29 abril 2009

É tempo de barrigudas.

Permito, pois, que reserves a mim todas as críticas. Mas jamais, e eu digo jamais nesse sentido folgado que jamais possa ter, poderá reclamar de que não fui amiga o suficiente ou que não te dei espaço para acompanhar essas mudanças que ocorrem dentro de mim. Pois mudanças ocorrem sempre, nós nos rebaixamos à elas apenas se quisermos. Se eu mudar, quero você ao meu lado, e se você não conseguir entender a dimensão de tudo isso, é melhor mesmo que você perca a imagem de mim que você carrega em você. Assim, poderemos construir uma nova imagem, que deixe claro que o tempo nos muda, mas que juntas podemos mudar o tempo.

Continue aqui que eu te mostro que a beleza de conversar sem palavras permanece entre nós e sempre permanecerá. Não acredito que com você a lei do “tudo passa” fará algum sentido. Eu não poderia passar por nada, nem ninguém, nem momento sem você. Sou viciada em você. Continue aqui que eu vou corrigi-la, com aquele meu jeito. Pois não são ipês que você tem admirado, são “barrigudas”. São árvores parecidas, porém, não são iguais. O tempo de ipês já passou, mas o nosso não passará nunca. Continue aqui que passaremos por ipês e barrigudas, todos os anos, construindo novas imagens de nós duas e carregando, guardado no peito, a mesma impressão de beber cerveja pela primeira vez. Continue aqui que nós passamos por essa fase, querida.

23 abril 2009

Everybody's Gotta Learn Sometimes.

Na encruzilhada, de novo. Em que todas as coisas se repetem e continuamos sem sair do lugar, esperando sabe-se lá por qual demônio que carregue nossas dúvidas de uma só vez, sem esquecer da troca de nossa alma por algo mais valioso do que esse viver meia-boca. Tenho, nesse momento, algumas possibilidades pelas quais esperei pelo ano passado inteiro. O ano passado foi o ano com menos essência que já me ocorreu e ainda assim, eu sobrevivi a ele. Ocorre-me que sobreviverei a esse também e aos próximos que virão, se essa for mesmo a minha vontade. Ou não. E esse ano que começou tão mal, que não possuía nenhuma aposta de minha parte, que não representava esperanças, tem se demonstrado cada vez mais solidário as desgraças de Janeiro. Faz com que me sinta completa, se isso é possível para algum ser humano. E ser humano que sou, sinto-me quase completa.


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O Globalizado me agrada em demasia, de um jeito viçoso e rico de sensações. Sentir saudades dele faz com que dores apareçam em lugares inimaginados no meu corpo. Lugares que ninguém nunca sentiu; lugares que nunca tentei tocar. E o Globalizado o toca, facilmente e cada dia mais. Com todo o mistério e os livros de psicanálise, socialismo latino-americano, ficção científica e viva Perón! Eu o amo e o amo, eu. E de tanto amor eu me traio com as declarações vomitadas e as conversas mal planejadas. O Globalizado totalizante e universal em todas as partículas que podem existir dentro da felicidade. E só de saber que ele existe eu já não me sinto tão só. Porque ele existe e logo, para tudo há um motivo.

Achei digno que ele me presenteasse com uma caneta azul, eu estou cada vez mais minimalista e não coloro mais o meu caderno. A simplicidade de uma boa caneta azul me faz muita falta e eu gostei tanto de poder escrever o nome dele com a caneta que ele me deu. Ele guarda com ele uma libélula que foi minha durante muito, muito tempo! As libélulas comem seus pares após procriarem, assim como as viúvas negras. Eu me identificava muito com elas até outro dia, quando eu me encantei pela forma como ele se encantou por mim. Eu não sei se o meu cheiro é bom, mas ele gosta e fico tão triste quando não consigo corresponder as expectativas que ele demonstra ter. Mas o quero tanto comigo, pelo eterno momento que um “por enquanto” pode significar. Porque, “por enquanto” ele me faz tão verdadeiramente feliz que olhá-lo com tédio em uma aula inútil já é gostoso que só. Como a bunda boa que ele tem que eu pretendo pegar muitas mais vezes. Gostoso que só.

Existe um mineiro que tem um sorriso engraçado e que ri muito de mim. Ele ri de mim e comigo. Ele ri bastante. O sorriso dele é tão risível, que eu sorrio muito também. Ele me acha paradoxal, ou algo como “moderna estando fora da moda”. Nós discordamos de muita coisa, quase tudo, ao que parece. Entre ideologias e formas de interpretar uma mesma música. Nossas músicas preferidas são as mesmas, mas nós as encaramos de formas diferentes. Assim como interpretamos esse governo de formas opostas e somos diferentes também na maneira como tratamos essa nossa distância, esse nosso depois. E ele é meu amigo. Por que me abro com ele rápido e o espanto (espanto mesmo?) com o meu jeito de conversar sobre esses tabus pós-modernos. Mas ele conversa sobre tudo comigo. E eu gosto muito dele, até quando ele me questiona e acha absurdas as minhas estórias de doze anos. E eu me defendo, mas gosto tanto quando ele me indaga e me chama de paradoxal. Como já disse, gosto muito de palavras com X e gosto muito dele.

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Eu me sinto gostada e “gostante”. Mas, sabe? Sem pressões e necessidades emocionais. O que ficar, ficou. O que passar, passarinho passou. Pois, o que há de mudar na minha vontade de viver ou não? Na significação do mundo, do sexo e do trabalho? No máximo, novas consciências de novas Dandaras irão me varar as madrugadas. Eu encaro o risco, pelo breve momento de viver o que está aqui e agora, sem peripécias e planos pro amanhã.

19 abril 2009

Paradoxos e fantasias

As vezes fazemos coisas que não deveríamos ter feito. Não por serem erradas. Nada é errado para quem é livre. Ideológicamente livre, se é que esse conceito existe. Mas porque elas são ignoradas por nossas vergonhas cristãs. Dizem que, basta nascer no mundo Ocidental para ser judaico-cristão. Isso é uma merda, é tão verdade que preciso usar a palavra merda pra expressar meu descontentamento. Por mais que eu leia livros cada vez mais hereges, continuo com dogmas tão profundos e preconceitos tão absurdos, como se ser eu fosse impossível. Um determinismo nojento.

Situação hipotética:

Ele sentou-se bem na minha frente e a conversa duraria até as cinco horas da manhã, caso não a tivéssemos interrompido com os desejos repreendidos de dois anos atrás. Tirar a barba o irritava, a pele branca tinha machucadinhos sutis. Mal percebi o que fazia quando meus dedos já procuravam por sua nuca e nesse momento eu estava de pé. E nós dois já estávamos sobressaltados, ele sentado olhando pra mim e minha estratégia de roubar beijos estilo Mary Jane e Spider Man. Beijos ao revés do que deveríamos fazer e do sentido correto e comum de se beijar. A partir de então são cicatrizes na memória. Por onde os meus dedos passaram e por onde gostariam de passar. Os arranhados delicados no espaço entre os meus seios. A escolha da calcinha errada, uma infantil alaranjada com desenhos do Charlie Brown. Quando um homem nos respeita, nós mulheres reclamamos e quando ele não nos respeita, nós nos indignamos. Quase entendo o porquê de tantos gays, mulheres são complicadas demais pelo simples motivo de gostarem de complicar. Já era manhã quando me cansei de misturar cervejas e ele me deitou na cama mais longe da sua. E foi melhor assim.

Bêbados acordados sabem bem o que é verdade e uma Dandara sensata sabe bem o que deve ser comentado. De olhos baixos e com a educação de dar bom dia sorrindo, não sei se tudo foi sonho ou um devaneio longo cheio de orgasmos.

P.s: Eu gostei do adjetivo “paradoxal”. Aliás, gosto muito de palavras com x.

17 abril 2009

Pizan e seus equívocos.


Todos os dias eu passo por uma Sinaleira que fica na frente de um ipê rosa. Na Bahia é Sinaleira, pro Vanguart é Semáforo, pra você, se te falta criatividade, deve se chamar Sinal. Não estamos mais em época de ipês e cada dia a parte rosa vai sumindo atrás do verde que fica vermelho que fica amarelo que fica verde, eternamente. Como o tempo que não pára e a beleza ali, se esvaecendo frente aos meus olhos melodramáticos. Eu tenho uma memória que me deixa na mão, não gosto dela e claramente ela não gosta de mim. Mas existem pequenas coisas que por algum motivo continuam guardadas a sete chaves. Decepções e desgraças não levam tais coisas de mim. Uma delas é esse ipê cor de rosa que pontua os meus dias úteis.

Outro exemplo é de 94, quando o Brasil ganhou a copa e eu tinha o uniforme completo. Não me lembro do uniforme canarinho, mas me lembro de um sininho verde anil que fazia um barulho estupidamente chato. Não me lembro da sensação de sair às ruas gritando “Tetra-campeão”, mas daquele sininho verde anil eu não me esquecerei jamais.
Também não me esquecerei dos Lancys cor púrpura que meu avô me dava assim que eu chegava da escola. Hoje o Lancy é azul, mas a púrpura continua sendo minha cor preferida. Ou do cheiro de carinho que minha avó possuía. Ou da felicidade de poder andar no banco da frente do primeiro carro do meu pai, um fusquinha bege horroroso que estava sempre quente, porém sempre aconchegante. Ou do espanto de entender o que “pura morfina” significava para Ana Karenina e “ai, que giro” significava pro Miguelito, meu querido. Ou das dores de barriga depois de comer muito frambello. Ou dos tacos tortos e das bolas rachadas da casa da Ju.

Por outro lado, estou muito triste, pois está me escapando à memória o gosto de biscoito de polvilho, de canjiquinha, de sorvete de abacaxi. O encaixe do abraço do meu vô, o jeito que ele me pegava pela mão, os sorrisos que ele dava quando dizia que eu ia ser presidente do Brasil. Estou esquecendo dos conselhos que a Juliete tinha e que eu nunca ouvia, por achar que ela era boazinha demais.

Maldito Darwin! Como pude me adaptar a ausência de pessoas tão importantes? Agora eu não consigo ouvir Pink Floyd sem me sentir mal, não consigo ir ao Giraffas em dias chuvosos, não agüento mais o gosto de cloro, não confio nos homens, não me calo para ser obedecida, não me incluo nos debates político-esquerdistas com tanta convicção, meto os pés pelas mãos e não deixo ninguém meter nada por alguma razão mal esclarecida.

Quando eu conheci a Juliete um sorriso cretino veio à tona, porque me lembrei da de Sade que é uma das personagens mais absurdas e verdadeiras que já “conheci”. Ela estava morena com cor de Bahia, aquelas trancinhas feiosas puxando os cabelos longos e lisos pra trás. Depois ela foi ruiva, loira, teve cabelo médio, curto, voltou a ser morena. E continuava expressando as suas metamorfoses pelo cabelo. Cada novo amor uma nova Juliete aparecia e eu continuava ouvindo as suas histórias, achando que minha vida era mais animada, com esse ego boçal que eu aprendi a ter. E ela se admirava com nossa amizade às avessas e eu estava apaixonada sem perceber. Só ficou o vazio, pois não tenho outra amiga como você, que coma macarrão ao invés do preferido frango com fritas, só porque alguém queria uma pasta. Que assistia filmes repetidos só para que os amigos pudessem vê-lo também, que ia pros lugares que não gostava para não gerar conflitos. Mas que, no entanto, regia todo um grupo social que se perdeu com sua partida. Uns esquecidos entre a paranóia pré-vestibulanda, outros depressivos pelo amor mal resolvido, outros entregues as drogas e a merda generalizada. E eu, sozinha no meio de tanta gente, precisando dos conselhos não-feministas daquela que chamaria meus filhos de sobrinhos. Em pensar que seria a Bahia que te roubaria de mim. E o “tempo de paz”? Perdeu-se!

Estou completamente desconhecida de mim mesma e sei que isso seria diferente se você estivesse aqui. Sei isso de uma forma muito sabida. Não que eu esteja procurando o sofrimento, mas eu estaria mais centrada com você por perto e meu telefone não toca depois do almoço com suas ligações cronometradas. Você me confundiria com outra Dandara amiga, porque, nesse momento, eu chegaria em você e diria “e agora, o que eu faço?”. E você me lembraria das frases de mulherzinha independente que eu costumava dizer quando eram os seus lamentos que comandavam nossas conversas. E a maioria dessas frases era da boca pra fora, porque eu sou medrosa demais pra admitir que minha frieza é minha proteção. E volto sempre a ficar presa nessa imagem que eu construí pros outros, sem conseguir descobrir se sou mesmo o que gostaria de ser e se eu gostaria mesmo de ser isso que acham que eu sou.

Todos os dias, em frente aquele ipê rosa, eu me lembro das suas arrancadas quando o sinal ficava verde, porque você achava um absurdo os outros carros saírem na sua frente.
Eu tenho vontade de andar por ai com polainas pra sentir você mais perto de mim e queimar o livro da Christine de Pizan, como eu teria queimado meus soutiens em outros tempos. E concordar com suas previsões de que, se um dia eu me apaixonar, eu vou me contrariar sobre todas essas coisas que eu falo, de uma forma sutil, deixando esse encantamento único e feminino de ser Juliete sem ser Sádica, como pressuposto, de ser mulher sem ser equivocada. De saber sofrer, de saber amar, de saber gozar sem precisar magoar outras pessoas em meu proveito.

11 abril 2009