29 agosto 2009

Não me traga
um rosto
quase pálido
de vida.
Traga-me
o perfume
engarrafado
no teu sorriso.
Assim
a ausência passa
e com ela
o grande perigo.

- Carla Dias
*Medo de ouvir sua voz de novo, meu bem e pavor de deixar de ouvi-la, também.

26 agosto 2009

Aos que amam a hierarquia.

Nos calamos todos. Matamos os sonhos de se embrenhar no serviço público a favor do povo, do nosso povo. Não fazemos mais parte do povo, temos nojo dele. E são sonhos fugidios que abandonarão, também, a geração de amanhã. Toda aquela necessidade de voz gritada, de bandeira arqueada, de sociedade justa não passava de contexto histórico. As desculpas mudaram, usamos drogas por outros motivos e transamos para esquecer de nós mesmos. Usamos as pessoas para outros fins, odiamos o mundo e vivemos nessa revolta, conscientes da importância fugaz de arriscar a vida em roleta russa. Ou de apenas viver a vida em roleta russa. E há o salto que não saltamos como há o discurso que não discursamos. Padecemos em ignorância, em ócio, em silêncio. A impossibilidade coerente de abandonar a apelação. E o deus que todos amam, se omite a favor da hierarquia. O povo nojento permanece anônimo e as cadeiras do congresso estão preenchidas dos anônimos de anteontem, que já não fedem mais. “Meu campo”, diz Goethe, “é o tempo” e essa é a palavra absurda de quem espera a eternidade irrisória.

Eu só espero não morrer de cansaço.

16 agosto 2009

Verídico

- Ela disse que vai se matar. Que não sabe viver sem ele. Que não se lembra de como era viver antes dele. Que não quer reaprender a caminhar. Eles estão a cinco anos juntos, não acho tanto, mas eu realmente não me lembro dela me contar alguma coisa que não o inclua. Mas parece que ele quer mesmo ir embora e ela está decidida a morrer.
- Isso é muito bonito.
- Não é bonito nada, é drama.
- Então, drama é sempre bonito.
- Pois eu nunca vi ninguém morrer de amor. Você já viu?
- Sim, eu já vi.
- E quem foi?
- Romeu. Romeu morreu por amor.
- Mas você não o conheceu, conheceu?
- Ontem, nos meus sonhos...

"Morrer de amor não é difícil, não. Se atirar do edifício.
Viver de amor é que é difícil. Se atirar"

10 agosto 2009

Avec Les Utopies

É verdade que do coração sei pouca coisa. Como também é verdade meu vergonhoso desconhecimento sobre todos os outros órgãos humanos. Afora, claro, a imaginação. Porque, depois de todas as páginas e anos (e o fato de eu ser única entre os irmãos que nunca tive), o órgão que mais utilizei e que me salvou das mais cruéis tempestades foi a imaginação (e por ser tão vital a nomeio de órgão). Não estou tentando sugerir que possuo algum dom, não. Em bem verdade, o que quero dizer, mas não consigo, é que, talvez, a imaginação te dê motivos para continuar. Comigo sempre funcionou. E quando a minha não me bastava, eu me munia da imaginação alheia. É o único órgão que é divisível, sem nunca, jamais, diminuir seu quociente. Porque você divide e isso te engrandece. Tal e qual o fígado, a imaginação se reconstitui. Por isso, sempre existirá uma personagem, ou um diálogo, ou uma tomada, ou um fragmento, ou um arranjo que completará tua existência de tal forma que parecerá estranho ter vivido anos sem experimentar tal resolução. Trata-se de se sentir vivo e completo, mais uma vez, ainda que por um momento. E que me perdoe todo esse sentimentalismo, mas acho mesmo que tudo se relaciona ao amor. Vive quem ama ou caso contrário, padece por dentro. O amor nunca conseguirá ser tão colorido quanto na imaginação dos homens. Porque o amor, que é vital a todos os órgãos, só se deixa ser saudável na imaginação. Acaso em outro lugar ele poderia ser eterno e imortal, como quando fechamos os olhos e imaginamos diálogos inteiros que curariam todos os males do mundo? A imaginação é a única que gera a Arte, que é o Amor objeto: tocável e visível. Se me perguntares o que sei sobre o coração, ou suas propriedades e características; eu responderei de peito estufado, que pouco me importa artérias e veias e vasos sanguíneos e até mesmo sangue, de nada me vale, se não houver poesia e imaginação suficientes que engrandeçam o ato de derramá-lo. A vida é Shakesperiana, mas ela também pode ser uma peça de Moliére. Basta querer e acreditar que tudo isso que se toca, não vale nem mesmo um centavo. Eu só me valido de imaginação e essa é a pobreza que mais me enriquece.

09 agosto 2009

Verde e Cinza.


Ela não pretendia chorar além do que os olhos podem suportar e além da água que possuía no corpo. O corpo sozinho e oco que carrega por esses anos que a carregam vida afora. Mas descobriu o valor imenso de se consolar com a desidratação. Descobriu que ter fugido todos esses meses das letras douradas e garrafais, não resguardou seu coração. Pelo contrário, o tornou seco e sombrio. Sabia, com todos os detalhes, que sua imagem não era mais a mesma e que já não mentia sua saúde mental com tanta sutileza. Não convencia a ninguém porque sentia as picadas eternas dos dias banais. Desta forma, merece muita palma e muito apoio por ter se prostrado à grama mexida recentemente, que serve de moradia eterna a parte amada de seu ser. Sua teoria era a de que, quando amamos alguém, esse alguém passa a ser nós mesmos. Pois o único amor que entrava no seu entendimento prático e racional era o amor-próprio. E pedaço de seu amor-próprio estava enterrado a sete palmos do chão, sem ter recebido um adeus ou o mar de lágrimas que fariam brilhar todo o verde ao seu redor. Pois a coragem, finalmente, a mobilizou. Ela, com o jeans sujo de grama, o sol queimando suas costas e seu colo, chorou por sobre o mármore bons minutos, misturados a pedidos de desculpas e promessas de eterna amizade. Limpou cada letra, ainda mais dourada com os raios solares, da poeira que a cercava. Passou a ponta dos dedos por sobre o nome ali gélido no mármore frio, como se o toque pudesse fazer ressurgir uma esperança de vida que transpassasse não só sua pele, mas seus sistemas todos, e órgãos, e tecidos, e células, e moléculas e sorrisos. Ficou ali, soluçando, sem tirar os olhos do nome adorado, perdendo a voz aos poucos, assim como as forças para criar novas lágrimas. E ficou ali também, cravada e emoldurada para quem quiser se certificar, a felicidade pueril que carregou quando criança. Pois agora, depois de tanta dor, não ousava assistir ao mundo com os olhos encharcados e manter intocável sua esperança no amanhã. Pois amanhã, ou mais tarde, se jogaria de novo em uma grama menos verde, com letras menos douradas, em um futuro muito mais cinza.

07 agosto 2009

De uma vez por todas, como gente grande.

Não sei por que nosso inconsciente resolve brincar, vez ou outra, com nossa já lúcida sensação de realidade. Porque eu estava demasiado bem, colocando você num lugar propício a todas as coisas que nos aconteceram. Você estava guardado onde o tempo abre a sua espessura, mas não nos atormenta mais. Você não me atormenta mais! Porque, afinal de contas, de ti só guardo algumas frases fugidias e promessas de para sempre. Imagino que, na época, a solidão e a banda larga me jogaram nos seus braços e nos braços do para sempre como tentativa de existência. Mas nós nos afastamos, você soube amar as novas oportunidades e eu soube julgá-las de forma que nunca amei ninguém (Talvez você, não sei ao certo).

Ontem pensei em você enquanto lia um livro do Benedetti (Não espero que saiba quem é Benedetti. Se eu te amei, não o amei pelo seu conhecimento literário). Uma personagem comparava folhas secas com cartinhas de amor. Você foi a única pessoa no mundo que já me mandou uma carta de amor, eu a tenho guardado na memória e em uma caixinha. Mas foi só isso, lembrei da sua carta, das nossas diárias cinco horas de conversa, da minha mãe atendendo os seus telefonemas e de como tudo acabou. Virei a página e solucionei mais um dia de trabalho chegando em casa.

Mas a noite chega com as razões reviradas. A cabeça no travesseiro, o sono dissolvendo meus momentos de reflexão e o sonho de uma noite inteira em que nós nos beijávamos e nos amávamos, de uma vez por todas, como gente grande. Eu acordei cansada, atordoada e furiosa. Por onde você está? Quem está amando? Quando voltará? Joga um verde de novo que eu me calo de assombro. Eu te aceito, apesar dos pesares. Não te afugento mais, mas também não te amo mais. Não poderia te amar de novo. Não me permitiria amá-lo novamente, sou tola, porém nem tanto.

Eu só sei que se você aparecer na minha frente, barbudo e sensual, como no último encontro, eu terei que te beijar e te amar, meu querido. Para acabar com o recalque do nosso nunca realizado e irrealizável para sempre, de uma vez por todas, como gente grande. E, a partir disso, me deixe em paz com os fragmentos de livro. Não quero mais lembrar de ti em histórias mais emocionantes do que a nossa. Não quero uma epopéia de você e nem mesmo um romance. Talvez um conto. Provavelmente daríamos um conto, mas não um de Benedetti. Não somos tão bons assim.