus dedos, a medida que junto as palavras em uma folha de papel. Eu tenho minha terapia. Já você, você não tem nada, Brutus. Nada! Você não sabe ser verdadeiro com aqueles que se importam contigo, você não acredita em terapia, você não lê filosofia e você não escreve. O que será de ti? 

Sugiro que arrume culhões Brutus, ou em breve, não existirá nem mesmo um gênero a que possa pertencer. Pois mulheres e homossexuais tem muito mais bolas do que você. E é lamentável.

05 setembro 2010

Verdade, é difícil?




Pouco antes do inferno eu disse: “Ok, só me diga a verdade”. Nunca tinha tido problemas de rejeição antes. Óbvio, já tinha sido rejeitada, muitas e muitas vezes. Mas isso não me incomodava. As pessoas vêm e vão. As vontades também. É muito natural que em um dia corrosivo te olhem nos olhos e digam “Desculpe, eu não quero mais”. Também já falei isso. A sinceridade, um dom. Gosto que me digam se estou fedendo, se tenho algo agarrado no dente, se engordei cinco quilos em uma semana, se meus sapatos não combinam com minha roupa, se preciso cortar o cabelo. Mas, principalmente, eu gosto de saber o que está acontecendo ao meu redor. Ter esse controle é vital para o bom funcionamento do meu cérebro. Preferiria mil vezes que me dissesse “Eu não quero“, do que todos esses subterfúgios que afugentam minha admiração e meu desejo. E sabe? Desejo é tudo. O mundo nasceu do desejo. E nosso mundo morrerá sem ele.



Todo esse drama. Killing me softly.

03 setembro 2010

Das conversas com taxistas, esses filósofos

- Olá, bom dia!
- Bom dia! Para onde?
- Ah, eu não sei o nome da rua. Não, não. Não se preocupe! Eu sei como chegar nela, eu só não sei nomeá-la.
- Tem certeza?
- Sim,sim. Quer dizer... acho que sim. BH não mudou, mudou?
- Não, BH nunca muda.
- Fale por você!
- O quê?
- Nada não. Por favor, vire a esquerda.

[...]

- As passagens aumentaram de novo?
- O quê?
- As passagens de ônibus, aumentaram de novo?
- Eu não tenho idéia, senhorita. Mas deve ter aumentado sim, teve greve outro dia.
- É, eu vi no jornal. E está escrito ali, na parede.

>>CONTRA O AUMENTO DAS PASSAGENS<<
>>USE SUA CONSCIÊNCIA, VOTE NULO<<

- Pois é, essas paredes estão sempre pichadas. Não há o que fazer.
- É, nisso BH não mudou.
- Você é daqui?
- Sim, mas não totalmente.
- Como assim?
- Eu moro em Brasília hoje. Mas nasci aqui, minha mãe é de Mutum e meu pai é de Salvador. Então, acho que sou de todos esses lugares. Eu gosto muito de cada um deles, pra coisas diferentes.
- Eu estive em Brasília ano passado. Fiquei três meses, a serviço. Gostei muito. Mas prefiro aqui. Não me leve a mal, eu não sou mineiro-mineiro. Mas encontrei minha cidade, quando cheguei aqui.
- Entendo o que você quer dizer. Mas olha, as coisas mudam quando a gente vai embora. Quer dizer, BH continua sendo minha cidade, mas não é a única. Nela também faltam muitas coisas.
- Você quer dizer, emprego, essas coisas?
- Também, também. Mas principalmente, pessoas. Gente com diferentes pontos de vista, sabe? Acho que, depois que você conhece outras realidades, ficar em um só lugar dá claustrofobia. Cada ausência dói mais do que deveria e ausência de opiniões, isso é ainda mais forte.
- Eu não entendi.
- Ah, quero dizer que as pessoas de BH pensam de uma forma. Elas esperam uma coisa da vida, levam a rotina de um jeito, saem no final de semana para alguns lugares. Em Brasília as pessoas esperam e fazem coisas diferentes. Em Salvador, ainda por cima, é super diferente. Claro, isso as minhas pessoas. Não estou generalizando... Aí, cada mania dessas pessoas acabou tomando importância na minha vida. Vire ali, a direita e depois esquerda. Então, as vezes quero fazer coisas que só faria em BH e, noutras vezes, quero viver minha vida cronometrada de Brasília ou a folia de Salvador. No final das contas, não posso viver em paz em nenhum desses lugares e também não posso juntar tudo isso em um lugar só. Bom, esse lugar só não existe.
- Você pode tentar.
- É isso que faço, vez ou outra. Mas quando não dá certo, cansa. Sentir ausência cansa.
- Mas não sentir a ausência é impossível. Quer dizer, sempre estaremos sentindo falta de alguma coisa, não é?
- Provavelmente, sim. Mas o senhor já se sentiu dividido entre tantas cidades assim?
- Não, cidades não. Já me senti dividido entre mulheres, muitas mulheres. Mas acabei escolhendo uma e ela foi a certa para mim. Não me arrependi da minha escolha, apesar de ainda sentir saudade das outras. Isso é inevitável.
- Mas Belo Horizonte não é uma mulher, né? Não posso testá-la pra descobrir nossas afinidades.
- Claro que pode e tenho certeza que você vai.
- É ali, 61. Aqui, isso. Obrigada. Deu quanto?
- R$ 13,00.
- Calma, acho que tenho trocado aqui, em algum lugar. Aqui, tome. Obrigada, muito obrigada.
- Obrigado você. Boa estadia, espero que consiga escolher, espero que seja BH.
- Veremos. Veremos.

* Para registro, eu não concordo com a política de votar nulo. Se você quer se ausentar de uma posição, então depois não julgue a decisão que os outros tomaram em seu lugar. Para reclamar é preciso comprometimento. E tenho dito!

02 setembro 2010

A Sutileza



Me escreva uma carta sem remetente
Só o necessário e se está contente
Tente lembrar quais eram os planos
Se nada mudou com o passar dos anos
E me pergunte o que será do nosso amor?

Descreva pra mim sua latitude
Que eu tento te achar no mapa-múndi
Ponha um pouco de delicadeza
No que escrever e onde quer que me esqueças
E eu te pergunto o que será do nosso amor?

Ah! Se eu pudesse voltar atrás
Ah! Se eu pudesse voltar.