Todos os dias eu passo por uma Sinaleira que fica na frente de um ipê rosa. Na Bahia é Sinaleira, pro Vanguart é Semáforo, pra você, se te falta criatividade, deve se chamar Sinal. Não estamos mais em época de ipês e cada dia a parte rosa vai sumindo atrás do verde que fica vermelho que fica amarelo que fica verde, eternamente. Como o tempo que não pára e a beleza ali, se esvaecendo frente aos meus olhos melodramáticos. Eu tenho uma memória que me deixa na mão, não gosto dela e claramente ela não gosta de mim. Mas existem pequenas coisas que por algum motivo continuam guardadas a sete chaves. Decepções e desgraças não levam tais coisas de mim. Uma delas é esse ipê cor de rosa que pontua os meus dias úteis.
Outro exemplo é de 94, quando o Brasil ganhou a copa e eu tinha o uniforme completo. Não me lembro do uniforme canarinho, mas me lembro de um sininho verde anil que fazia um barulho estupidamente chato. Não me lembro da sensação de sair às ruas gritando “Tetra-campeão”, mas daquele sininho verde anil eu não me esquecerei jamais.
Também não me esquecerei dos Lancys cor púrpura que meu avô me dava assim que eu chegava da escola. Hoje o Lancy é azul, mas a púrpura continua sendo minha cor preferida. Ou do cheiro de carinho que minha avó possuía. Ou da felicidade de poder andar no banco da frente do primeiro carro do meu pai, um fusquinha bege horroroso que estava sempre quente, porém sempre aconchegante. Ou do espanto de entender o que “pura morfina” significava para Ana Karenina e “ai, que giro” significava pro Miguelito, meu querido. Ou das dores de barriga depois de comer muito frambello. Ou dos tacos tortos e das bolas rachadas da casa da Ju.
Por outro lado, estou muito triste, pois está me escapando à memória o gosto de biscoito de polvilho, de canjiquinha, de sorvete de abacaxi. O encaixe do abraço do meu vô, o jeito que ele me pegava pela mão, os sorrisos que ele dava quando dizia que eu ia ser presidente do Brasil. Estou esquecendo dos conselhos que a Juliete tinha e que eu nunca ouvia, por achar que ela era boazinha demais.
Maldito Darwin! Como pude me adaptar a ausência de pessoas tão importantes? Agora eu não consigo ouvir Pink Floyd sem me sentir mal, não consigo ir ao Giraffas em dias chuvosos, não agüento mais o gosto de cloro, não confio nos homens, não me calo para ser obedecida, não me incluo nos debates político-esquerdistas com tanta convicção, meto os pés pelas mãos e não deixo ninguém meter nada por alguma razão mal esclarecida.
Quando eu conheci a Juliete um sorriso cretino veio à tona, porque me lembrei da de Sade que é uma das personagens mais absurdas e verdadeiras que já “conheci”. Ela estava morena com cor de Bahia, aquelas trancinhas feiosas puxando os cabelos longos e lisos pra trás. Depois ela foi ruiva, loira, teve cabelo médio, curto, voltou a ser morena. E continuava expressando as suas metamorfoses pelo cabelo. Cada novo amor uma nova Juliete aparecia e eu continuava ouvindo as suas histórias, achando que minha vida era mais animada, com esse ego boçal que eu aprendi a ter. E ela se admirava com nossa amizade às avessas e eu estava apaixonada sem perceber. Só ficou o vazio, pois não tenho outra amiga como você, que coma macarrão ao invés do preferido frango com fritas, só porque alguém queria uma pasta. Que assistia filmes repetidos só para que os amigos pudessem vê-lo também, que ia pros lugares que não gostava para não gerar conflitos. Mas que, no entanto, regia todo um grupo social que se perdeu com sua partida. Uns esquecidos entre a paranóia pré-vestibulanda, outros depressivos pelo amor mal resolvido, outros entregues as drogas e a merda generalizada. E eu, sozinha no meio de tanta gente, precisando dos conselhos não-feministas daquela que chamaria meus filhos de sobrinhos. Em pensar que seria a Bahia que te roubaria de mim. E o “tempo de paz”? Perdeu-se!
Estou completamente desconhecida de mim mesma e sei que isso seria diferente se você estivesse aqui. Sei isso de uma forma muito sabida. Não que eu esteja procurando o sofrimento, mas eu estaria mais centrada com você por perto e meu telefone não toca depois do almoço com suas ligações cronometradas. Você me confundiria com outra Dandara amiga, porque, nesse momento, eu chegaria em você e diria “e agora, o que eu faço?”. E você me lembraria das frases de mulherzinha independente que eu costumava dizer quando eram os seus lamentos que comandavam nossas conversas. E a maioria dessas frases era da boca pra fora, porque eu sou medrosa demais pra admitir que minha frieza é minha proteção. E volto sempre a ficar presa nessa imagem que eu construí pros outros, sem conseguir descobrir se sou mesmo o que gostaria de ser e se eu gostaria mesmo de ser isso que acham que eu sou.
Todos os dias, em frente aquele ipê rosa, eu me lembro das suas arrancadas quando o sinal ficava verde, porque você achava um absurdo os outros carros saírem na sua frente. Eu tenho vontade de andar por ai com polainas pra sentir você mais perto de mim e queimar o livro da Christine de Pizan, como eu teria queimado meus soutiens em outros tempos. E concordar com suas previsões de que, se um dia eu me apaixonar, eu vou me contrariar sobre todas essas coisas que eu falo, de uma forma sutil, deixando esse encantamento único e feminino de ser Juliete sem ser Sádica, como pressuposto, de ser mulher sem ser equivocada. De saber sofrer, de saber amar, de saber gozar sem precisar magoar outras pessoas em meu proveito.
