03 setembro 2010

Das conversas com taxistas, esses filósofos

- Olá, bom dia!
- Bom dia! Para onde?
- Ah, eu não sei o nome da rua. Não, não. Não se preocupe! Eu sei como chegar nela, eu só não sei nomeá-la.
- Tem certeza?
- Sim,sim. Quer dizer... acho que sim. BH não mudou, mudou?
- Não, BH nunca muda.
- Fale por você!
- O quê?
- Nada não. Por favor, vire a esquerda.

[...]

- As passagens aumentaram de novo?
- O quê?
- As passagens de ônibus, aumentaram de novo?
- Eu não tenho idéia, senhorita. Mas deve ter aumentado sim, teve greve outro dia.
- É, eu vi no jornal. E está escrito ali, na parede.

>>CONTRA O AUMENTO DAS PASSAGENS<<
>>USE SUA CONSCIÊNCIA, VOTE NULO<<

- Pois é, essas paredes estão sempre pichadas. Não há o que fazer.
- É, nisso BH não mudou.
- Você é daqui?
- Sim, mas não totalmente.
- Como assim?
- Eu moro em Brasília hoje. Mas nasci aqui, minha mãe é de Mutum e meu pai é de Salvador. Então, acho que sou de todos esses lugares. Eu gosto muito de cada um deles, pra coisas diferentes.
- Eu estive em Brasília ano passado. Fiquei três meses, a serviço. Gostei muito. Mas prefiro aqui. Não me leve a mal, eu não sou mineiro-mineiro. Mas encontrei minha cidade, quando cheguei aqui.
- Entendo o que você quer dizer. Mas olha, as coisas mudam quando a gente vai embora. Quer dizer, BH continua sendo minha cidade, mas não é a única. Nela também faltam muitas coisas.
- Você quer dizer, emprego, essas coisas?
- Também, também. Mas principalmente, pessoas. Gente com diferentes pontos de vista, sabe? Acho que, depois que você conhece outras realidades, ficar em um só lugar dá claustrofobia. Cada ausência dói mais do que deveria e ausência de opiniões, isso é ainda mais forte.
- Eu não entendi.
- Ah, quero dizer que as pessoas de BH pensam de uma forma. Elas esperam uma coisa da vida, levam a rotina de um jeito, saem no final de semana para alguns lugares. Em Brasília as pessoas esperam e fazem coisas diferentes. Em Salvador, ainda por cima, é super diferente. Claro, isso as minhas pessoas. Não estou generalizando... Aí, cada mania dessas pessoas acabou tomando importância na minha vida. Vire ali, a direita e depois esquerda. Então, as vezes quero fazer coisas que só faria em BH e, noutras vezes, quero viver minha vida cronometrada de Brasília ou a folia de Salvador. No final das contas, não posso viver em paz em nenhum desses lugares e também não posso juntar tudo isso em um lugar só. Bom, esse lugar só não existe.
- Você pode tentar.
- É isso que faço, vez ou outra. Mas quando não dá certo, cansa. Sentir ausência cansa.
- Mas não sentir a ausência é impossível. Quer dizer, sempre estaremos sentindo falta de alguma coisa, não é?
- Provavelmente, sim. Mas o senhor já se sentiu dividido entre tantas cidades assim?
- Não, cidades não. Já me senti dividido entre mulheres, muitas mulheres. Mas acabei escolhendo uma e ela foi a certa para mim. Não me arrependi da minha escolha, apesar de ainda sentir saudade das outras. Isso é inevitável.
- Mas Belo Horizonte não é uma mulher, né? Não posso testá-la pra descobrir nossas afinidades.
- Claro que pode e tenho certeza que você vai.
- É ali, 61. Aqui, isso. Obrigada. Deu quanto?
- R$ 13,00.
- Calma, acho que tenho trocado aqui, em algum lugar. Aqui, tome. Obrigada, muito obrigada.
- Obrigado você. Boa estadia, espero que consiga escolher, espero que seja BH.
- Veremos. Veremos.

* Para registro, eu não concordo com a política de votar nulo. Se você quer se ausentar de uma posição, então depois não julgue a decisão que os outros tomaram em seu lugar. Para reclamar é preciso comprometimento. E tenho dito!