12 dezembro 2008

Um sonho.

Todos os dias nós nos falávamos as 23 hrs em ponto. Eu te explicava sobre todas as coisas e o que eu não sabia, eu descobria, apenas pra ter mais coisas pra te contar. Você desembaraçava meus cabelos finos com os mesmos dedos que me faziam massagem. Eu te beijava, primeiro no olho, depois embaixo da orelha e depois no canto da boca, à là Amélie. Você fazia o mesmo e depois me carregava até lençois que cheiravam a morango. Eu lia filosofia, enquanto você adormecia à meia luz do meu abajour e quando seu sono perecia, nós nos olhávamos em silêncio, captando o som que a presença um do outro despertava. Nós inventávamos piadas que de tão horríveis nos faziam rir. Você me pegava pelo pulso, feito mãe quando se atravessa a rua, e eu ia, e eu ria e eu não tinha mais do que duvidar. Eu ouvia minhas músicas nos meus fones de ouvido e você ia só aos seus shows, poic como era bom sermos dois. E quando a noite enegrecia os meus sonhos, você vinha me proteger de todo e qualquer mal e, de alguma forma, eu sabia retribuir. Nós nos sentíamos no frio, no calor e nossos corpos tinham um encaixe mais do que perfeito. Eu andava toda colorida com a alegria de viver e você estava sempre de vermelho. Pois como eu gostava de te ver de vermelho.

Foi assim que eu sonhei.
"Meu amor, cadê você? Eu acordei, não tem ninguém ao lado."

09 dezembro 2008

Há conselhos demais e eles se opõem no que diz respeito a você. Se todos se calassem e ficássemos a sós. Mas há tanta gente ao nosso redor, há tanto esforço em não deixar escapar palavras a mais, há tanto teatro no meu jeito de fingir estar bem. Nunca ouvi tantas vozes em um só lugar. Nunca me calei por tanto tempo e principalmente, nunca me calaram dessa forma. ‘E aquilo que era nada volve a tudo’.
Não consigo mais ser sua amiga. Sinto-me patética ao seu lado. Um dia você vai entender, ou não. Nunca fez parte de você o entendimento, que seja. Mas um dia, eu voltarei sem que tenhas sentido a minha falta e tudo renascerá forte e grande dentro de você.
E ao modo de Perseu, transformarei todos em estátuas novamente. Inclusive você. Pois como mereço uma Medusa em minhas mãos e a força que se dissipou dentro de mim.
Vês? Quem é você pra entender mitologia?
Por que falo mal de você se sei que te quero tão bem?
Ai Jesus, nem escrever eu agüento mais. Essa bipolaridade a que você me amaldiçoou é o que me faz mais mal. Não consigo nem mesmo me expressar por clichês mais aceitáveis. Não consigo ser fria, feia e frígida ao seu lado. Não consigo te trazer pra perto de mim e por isso mesmo, vou fugir.
Tchau.

26 novembro 2008

Horizonte Distante

Brasília desperta em mim vazios a que não sei nomiar. A falta de horizonte me sufoca e acordar com passarinhos me tira a vontade de levantar. Sinto falta de uma poluição mais honesta que arda os olhos como deve ser. Por aqui vivo pouco e somente envelheço porque não há alternativa. O tempo passa sem razão. As pessoas não me perguntam se eu vou bem e eu não ligo a mínima para as pessoas. Enxergo a vida em flashes e só tenho plena consciência de momentos ligeiros carregados de uma felicidade barata, mas não ouso reclamar. Meu nariz não sangra e quando chove o cheiro é bom. Brasília resume-se em odores que me lembram o que eu poderia, mas não vivenciei. A verdade é que tudo tem cheiro do que passou e do que há de vir. A frase: "a vida há de melhorar" me é repetida todos os dias antes de dormir e já está de tal forma em minha cabeça que é impossível duvidar.
O fato é que bebo brindando as curvas do Pe. Eustáquio que fizeram de minhas panturrilhas as únicas partes mencionáveis de meu corpo intocado. O fato é que bebo brindando os semáforos da Savassi madrugada à dentro, desrespeitados e meramente ilustrativos. O fato é que bebo brindando as luzes do Centro, que se estendem em uma Lourdes altiva, da janela da Dani ou da Dai. O fato é que bebo brindando os carros da Avenida do Contorno. Bebo brindando a salada que comia no Conservatório de Música e o açai da Uaice. Bebo brindando aos filmes franceses e as exposições de fim de tarde do Cine Belas Artes. Bebo brindando os semanais campeonatos de truco no Bar do Paulinho. Bebo brindando os porres de vinho em galão e as constantes ressacas curadas em plena Praça da Liberdade. Bebo brindando o Café das Letras e as tardes de prosa com Isabela Farinha. Bebo brindando a Bruna Gil me apresentando seriados, e Lauras, e Maris, e bares, e seu Cirurgia Moral recém-criado. Bebo brindando Pedros, Thiagos, Eduardos e Felipes embriagados entre os meus beijos roubados na Rua da Bahia ou do Espírito Santo.
O fato é que bebo para esquecer que os meus motivos para brindes são de todo íngremes e intocáveis, pois não há nada, nem ninguém, nem momento que me possa pertencer da mesma forma novamente.
Brasília me acerta em cheio e não culpo as cigarras por minha insônia. Não culpo meus pais por meus vícios. Não culpo meus livros por meus silêncios. Não culpo meus amigos por seus receios. Não culpo meu bem por sua desistência.
Culpo a mim mesma por meu desapego, pois o que há de bom em Brasília eu sempre deixo escapar. Mas "a vida há de melhorar" e ai de mim se eu não tiver coragem da próxima vez.
(Escrevi esse texto a algumas semanas atrás. Não me sinto mais assim, por enquanto.)

21 novembro 2008

Bárbara Kruger makes my day



They're telling the stories that never should be told
They're smoking sad cigarrettes that never should be smoked
I open an old book and I try to read it again
But the dust over my thoughts had gone to my heart, had blown me as it could

20 novembro 2008

Desculpa: 2° dia, de 10.

Eu perdi as estribeiras e vi em você muito poder. Foi com malícia que usei a maça e a língua e os vapores quentes e gelados. Sei que te confundi com os dias em que sorria meu sorriso segredo. Eu também odeio esse sorriso. Minhas palavras não controlo e é de estudos sociológicos que levo minha vida amorosa. Por esse lado, me enxergo mais fracassada do que você.
Olha, não te enganei por completo. Eu quis, durante essas noites, que você viesse ser meu travesseiro e não só isso, mas que estivesse presente nas minhas tardes de calor e de filosofia também. Eu ponderei levar-te dentro de mim: para conhecer meus amigos, meus bares, minhas ruas sinuosas, minhas noites de vinho e lua, meus horizontes de mistérios. Pensei que não seria de todo ruim pois teríamos liberdade e eu respeitaria você. Eu seria leal e nunca me imaginei prometendo isso, mas eu prometi.
Não fiz por mal. Fiquei afobada com o incentivo da perda e o ego a tilintar pedindo por alguma reação. Depois de um tempo, percebi que, mesmo que eu gostasse de você, eu estava era diminuindo seu potencial. Segundo uma grande amiga minha, 'homem é oito ou oitenta' e bem, se você voltasse, nem 0,8 você valeria. Afastei-me de ti e o mundo se aproximou de meus calcanhares. Quase que bato asas todos os dias de manhã. Tenho calafrios na espinha que não sei de onde vêm, meus cabelos balançam me arrancando um sorriso e meu pai me dá bom dia de um jeito completamente novo.
Desculpa por ter te contado meus desvios e ter desviado você em meus contos. Eu não repito esse erro com mais ninguém, porque agora, só me alegra o que é ou tem chances de se tornar real.

Para Mª Fernanda

Transformações acontecem, querida. Ainda que sejam lentas, elas inundam vontades e transbordam nossas ilusões. Quando menos se espera o mundo saí de si mesmo e tudo perde sua essência. Caneta, porta-retrato, Papai Noel. Nada volta a acontecer e não se pode evitar o que há de ser. Têm de se ser.
E querida, existem direções para os seus assobios, mas o vento não vai querer te ajudar. O vento não espelha os odores que desejamos espelhar e não traz de longe o que nos falta na alma. Depois de uma certa idade já não faz mais sentido contar os passos e desenhar moinhos e Dom Quixotes. Existem relógios que não são elétricos e nem todas as pessoas são brancas do olho azul. Essa é a maravilha do mundo.
Pessoas nascem sabendo ser um só animal, não são como os pássaros que às vezes fingem ser gente. Dissimulados que são! Mas você vai ser o que quiser, vai ser várias e há tanto tempo em suas mãos. Querida, encarar pessoas é deselegante e dizer 'olá' não vai trazer ninguém para perto de você. Não se assuste! Você aprende... Envelhecer é uma arte, mas ser jovem é ainda mais difícil. É complicado descomplicar, pois a vida querida, é uma só.
O fim do mundo está dentro de você, querida. Saiba usá-lo quando lhe convir, mas saiba convir a quem lhe usar e saiba ser usada pelo fim do mundo. Coloca seu vestido rosa e sorri com todas as suas covinhas. Quero te abraçar tão forte, mostrar os parques e os calafrios do mundo moderno. Enrole os seus cabelos que eu estou chegando e não acenda ainda o pisca-pisca do Ricardo. O Natal dessa vez, não terá capitalistas de codinome 'bom-velinho'.

17 novembro 2008

Fim da prosa: 5° dia, de 10.

Acho que cansei (e digo que acho porque não cometo mais o engano de usar afirmações). A verdade é que não sinto sua falta aos domingos, não procuro saber por onde anda e não te encontro nos meus desvarios. Sua ausência (ou presença) passa batida a minha percepção. O mundo gira feito peão de madeira que meu primo Jorge colecionava e da minha janela o vento não grita seu nome. Acho que minha vontade adormeceu dentro de mim e ninguém, nem mesmo ‘deus’, sabe se ela acordará. Não enxergo mais aquela coisa que eu queria conquistar em você, não sobrou nada em você que eu queira guardar em minha memória, não tenho mais que te revirar para descobrir palavras não ditas, não te dedico músicas ou prosas. Tudo foi explícito demais. Mas eu continuo triste e mais ainda agora. Pois, de noite, em meu travesseiro, eu tinha o que murmurar e agora (que acho que te esqueci) eu adormeço feito criança em dia de visita ao zoológico. Como é chato acordar descansada e ter de viver o dia em seus mínimos detalhes sem nem ao menos uma razão para o meu mau humor.

Eu explico: gosto mesmo é de ter insônia, de sofrer descasos, de ver a chuva me atrapalhando as madrugadas, de ouvir os ‘nãos’ que a vida me reserva e quando vem essa calmaria eu perco aquilo que me faz humana. Pois sofro sem razão e não há nada mais doloroso do que não nomear a dor que carregamos no peito. Logo encontro outro motivo para sentir um penar mais sôfrego e então a vida será em prosa novamente.

16 novembro 2008

Já é quase Natal: 6° dia, de 10.

Um ano sem espetáculo. Escolhi uma profissão, alcancei a maior-idade, me apaixonei e desencantei, fiz novos vícios, perdi amizades, ganhei algumas, permaneci a mesma. Cansada e calada, Dandara.

No escuro invento histórias e memórias que esqueço de escrever. Dou nome a amores não encontrados e os que perdi não possuem sobrenome. O que eu queria não corro atrás e a vida se prolonga. Para brincar com minha fúria continuo a existir, entre as frases não ditas e os meus pais com suas vidas. Invento motivos para brindes alcoólatras e todo dia é dia de bar. Estraguei os meus sonhos, decapitei minhas vontades e psicólogos diriam que é culpa da fase oral. Minha mãe não acredita em culpa, em matrimônio, em bissexualidade, em fé e eu ainda não me decidi se concordo com ela ou não. Primo pela liberdade, igualdade e condeno à morte a propriedade privada. Pois ter não tem relação com o direito de ir e vir. Não me venham condenando minhas vontades e dando o nome de utopia porque engano seria permanecer calada, com os olhos vermelhos e um pito de cigarro fedendo entre os meus dedos. Afinal, como fede a nicotina e como fede não conseguir largá-la e como fede essa juventude apática. Como fico bêbada quando não há com quem conversar e hoje nada há. Quer me ver sofrer? É só dizer que votou nulo, que Interpol é imitação de Joy Division, que Machado de Assis é chato e que eu sou ingênua demais.

Sinto saudades. É tudo. Não quero mais fazer sentido, pois quanto tempo perdi sendo Dandara. Também odeio pessoas que falam sobre si mesmas em terceira pessoa, mas vocês que me perdoem, pois quanto tempo perdi tentando escrever de um jeito tragável e como traguei enquanto escrevia dessa forma desprezível. Pior de tudo, como que pensei em me mudar só pra que me chamassem de ‘meu bem’? Hoje, desprezo por demais os motivos que levam seres razoáveis a referir-se uns aos outros como ‘xuxu’, ‘neném’, ‘benzinho’, ‘tchuco’, ‘querida’. É como se perdessem aquilo que os faz humanos e se tornassem alvo do capitalismo que cria datas como Natal e dia dos namorados. Já é quase Natal nesse ano sem espetáculo e eu odeio 24 de dezembro.

Quero Janeiro por demais.

12 novembro 2008

Solidão: 9° dia, de 10.

Fui, entre sorrisos e lágrimas, me esconder em outras bocas. Assim, como que brincando com os dias, te esqueci entre as feridas mal curadas do meu ego. Digo sem total convicção, mas ainda assim o digo:

- Vai-te embora, vai-te mesmo, pois eu não entendo nada de amor.

Eu quero arrastar sozinha todo o caminho e quero continuar com a razão invicta porque é assim que os meus méritos hão de surgir. Ninguém usa o amor como troféu. Caso contrário não seria amor e sim outra coisa qualquer parecida com surpresa de menino frente a eco gigante. Nome: amadorismo.

Pois eu gosto mesmo é de ter o que contar. Bebendo os meus goles cumpridos, conto pro mundo das coisas que tenho empilhado e dou sorrisos de moça vivida ou vívida, dependendo da sua linha de entendimento. Ah, e de minhas histórias surgem os frutos para as palavras que se desdobram e escrevo sem receio porquê foda-se se o mundo acabar amanhã. Bem sei que perderia o ‘foda-se’ e o trocaria pela foda acaso o amor batesse a minha porta. Que me perdoem o jeito de moça desbocada, é que não possuo aquilo a que meu pai chama de encanto, mas porque, conscientemente, não quero mesmo encantar a ninguém. Sou pró foda-se à cima de todas as coisas e devo ser a única, pois continuo só.

Discordo do pacto silencioso de cultivar a estupidez, pois cometo, com prazer, a gafe de falar sobre artes, filosofia e política. Quase gozo quando a mim me destinam atenção e só não o confundo com o amor porque aprendi, com os meus livros, que amor acompanha aquele sentimentozinho de posse e nunca que eu quis possuir ninguém. Que fardo seria! No entanto, que possessiva que sou e como que gosto de ser a preferida do mundo e como que gosto quando sou possuída, pois tão rápido passa.

Isso de gostar de ser ouvida já é indício de desvio de conduta, pois como dizia a minha avó, “boa moça é aquela que sabe ser calada e ao mesmo tempo sabe ser obedecida”. Era feminista e não sabia, a minha avó. Meu avô, por esse ou outro motivo, gastava toda a sua aposentadoria em chocolates Lancy para a mulher diabética e eles comiam escondidos na área ou no quintal. A isso dou o nome amor e que ‘deus’ ou a minha memória os tenha, benditos foram.

Lembro-me, que sem pausas, eu gastava horas a fio contando pro meu avô como que fora o meu dia e eu, por assim dizer, fui a única moça vívida, desbocada e faladeira que ele amou. Minha avó era de uma mudez sincera e nunca que a vi chorar. Aquela fineza me machucava feio. Depois de tantos anos de saudade eu aprendi que amor não é aos gritos, mas na pergunta fácil:

- Você prefere pão de queijo ou biscoito de polvilho, minha filha?
- Eu prefiro o biscoito vó.

E lá ia ela queimar-se no olho quente, na cozinha em que criança não pisava, mas que tinha aquele cheiro mineiro que nunca mais vou sentir. A isso também dou o nome de amor.

Ao fato de te deixar partir, dou o nome de cansaço e digo com convicção:

- Vai-te embora, vai-te mesmo, pois eu não entendo nada de persistência.

Só para constar: eu nunca mais na minha vida espero por você novamente e eu nunca mais na minha vida conto pra outro alguém as coisas que confiei a você. Mais uma vez eu vou fugir para onde o ‘foda-se’ não me magoe tanto e quando eu voltar nós não vamos nem mais sentir essa pedra que colocamos entre nós. Não vai mais me doer seus três, quatro ou sete meses. Não vai mais me abalar a casa vazia e eu não vou me embebedar pois sua presença nem vou sentir.

Eu nunca que quis te possuir, pois ah, como seria fácil viver.

29 outubro 2008

Passada A Hora da Estrela.

Meu estado de desolamento é tão forte que me tranquei em mim mesma para não ousar fazer contato com o mundo externo e te ligar com as lágrimas postas.
Empanturrei-me de sorvete de Macadamia, como se alto teor de glicose fosse à salvação da minha vida-consciência. Coisa de quase-burguês que acredita na luta de classes à mão armada, mas que gasta vinte reais em um pote pequeno de fantasias enlatadas.
Estou toda doída de tanto existir. E existir é o meu luxo.
Minha mãe passou mal todo o dia e o cheiro de vômito vai demorar a sair do banheiro, porque a impressão fica guardada na ponta do nariz ou na ponta da memória.
Meu pai me ofereceu quatro convites para nem-me-lembro-o-quê. Eu os recusei, pois vou tirar o sábado para não ser eu ou para continuar não sendo eu (livre leitura).
Vou ver se consigo ficar em casa amanhã, para aproveitar o tédio e a solidão e aumentar o orgasmo de sentir dor no âmago. Acaso perca as minhas medidas te ligarei sobressaltada e direi, sem eira bem beira, em letras garrafais saindo de minhas entranhas que sexta-feira foi um dos melhores dias da minha vida, mas que domingo me estraçalhou as esperanças e diminui minha vontade de viver meu futuro.
Meu travesseiro bem sabe que digo a verdade e essa sua desconfiança de mim chega a ser indecente de tão absurda, dado o tempo que ela desperdiça. Passam-se os dias e não chega o tempo de morangos.

A primeira garota.

Alguns dias atrás renasci por uma garota. Uns 17 anos, esperando ônibus, fones de ouvido, tênis all star, cabelos castanhos e olhos de mel. Da minha janela o tempo parou. Os cinco minutos em que a encarei, pareceram horas e horas de cumplicidade. Eu, envolvida com as páginas de um dos meus romances pessimistas, ao levantar o olhar para perceber à qual distância estava do meu destino, dei de olhos com aquela que permaneceria todo o fim do dia a mandar nos meus pensamentos. Ela, sem desviar os olhos do meu assombro, acompanhou minha expressão ignóbil entre maravilhada e perdida. A primeira marcha virou segunda. Eu me fui. Pensei em olhar para trás, mas por algum motivo não tive coragem. Eu que não acreditava que uma mulher pudesse ter poder sobre uma outra, me peguei pensando que acaso encontre aquela garota novamente, juro por minha sanidade que lhe arranco um sorriso cheio de dentes. Porque, para ser sincera, vai ser bonita assim na casa do caralho.

E, com as palavras de Dostoievski em suas ‘Memórias de Subsolo’, “proponho já da minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor?”. Minha resposta é que, naquele dia, sem perceber, adicionei uma garota a minha coleção de amores platônicos. E o diabo deve saber o porquê.

27 outubro 2008

Relatos, Parte 1.

Veja bem, eu tenho os meus vícios e eu nunca soube ser feliz. Minhas maiores realizações foram os sarcasmos que usei pela vida a fora e as pessoas que magoei continuam empilhadas nos recônditos da minha memória. Sempre fiz as coisas certas para não ser incomodada e as vezes que me traí são contadas em uma só mão, assim como as pessoas que sabem dos meus vacilos. Levo minha rotina e faço o que tenho que fazer. Minha vida é prática, sem direito a erros. Nunca tive um motivo ou um alguém para nada. Sou taciturna e ácida no mais alto grau. Em suma, eu não sou interessante e nem nunca tentei ser. Pareço mesmo com um soque certeiro no estômago, porque de tão indecisa escolhi a indiferença como forma de vida e ninguém nunca percebeu que ela é, na verdade, minha derradeira capa protetora.

Eu não digo as coisas certas e eu costumo chorar enquanto deveria rir. Eu costumo chorar. Eu choro por qualquer coisa e na maioria das vezes nem o meu coração sabe o porquê, que dirá minha razão. Eu soluço enquanto choro e provavelmente, algum dia, eu vou soluçar enquanto gozo. Eu não grito. Bem que gostaria, mas eu não tenho coragem. Eu não tenho coragem. Eu nunca fugi pela janela e nem pela porta da cozinha. Eu nunca beijei na chuva, nunca dancei nua, nunca vi ninguém nu, nunca toquei um ser nu. Se pensar que essa é a parte triste da minha vida, estará muito enganado. Triste, para mim, é fazer aquilo que não se quer. Triste é não ser ouvido porque é o sexo que move o mundo. Triste é perder a infância e tão logo a jovialidade por amor, não que o sexo faça isso, mas o sentimento de doação corrompe até a mais sonhadora e independente das mulheres. Triste é perder a individualidade. Triste é transar com qualquer um e fazer do sexo coisa tão terrena como a fome. Transa-se para acreditar na continuidade da vida, assim como a diferença social existe para que alguns acreditem na superioridade e na validez dessa vida. Mas são todos uns inválidos, os dependentes de sexo e os amantes do dinheiro.

Eu gosto de falar e eu falo muita mentira. São imperceptíveis, juro. Faz tanto tempo que as tenho decoradas que não me lembro mais se são mentiras de verdade ou verdades de mentira. Mas há também as verdades que de tão sólidas, só acontecem comigo, segundo eu sei. E olha que eu sei da vida de todo mundo, porque, por alguma razão, as pessoas gostam de me contar os seus problemas. Mas eles são, na maioria dos casos, muito patéticos ou talvez, minha noção de mediocridade é que englobe muitas coisas. Eu sei, eu não deveria julgar, mas essa é uma mania antiga e ninguém nunca me repreendeu. A não ser Deus. Deus me amaldiçoou a uma solidão que vem de berço e por esse motivo a minha descrença também é de nascença. Essa sim, é a parte triste da minha vida. Porque de todas as ausências, minha fome de fé é que mais machuca os meus dias. Felizes são aqueles que acreditam na benevolência de Deus e podem ter esperança. Felizes são os que limpam a própria consciência com um “Pai Nosso” e conseguem dormir a noite inteira sem se revirar. Felizes são os que enchem os bolsos do capitalismo de dinheiro no Natal, mas que se vêem endividados logo após o carnaval e não perdem as estribeiras por conta disso. Mas eu vivo de blasfêmia, infeliz dependente de dinheiro e feliz amante de sexo (como ele deveria ser).

Desde muito cedo aprendi a ser bem falsa e, sem que ninguém perceba meu desprezo, eu consegui a maioria das coisas que quis. Eu bem que poderia me meter com política, mas não faço isso porque esse é um erro que meus pais já cometeram no meu lugar e chega de decepções ideológicas nessa família. Eu finjo ser apática, mas a verdade é que, em termos de sociedade, eu sou uma ingênua revolucionária com muitas idéias e de caráter basicamente otimista. Mas nada acontece e minha paixão pelos humanos se dissipa cada dia mais. Assim como a minha vontade de ouvi-los. Eu não sei escutar, digo logo. Ouvir posso ouvir, mas jamais levarei frases alheias a sério. A não ser que sejam escritas, a palavra escrita têm caminho certo até minha razão e compreensão. A imagem em nada me influencia e nem as declarações públicas de afeto. A verdade é que declarações me assustam e, como uma menina amedrontada, me escondo entre devassidão e medo, troco minhas próprias pernas entre os meus lençóis, me esqueço do mundo até a aflição passar. Então, de cabeça erguida apareço novamente, refeita em minhas mentiras e com frases tão bem decoradas que ninguém nunca há de perceber que eu estava era me escondendo. Admito, sou romântica demais e não sei lidar com coisas relacionadas ao coração. Após tantos labirintos, eu perdi a lição em que aprendemos a ser sociáveis. Posso falar com todos eles sem de fato dar a mínima atenção. Minhas relações são todas tão superficiais e se esvaem assim que a distância ou o tempo se alongam. Sempre foi assim e eu já me acostumei. Guardo quatro amigas no meu peito, dois pais (apesar das ressalvas) e umas ilusões com nome e sobrenome. Á fora isso, sobrevivo de colegas “que só aparecem quando eu bebo e quando eu não sou eu”.

Sou uma pessoa que discute. Excitam-me as discussões e mais ainda as que, de antemão, eu sei que perderei. No entanto, fico desolada quando perco sem previsão. Em sobressaltos digo o que não deveria, ofendo a todos, amaldiçôo e mando ao inferno as hipocrisias do mundo moderno. Depois me arrependo. Mas como não sei voltar a trás, perco pessoas como perco brincos. Eu perco todos os meus brincos, por isso parei de comprá-los. Em falar em vaidade, a minha é engavetada. Quando me arrumo, me preocupo em parecer espontâneo, quase como se não quisesse ter me arrumado. Tenho é medo de que os outros pensem que me arrumei para essa ou aquela situação, ou para esse ou aquele alguém. Pois, me convenço de que todas as situações e todas as pessoas devem ser dotadas da mesma importância. Eu odeio as vaidosas. Sempre tão vazias e infelizes, não refletem sobre seus motivos e mal entendem os tropeços do mundo. Enquanto eu só me preocupo com isso, tanto que perco o sono e fico com olheiras que mandam ao diabo a minha vaidade. Como odeio maquiagens e safadezas que os homens inventam para não serem eles mesmos e tudo isso escraviza ainda mais as mulheres. Torna-se um círculo vicioso e sobre isso posso discorrer páginas a fio, mas já me canso. Escrever assim, sem motivo, é sempre promissor, mas cansativo. Talvez um outro dia eu queira falar sobre mim novamente, mas é mais provável que eu escreva sobre os vazios do meu peito (como sempre). O sono bate à porta do meu quarto. É melhor atender antes que ele desista de mim.

21 outubro 2008

Seletas e Gabrielas

- Relaxa.
- Relaxar como se eu ando triste há mais de um mês?
- Com o quê?
- (...)
- Ah, mas isso passa e você acostuma.
- Com o quê, com o que ele diz ou com essa nossa situação?

(Meu bem, não inventa de ser irônico nessa altura do campeonato. Nem bêbada posso ficar para aguentar seus meio-sorrisos. Você não pode me ignorar para sempre, você não pode me punir por muito mais tempo. A verdade é que eu nem mereço esse tratamento e não é possível que você discorde disso, não é possível.)

15 outubro 2008

Entre cigarros, cafés e tulipas

Foi durante o último trago que eu comecei a dizer mil coisas. O que eu fazia, o que eu faria e que precisaria de companhia. Contei da piedade que eu merecia, mas que a vida fez do meu orgulho um guia e que agora eu já não sabia como amar.


Você sorriu, me beijou suave, desculpou-se pelo o mundo, tirou meu cabelo de trás da minha orelha e disse: “você merece um mundo de rosas” e deixou seu toco de carinho a queimar no cinzeiro. Eu acompanhei seu olhar até ele beirar a indiferença, foi então que escapuliu da minha boca um sonoro “não, porque eu me cansaria dos espinhos”.


Você levantou, foi ao balcão, pediu um café, voltou e pôs-se a mexê-lo. A me olhar e mexê-lo. O olhar foi ficando frio seguindo o ritmo de expresso curto. “Café gelado”, eu pensei. Você suspirou e disse: “Então, você merece um mundo de tulipas, não é?”. E eu, com o coração atingido, só consegui pensar que o que eu merecia era você. Mas eu lembrei de como isso te assustaria e me mantive calada com meu ‘sorriso de menina’, aquele de quando estou envergonhada e que você sempre elogia. Aquele que transparece o ‘eu te amo’ que não sai da minha boca e que você não está pronto para escutar.

É pra você mesmo

As dores pesam e a balança aponta nosso nada. Todo o sentimento ou qualquer outra coisa assim efêmera. O imaginado e/ou ocorrido carregado de uma jovialidade tenaz para, fatalmente, conhecer o silêncio e morar, humilde, no eterno esquecimento. É assim com você, mas me preocupo em querer esquecer-me de mim também para ir morar contigo onde nem eu mesma possa me encontrar. Por isso, não te esqueço agora, (L).

Um quase-romance

É estranho como a altivez daquele homem me envolveu (confesso que ele não chega a ser homem, mas a fantasia fica mais saborosa para quem lê se escrita desse modo). Tem um espírito desleixado que lhe acentelha um quê de submissão, ao mesmo tempo em que, com gestos finos, demonstra não se importar ás palavras alheias, responde quando é necessário e faz o que tem que ser feito, porque julga vulgaridades esses afazeres cotidianos. Transpassou, cedo demais, a dor e o amor (essa é uma característica minha, mas lhe cai bem ou é mais fácil para minh’alma vê-lo assim). A dor continua presente: nos contos de horror, no choro dos instrumentos musicais, nas sílabas de seu caderninho de anotações, nos seus silêncios prolongados, na mania de vasculhar com os olhos o seu redor e na ansiedade que lhe faz roer as unhas de tardinha. Já o amor está presente apenas no teu coração, esperando pacientemente o dia em que verá a luz do sol novamente (essa descrição é tão perfeita à imagem que faço dele que não consigo imaginar uma melhor).
Certa vez, em um desses dias em que vou de encontro à rua sem nenhuma ambição, eu o encontrei em meu caminho. Mantive-me em uma distância considerável, que desse espaço a ele para ser ele mesmo e que me desse liberdade suficiente para observá-lo (não sei se me viu, mesmo porquê tenho a estranha impressão de que ele, quando me vê, se esforça ao máximo para não chamar minha atenção, o que muito me preocupa, mas não é assunto para agora). Lembro que ventava forte, mas isso não o abalava, pois virado para o sol tragava seu cigarro mais e mais, dando a impressão de que aquele cigarro continha todo o conhecimento humano e o fazia refletir sobre Deus-sabe-o-quê. De noite, já com minha cabeça no travesseiro, pensei com os meu botões que não havia visto nem um meio sorriso no rosto dele. Então, meio cabisbaixa, me deixei sonhar com um passado distante, talvez de outra vida, em que, em tempos de guerra, eu dividia carinhosamente um líquido verde com o homem (esse era mesmo homem) que amava e este líquido nos fazia dormir para sempre. Desde então eu nunca mais acordei.

Cala-te e me ouve

Cala essa sua boca na minha que eu perdôo a sua hesitação, me pega pela cintura e me leva pela mão, me ajuda a concertar as coisas, me ajuda! Ameniza essa dor que eu carrego no meu peito, cura esse medo que eu tenho de amar. Tenta de novo, volta pra mim, para de peça, namora comigo. Acredita na minha vontade de te gerar felicidade ou ao menos perceba a minha precisão de você, porque ela é grande e sua ausência a aumenta.

Eu queria te ligar pra te contar do meu dia, mas não sei se você poderia me ouvir ou se iria querer me ouvir. Se nem um ‘não’ você consegue me dizer, me cortaria a alma falar com as paredes novamente. Eu te levo para todos os lugares, mas não sei se é em mim que você pensa de manhã.

Reclama novamente que eu não me abro pra ninguém. Mas prepara seus ouvidos porque agora eu estou pronta pra falar. Falar no que penso, por que penso demais? Eu te falo das pessoas que passaram por mim e no que elas me mudaram. Eu te conto o que eu espero do mundo, o que eu espero de você. Eu só peço por compreensão e eu prometo te acompanhar e aceitar seus defeitos e rir com vocês todas as vezes que eu não conseguir falar papibaquígrafo. Eu te prometo concordar com o seu ideal de fidelidade, eu só não aceito qualquer sentimento de posse. Porque eu posso estar com você, mas jamais ser sua. Nós podemos existir juntos e esse é o meu ideal de relacionamento.

Eu freio meus impulsos, você acelera suas vontades e a gente faz acontecer. A gente se molda. Eu te faço caber nos meus dias suicidas e você me olha severo quando eu for grossa demais. Viu? Não repete, olhando nos meus olhos, que acha que não vai dar certo. Três anos não são nada perto da vida que está por vir e eu bem sei que nós dois não estamos felizes. Certo mesmo vai ser quando estivermos juntos.

A história de Clarice

Clarice tinha então 18 anos, mas há muito tempo ela já não possuía a leveza presente nessa fase ambígua da vida. Porque a muito se sentia mulher e pensava, com freqüência, que os seus dezoito anos tratavam-se apenas de uma obra mal feita do destino.
O seu caráter era incorrompível, raras as suas mudanças de opinião. Por esse motivo todos evitam gerar discussões com ela e ela preferia assim. Contentava-se em deixar claras as suas convicções, mas de modo certeiro, com ares decidido e ninguém nunca duvidava de que “Clarice estava certa”. Assim sendo, nunca era vista em confusões e curiosamente, era bastante procurada frente às dúvidas alheias. Sempre fora, aparentemente, uma pessoa de muitos amigos, mas em seu coração existiam poucos, bem poucos. A esses destinava uma devoção sobre-humana, mesmo tentando esconder isso. Porque, graças a um profundo sentimento de vazio, Clarice achava mais saudável não depender de ninguém. Sonhava com uma felicidade solitária, pois os solitários eram mais interessantes.
Vê-se logo que tudo mudou, como tinha que ser. Não graças a nenhum vício - mal da geração, mas a uma coisa mais complicada, intocável e intragável. Clarice se apaixonara e não compreendia o que aquilo significaria na sua rotina. Desde sua fase niilista, tinha se esquecido de que isso existia. Porque depois do niilismo vieram os outros homens revoltados e aos dezoito, bom, aos dezoito adotava um mix de descrença que eu, sinceramente, não sei ao certo se há corrente filosófica ou não. Por conta disso não sabia demonstrar seus sentimentos e continuava pregando sua solidão como única forma de existência. Foi tão convincente que deixou escapulir entre os seus dedos o seu objeto de admiração, pois de tanto medo ele fugiu para outra e a deixou com os seus livros hereges.
Hoje ela se diz agnóstica, não esconde mais suas afeições, apesar de continuar só. Hoje ela usa decotes, fuma Malboro dourado, embriaga-se com intenções vulgares e bebidas baratas. Para você ver como se enganar pode mudar uma quase-mulher.

Parei Pai

Eu parei de fumar pai. Eu também não gostava de cigarros antes de começar. Não é porque o mundo me faz mal que eu tenho que me fazer mal também. Você não percebeu quando eu comecei então não me venha falar sobre decepções. Concerto as coisas pelas beiradas, mas não é por você ou por mais ninguém. As bocas que não me beijam me pedem silêncio, me pedem compaixão, me puxam pela razão. Eu que nunca me meto na vida de ninguém. Os romances do século passado me viciaram novamente. Os meus nunca me renderam bons frutos e eu não sei por onde procurar calmaria a não ser no quentinho da minha cama. Já não sei como podem me encontrar se nem eu mesma sei por onde ando. Resta a dúvida se alguém me conhece de fato.

Eu parei de sonhar pai. Todos os lugares em que eu te via ao meu lado já não me apetecem. Não é por sua causa, mas é porque eu não quero estar em lugar nenhum. Eu não posso te culpar, eu sei da sua inocência. Mas tudo é tão difícil e vai saber quando esse vazio tomou conta de mim. Vai saber das possibilidades de cura, porque eu só me preencho com silêncios.

Eu parei de tentar pai. Não agüento mais engolir em seco os meus pesadelos repassados todos os dias no café da manhã, ouvir as vozes que passeiam pelo seu lar ou encarar as esculturas que fizeram dele o que não conheço mais. Parei de te chamar de meu, assim como parei de enxergá-lo como abrigo. Você é mais comum do que eu pensava. Eu que acreditava que a divindade era uma capa que poderia ser vestida quando a merecessem. Agora eu não posso mais ser Deus e podem me chamar de louca, porque não sou feliz.

Não há saída

Entre a prisão e o abismo, eu escolho a morte. Eu escolho os vícios da minha cidade natal. Eu escolho correr para longe disso tudo. Ninguém sabe o que se passa na minha cabeça. Cansei de sofrer pela a decadência alheia, pois que venha a minha.

“Eu não vou me trancafiar com as lágrimas e a poeira da nossa casa. Eu quero o mundo, eu quero esquecer que existo desse jeito que você me criou. Entre você e viver a festa, eu fico com a festa. Você fica sem mim e sua solidão vai te matar de tédio. Assim como eu, você é tão só que chega amarga as poesias de Andrade, com seu jeito simplório de levar a vida sem se questionar sobre o futuro do mundo e sobre o meu futuro. Você não sabe qual a diferença entre niilismo e existencialismo. Você não sabe a diferença do meu sorriso-segredo e do meu sorriso-recompensa. Você não liga à mínima e você não muda por ninguém. Desde sempre sua promessa era a de que o mundo ia melhorar para com a gente. No entanto, é você que sempre me afasta de tudo o que me faz bem. É o espinho mais encravado, porque só traz desilusão e me vicia com seu jeito de adiar os problemas. Você nunca me disse a verdade sobre o mundo e hoje quer me prender para que eu não vire uma segunda você. Não dá mais. Eu quero sofrer por minhas próprias cicatrizes, eu quero as minhas overdoses, as minhas desventuras, eu quero ser eu e ter o que contar. Me deixa ser alguém!”

14 outubro 2008

Bonito Ser

Bonito é quando se encontra um ser tão singular, que ele consegue ser igual a você sem perder a particularidade que faz dele real. Bonito é quando essa igualdade não é vulgar ou forçada. Só então se pode chamá-lo de amigo e classificação melhor do que essa não há. Pelo menos não no meu mundo.

Bonito é quando esse ser consegue te criticar com respeito, que é de direito de qualquer relação humana. Bonito é esse ser te apoiar em frente aos outros, te levar pela mão, te aconselhar com frases colhidas no mais singelo jardim. Bonito é quando esse ser te faz rir, da melhor piada ou das conveniências da vida. Bonito é esse ser aceitar entrar na sua vida sem fazer muitas perguntas, pois ele sabe que quando as intenções são honestas, o passado sempre vira assunto de mesa de bar.

Bonito é existir tais seres e eles te chamarem de amigo. Pena que sejam, quase sempre, mulheres. Porque caso não fossem, essa seria a declaração para o amor da minha vida. Mas essa é a declaração para o mais novo ser que me dá vontade de ser mais Dandara. Bonito é quando um ser de cabelos vermelhos entra na nossa vida (para ficar).

Bonito é quando estou ao seu lado, porque nesses momentos eu sonho e os sonhos fazem questão de nos sonhar.

Amiga, te amo.

09 outubro 2008

Para o Sr. Excêntrico

Parece uma sombra que escolhe as horas mais inoportunas para me enlouquecer. Provavelmente não é obra de Deus o fato de você aparecer enquanto estou com o desespero à espreita. Sempre calado, você chama a minha atenção e eu esqueço do meu orgulho para desperdiçar silêncios ao seu lado.

Uma vez elogiei Bovary para te chamar a atenção, mas hoje confesso que não gosto desse clássico não. Também não gosto de Poe e não sei absolutamente nada sobre a revolução da República Dominicana. No entanto, sou agnóstica como o seu (e o meu) querido Érico Veríssimo. Gosto muito de Camus, mas prefiro “O Homem Revoltado” ao “O Estrangeiro”. Se me dissesse que gosta de Nietzsche, eu te convidaria para ser clichê ao meu lado. Mas se dissesse que gosta de Sade, eu te pediria em casamento, no mesmo dia!

Faria tudo por você. Só não procuraria por Luizas, não ouviria discos inteiros de tango eletrônico e não assistiria filmes cuja fotografia se baseasse na escuridão. Eu gosto de músicas que tenham uma boa letra, pois as dançantes só são aceitáveis em momentos alcoolizados. Eu gosto de filmes que se preocupem com o roteiro, para que eu saia do cinema repassando diálogos inteiros na minha cabeça. Eu gosto muito de conversar sobre os filmes que já vi, assim como os livros que li, as exposições que visitei e os shows que me deixaram rouca.

Eu te vi na exposição do Fernando Sabino, no show do Rock Rocket, no show do Gotan Project, no ônibus lendo Camus, passeando pela minha quadra e refletindo em uma escada imunda. Eu já assisti a alguns filmes seus e sempre vejo você chegar aos bares do quadrilátero. Uma vez te vi desenhando, não sei o quê e sempre te via com cadernos amarelados em que escrevia frases curtinhas, talvez pensamentos. Nossos maços de cigarro se esvaziavam, assim como as minhas intenções. Enquanto isso você olhava para o nada na janela paralela à minha. Somente hoje percebi o tempo que você me tomou. Eu te confundi com o amor da minha vida e as pessoas reais se foram enquanto meu medo de você parecia uma feliz aventura.

Isso de apoiar à homossexualidade ainda vai nos levar além, mas me dói à alma eu ser tão paleozóica, enquanto você defende a poligamia com seus amigos que só vestem preto. Eu continuo gostando de homens e a dúvida disso ser nossa principal coincidência me assombrou por noites demais. Não agüento mais o martírio de levar essa anedota a sério. As páginas que gastei contigo podem ser rasgadas como os estabilizadores podem ser desligados, aprenda a usar botões. Olhe ao seu redor e aprenda a ser feliz. Mas não olhe para mim, porque eu cansei de tentar ser triste como você.

“(...) Vous filez lê parfait amour. Tant mieux, mon cher, tant mieux.”

07 outubro 2008

Nosso pacto.

Eu senti seu sorriso queimando minha face esperançosa. Rimos juntos da mesma piada, que mais parecia uma ironia. Se soubessem... Você corou. Eu virei o rosto. Ninguém percebeu o nosso silencioso pacto de concordância. Mas ele não sai da minha mémoria. Os beijos, os toques, os olhares envergonhados e/ou arrependidos. Reparei em cada passo, mas eu me entreguei de volta a minha rotina e vai saber por onde você anda. Assume logo que tem andado pelos caminhos errados. Que eu te mostro como chegar aos tijolos amarelos.

Hoje é Terça-Feira, o céu borrou a cor.

Eu me vicio. Eu me esqueço. Eu me perco. Imagino a quantidade de coisas que acontecem sem que eu perceba. Elas não acontecem nem dentro e nem fora de mim. Porque eu não sei acontecer.

O que vêem em mim, é o que sou ou o que quero ser? Alguém, por acaso, é e quer ser o que é ao mesmo tempo? Que venham os devaneios. Reparo nos sons que o silêncio faz. Leio livros pela metade que continuam empilhados na cabeceira da minha cama. Enquanto isso o tempo passa por minhas pupilas dilatadas. Cigarros queimam. Amores acabam. Velinhos se beijam. Meu pai bebe muito café.

Eu fecho meus olhos e quando os abro já não lembro mais no que eu pensava. Eu escrevo sobre o nada porque não consigo guardar coisas significativas na minha memória. Eu perco pessoas porque não consigo guardar coisas significativas na minha vida.

Você ia e voltava e eu não me lembro de ter tido coragem pra te pedir pra ficar. O engraçado é que eu sempre te guardei na minha memória, mas não encontrava um espaço para você no meu coração e também não encontrava palavras para demonstrar como eu gostava de te ter por perto. Desculpe, mas eu só sei usar as palavras quando sinto cheiro de papel e ouço o ranger de canetas azuis (sim, elas têm que ser azuis). Guardanapos, extratos bancários e cadernos antigos estão cheios de declarações que fiz pensando na sua última tentativa. Eu te perdi pro acaso.
Meus cigarros queimam e minhas pupilas dilatam, minhas pernas tremem e meu ego dói. Você se foi.

Reze enquanto choras.

Você fecha seus olhos e reza. Reza como se o mundo fosse acabar amanhã. Você não sabe se Deus existe, mas ainda assim você reza. Como sua avó te ensinou antes de “deus” a levar.

Pede para que esse não seja um daqueles pesadelos que duram a noite toda, porque a noite, ah, a noite é tão longa e há tantas coisas com as quais você pode sonhar. Você também pede para que suas forças não acabem e que você encontre um caminho. Uma estrada longa com árvores na beira da calçada e aquelas contínuas listras amarelas que levam nossos olhos sempre à frente, até o horizonte e esse horizonte te convida a alcançá-lo. Você pede por uma nova moradia, que seja clara e sempre limpa. Tão organizada como seus pensamentos deveriam ser. Você pede para que esses pensamentos não te abandonem e que eles sejam sempre sensatos, tanto na escuridão como no mais iluminado raiar do sol. Você tem fé de que seus pensamentos a livrarão de todo o mal e que você nunca estará sozinha enquanto conseguir pensar. Você pede para que nunca fuja e nunca utilize recursos errados. Mas pede também que esses recursos existam, à espreita da sua sanidade. Pede por coragem, coragem para utilizar esses recursos quando tiver certeza que suas preces não serão atendidas. De que esse pesadelo é eterno. Que não existe uma estrada e nem um horizonte convidativo. Que você nunca vai conseguir sair daqui e seus pensamentos vão sempre querer te abandonar e que Deus é apenas uma boa e antiga piada.

Então, você se vê sozinha, rezando para o nada, chorando e cuspindo palavras que ninguém nunca vai querer ler. Pode se sentir uma tola. Uma tola que tem muitos recursos e pouca coragem.

Coroada, rainha de mim.

Finalmente percebi que não se pode levar a vida baseando-se no que as pessoas querem de você. Eu posso dizer coisas lindas, do jeito como você quer ouvir. Eu posso sorrir mais, seguir os parâmetros da publicidade e ser engraçada como qualquer outra jovem de classe média. Mas não sei se devo. Durante tempo demais desempenhei o papel que me atribuíram. Não reclamo, eu cresci com ele. Mas hoje quero ser eu mesma.

Eu não gosto de acordar ouvindo música clássica. Coloca um Chico que eu te dou “bom dia” e cala essa outra boca que só traz discórdia. Eu não gosto de café com adoçante e eu não gosto de ter que ouvir como foram seus sonhos. Eu não gosto de você me dizendo o que tenho que fazer. Eu não gosto da forma como você me trata na frente dos outros, tão diferente do nosso verdadeiro convívio. Eu não gosto mais de te agradar. Sinto muito.

Mas eu gosto tanto de você. Do jeito que você é (ou era). Não entendo porque não pode haver retórica. Não entendo o porquê de você conseguir destinar seu afeto a um único ser humano e punir os outros pelos males que o mundo possui e punir a mim. Não entendo quando você escolhe palavras e faz gentilezas que me ofendem de tão dispensáveis. Enquanto para comigo vai tudo assim, como uma obrigação. Não entendo essa personalidade que você criou que não te serve e não te dignifica. Não entendo como um herói perde seus poderes tão rapidamente. Não entendo como sobrevivo a sua queda.

Mas eu sobrevivo e você mal sente. O tempo vai passar e um dia você vai me ver tão velha, tão longe das suas expectativas iniciais e isso vai te doer tanto que você vai se punir pelo tempo que perdeu querendo me mudar e pelo tempo que perdeu se mudando para os outros.

24 setembro 2008

O Pássaro.

Existia um pássaro que pensava que sabia voar. Ele não se lembrava de qual tinha sido a última vez em que suas asas desafiaram o sol. Há muito tempo que ele não batia as asas e já nem sabia se elas eram verdes com azul ou azuis com verde. Não havia espaço para abri-las dentro da gaiola. Ainda assim, gostava de contar sobre as vezes que se perdeu em imensidões de azul, dizia que a volta para o norte era melhor do que a ida para o sul e também que as nuvens não eram de algodão, mas eram ainda mais gostosas do que sorvete de frutas.

Era um pássaro muito vivido.

Um dia percebeu que já não podia suportar sua gaiola. Que gostava mais de dias claros do que de chaves de compromisso. Resolveu largar as chaves para encontrar todos os dias claros de diferentes lugares do mundo. Então, enquanto tentava fugir de sua gaiola, morreu sufocado em uma fenda que parecia maior do que de fato era.

A gaiola foi queimada, mas as chaves ainda existem, assim como os dias claros.

23 setembro 2008

Duas páginas e meia.

Ela se arrumou. Escolheu a roupa com horas de antecedência, combinou a lingerie, passou creme de rosas, secou o cabelo, penteou a sobrancelha, se maquiou sem frescura. Ganhou a rua com o passo incerto, cambaleando entre o que pensava e como iria dizer. Sabia que esse era o dia para abrir o coração só não sabia se teria coragem, ousadia.

A chance de encontrá-lo era maior do que a chance de se magoar. A chance de ser feliz a possuía como nunca antes. Andava cansada. Cansada de escrever sobre fracassos, cansada de fechar portas, janelas, desligar telefones e trancafiar seus próprios sonhos.

Passou a tarde ensaiando seu discurso. O espelho até o decorou. Ele que por tantas vezes a viu enxugar as próprias lágrimas, a pentear os cabelos sem expressão, a passar cremes caros na pele perfeita. Ele que se perguntado, responderia: “Não, não existe ninguém mais bonita do que você. Nem nesse e nem em nenhum outro reino”.

É fácil conquistar o afeto de um espelho que só sabe enxergar a ela. Difícil é reconquistar o afeto de quem já se foi. De homem-orgulho, de homem-incerteza, de homem-segredo. No entanto ela foi pra rua depositando sua sorte e sua saúde no poder que a nostalgia tem. “Os velhos tempos podem voltar e podem ser melhor do que esse tempo de agora”, ela diria.

Chegada à hora. Lá estava ele, escondido entre outros que a cumprimentaram primeiro. Chegada a sua vez, não houve magia. Tocaram-se. Afastaram-se. Ninguém notou. Estavam vazios de palavras, mas cheios de intenção. Quando os goles compridos em copos de desespero desfizeram por completo a mulher que ela pensava ser, quis ir embora. Sua coragem se esvaiu. Aproveitou a primeira carona e fugiu. Sem despedidas e sem declarações. Sem sapatos, sem refúgios, sem meias-palavras em sua memória. Abriu as portas, as janelas, as lamentações e desperdiçou essas páginas que aqui se encontram. Entre lágrimas derramadas e copos de vinho tinto.

( Amanhã é um novo dia para essa mesma conquista )

21 setembro 2008

Matadouro.

Ela sonhou com um matadouro. Abatiam homens como se fossem galinhas. Arrancavam seus cabelos, seus órgãos genitais e suas orelhas. Deixavam o suficiente para que se pudesse perceber o desespero que pairava pelo ar. Dois olhos arregalados e uma língua murcha dentro de uma cela pequena a chamaram a atenção. Aquele seria o próximo.


Ele foi o ultimo a estar dentro dela, mas não quis permanecer. Agora, perdia a sua dignidade com as mãos castas e os sussurros lentos pedindo por socorro. Uma pontada de orgulho a assombrou o rosto e despertou seu mais maquiavélico sorriso. Queria ela que ele sofresse assim por toda a eternidade.


Mas antes mesmo de o orgulho excita-la, de seu peito crescer e se endurecer, um pescoço foi quebrado. Pronto, menos um.

19 setembro 2008

“My Blueberry Nights”



I always had the feeling I could say anything to you. Enclosed is a bill I’ve created for you in memory of our time together. I wonder how you remember me. As the girl who liked blueberry pies or the girl with the broken hearth?

16 setembro 2008

Julho 2009.


- Eu fico mais um tempo, eu te espero sim.

14 setembro 2008

A chuva era uma promessa.
-Vai sair?, ela quis saber.
-Vou.
-Vai chover...
O interesse cabia dentro de um papel de bala.
-Quer fazer amor?
Pareceu um filme rodando ao contrário. Ele, que se vestia para sair, parou e foi tirando a roupa recém-colocada.
-Quero.
Ela chorou todo o tempo. Gozou chorando. Ele nunca imaginou que fazer silêncio pudesse doer tanto. A porta da rua, essa foi ficando cada vez mais longe.

13 setembro 2008

Apelo.

Diz que você vai voltar e que foi um engano. Que o corpo dela não se encaixa ao seu. Que existe um desafino. Diz que minha fineza te assusta, porque eu sou capaz de gritar pros quatros ventos que te quero de volta. Só não diz que foi culpa minha.

Porque se disser que a culpa foi minha, eu perguntarei: - e essa é sua desculpa? - Eu não sei em qual parte do mundo o que você fez seria correto. Qual santo vai brigar por você? Eu larguei mão do meu orgulho para esperar por um motivo. Para te levar pela mão, como se o mundo fosse um lugar bonito. Mas ele agora me enoja.

Há pouco mais de duas horas vomitei as impressões que sinto desse mundo. Desse mundo em que eu não te tenho. E agora estou vomitando seu beijo, mas a lembrança não sai de mim. E nem a saudade.

06 setembro 2008

Reflexos da inocência.

“Quando eu era jovem eu pedia por coragem para viajar por todos os lugares do mundo. Depois eu percebi que para continuar em um só lugar que é necessário uma coragem sobre-humana.”

02 setembro 2008

As amargas, não - Avaro Moreyra.

“A graça da vida é não saber. Fica sereno quem arruma, com os entes e as coisas, o seu museu de encantamentos. Sem fichas. Nunca que eu quis explicações sobre o que estou sentindo. Vejo os meus sonhos. Ouço as minhas músicas. Ando pelos meus jardins. Dou a minha gulodice o prazer que ela me proporciona.
Estas mãos, tantas vezes pousadas em livros, em flores, em outros alimentos terrestres, continuam mãos abertas a todas as surpresas. Um dia, na praia, o cavalheiro erudito, indo até lá, como disse: ‘para sorver o ar isolado’, porque me encontrou adorando a cor do céu, logo se manifestou: - ‘Sabe por que é azul a cor do céu?’ - Confessei humilde: - ‘Não. E não me conte, pelo amor de Deus’”.

31 agosto 2008

As Intermitências da Morte - Saramago

“A Morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.”

28 agosto 2008

Nós.

- O bom de nós é isso. Passam-se anos e lugares por nós dois, mas sempre fica aquela coisa, que cresce e que me faz pensar que poderia ter sido muito diferente.

26 agosto 2008

Perdas.

Podíamos ter sido o mundo um do outro. Mas foram tantas desavenças e desconfianças, os meus segredos, os seus acessos, o nosso pudor. Não nos demos a devida importância e agora perdemos o brilho.

Eu sei que você está tentando criar um rumo longe de mim. Admiro sua coragem. Só para constar: - eu continuo estática e com o coração desbotado. Não canto, não declamo e não choro mais. Não me arranho com os cacos de outrora, os cacos de mim que arranham meus dias. Não sonho mais e os sonhos não me sonham. Perdi meu prumo, meu rumo e você. Perdi todo o resto, rápido e intenso como um efeito colateral.

25 agosto 2008

Saudade.

Saudade não é palavra paterna
É ambidestra porque machuca nos dois lados do
coração.
Triste é você sentir saudades antes da hora
É imaginar a
perda.
No vazio existe algo.
Saudade ocupa todo o espaço.


-Ora pai, o que afinal de contas aconteceu com nós dois? Além de dezoito longos anos de luta e pouca glória. O que fez com que você deixasse de ser esse homem da poesia para passar a ser o motivo principal de minhas noites mal-dormidas?

23 agosto 2008

Vai saber.

Falta afago para o lado de cá e sobra para o lado de lá. É um destratar gratuito-dispensável. Mas vai saber os motivos que levaram o homem a andar sobre duas patas ou dar o cu. Vai saber.

Besteira foi pensar que a facilidade me encontraria desde que eu não estivesse sozinha. Pois a solidão me encontrou e a facilidade largou mão de mim. Estou só em meio a tudo isso que fingimos ser saudável.

18 agosto 2008

PEDRA.

“Você não se abre”, “não fala sobre si”, “não deixa as pessoas se aproximarem”, “mete medo”. Será mesmo? Só porque não grito aos quatro ventos o pesar que estou sentindo, porque não aviso para ninguém sobre os meus dias suicidas e porque ofereço ajuda em vez de pedir por ela. E eu que pensava que o nome disso era altruísmo. Altruísmo uma porra!

09 agosto 2008

Eles não me disseram nada. Calaram-se com o silêncio que mata o dia e esconde o sol. Enquanto isso você ria de mim. Com sua vingança arrancou a esperança pueril que havia em meu coração. Fez de mim mais pedra e menos coração.

Se tivesse paciência, “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

Fecha-se mais um ciclo, sem que eu conheça o motivo dos humanos e quais são os seus segredos.

07 agosto 2008

Tudo que eu queria.

Queria eu ter baseado minha vida em sexo. Por onde transei, com quem transei e os 17 segundos de transe. Ainda dá tempo? Se os meus passos não são escolhidos por mim e o acaso me leva cada vez mais para longe da prosperidade. Ainda dá tempo?


Queria eu ter me viciado mais cedo em todas as coisas que garotas não fazem. Ter fugido das regras, ter desvendado florestas e camas e lençóis e corpos, principalmente o meu.


Queria eu ter desvendado meu corpo, seus equívocos, seus sabores, seus acessos, seus delírios e suas faltas. Queria eu que você descobrisse os meus medos, mas foi por altruísmo que eu me calei e te espantei com os meus sarcasmos de fuga. Mas eu queria também que você fosse mais homem, para apalpar, encarar, vencer meus silêncios. Ah, se soubéssemos falar de amor.
Queria eu ter descoberto o amor e o depois dele.

06 agosto 2008

I’ll be your mirror reflect what you are, in case you don’t know.
I’ll be the wind, the rain and the sunset. The light on your door to show that you’re home. When you think the night has seen your mind that inside you’re twisted and unkind. Let me stand to show that you are blind.
Please, put down your hand ‘cause I see you. I find it hard to belive you don’t know the beauty that you are. But you don’t let me be your eyes, a hand in your darkness, so you won’t be afraid. I’ll be your mirror.

24 julho 2008

Medos e afins.

Talvez, de todos os medos, o que eu sinto agora seja o mais cruel. Medo de ser feliz. Para quem nunca teve, ter é como um crime. É como romper um juramento de vida ou morte. Eu queria gritar pro mundo inteiro que eu estou com medo, pra ver se você me diz o que eu quero ouvir, se você me pega no colo e murmura um poema ou um samba sobre amor, se você me olha e suspira com os olhos. Quem sabe assim o medo e o juramento somem. E então, eu poderei encontrar a existência dentro da felicidade.

19 julho 2008

- Você quer namorar comigo?


“A verdadeira posse é o beijo na boca, e repito: - é o beijo na boca que faz do casal o ser único, definitivo. Tudo mais é tão secundário, tão frágil, tão irreal.”

- Nelson Rodrigues.

06 julho 2008

Amélie.

- Sabe a garota do copo d’água?
- Sei.
- Se parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não. Um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente a criar laços com os que estão presentes?
- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça na vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?
- Bom, melhor cuidar dos outros do que de um anão de jardim.

02 julho 2008

- Eu não sei o que você quer de mim.
- Está tão difícil assim de perceber?
- Um dia você quer uma coisa, no outro dia quer outra. Eu cansei de brincar. Tenho 18 anos agora, eu não tenho mais 15 anos. Nós não temos mais 15 anos.

01 julho 2008

Horizonte Distante.

É onde eu gostaria de estar, bebendo vinho e montando um ninho com os amores que por lá deixei. Nem sei ao certo se ainda lembram de mim, porque se calaram com uma mudez sincera que o tempo e a distância trataram de criar. Se, um dia, eu voltar, prometo reconquista-los, um a um, e mais alguns. Para poder reclamar de barriga cheia novamente.

17 junho 2008

Eu não sei se o que estou fazendo é um ato de coragem ou extrema covardia. Nessa nossa relação prejudicada, eu não sei nem ao menos quando começou a dor de te ver e saber que não é mais meu. Eu acreditava que precisava me livrar desta dor antes que ela livrasse a minha vida do meu convívio. Sem saber que me livrando de você o seu descaso aumentaria a minha dor infinitas vezes. Já não sei o que fazer, pois agora é óbvio que não consigo arrancar-te do meu coração. Já não sei como ser, pois me dói até a ínfima parte da alma. Essa flechada que é a ausência de um “nós dois”. Não deverias mesmo ter imposto sua presença se a arrancaria logo depois, como doce na mão de criança. Eu tinha o meu canto e por você abri mão dele. Agora não pertenço a nada e a lugar nenhum. E você não quer mais me pertencer.

08 junho 2008

Diálogo.

- O problema é que você achava que eu era perfeito e agora está descobrindo que não sou.
- O problema é que eu sei que você é bem melhor do que você pensa que é.

22 maio 2008

A consulta.

- Bom dia.
- Bom dia, o que traz a senhorita aqui?
- Ai doutor, eu estou sentindo dores fortes, bem fortes mesmo. E não entendo o porquê.
- Você tem antecedentes na família?
- Criminais? Ah! Acho que meus pais foram presos e torturados durante a ditadura, sabe, eles eram comunistas, o que é engraçado frente à posição alienada que ocupo no mundo. E hm... acho que tenho um tio que foi preso por porte de maconha. Maconha não dá dor, dá?
- Não, a senhorita entendeu tudo errado, quando digo ‘antecedentes’, me refiro ao coração e claro que maconha não dá dor, mas que idéia.
- Ai, que alívio... Antecedentes de coração? O Sr. Quer dizer as dores?
- Sim, dores, desconforto...
- Bom, minha mãe andou com dores cruéis, até outro dia...
- E é o único caso?
- Da minha mãe sim, foi a primeira vez que sentiu dor no coração. Teve dor também com meu pai, mas foi dor de ego, acho que você não é médico disso, né? É que o ego não está relacionado com coração. Bom, pelo menos não deveria não... E o meu pai também teve dores, acabou um relacionamento de sete anos e daí nós fomos ao show da Maria Rita e ele chorou pra valer quando ela cantou “Muito Pouco”, bem encostado assim no meu ombro. Foi lindo! Faz tempo que ele não faz isso, encostar no meu ombro. É que o coração dele está muito bem agora e não sobra muito tempo para me oferecer afeto. Acho que isso gera desconforto no meu coração e...
- Oh minha filha, não é nada disso! Eu quero saber se há alguém na sua família que tenha falta de ar, dores no peito, se alguém teve um AVC...
- AVC?!
- Enfarto.
- Meus avós por parte de mãe, os dois tiveram enfarto. Tristeza que só, pois eles tinham um coração bem vivido e se amaram por demais. O coração não poderia mesmo agüentar mais anos de tanta felicidade. É a única explicação.
- Sei... E você sente algum desses sintomas que eu descrevi?
- Não, falta de ar eu sentia quando criança. Era sopro. Sopro no coração, engraçado esse nome, né? Hoje deve ter só um assobio de nada.
- Vamos ver, sente-se aqui, respire profundo e diga trinta e três.
- Trinta e três? Por que não trinta e quatro ou vinte e quatro?
- Diga apenas trinta e três, por favor!
- Trinta e três... Trinta e três... Trinta e três... Trinta e três... Trinta e três... Trinta e três...
- Pronto, está bem assim. Você não tem nada, está tudo perfeito.
- Nem um assobio?
- Nem um assobio, muito menos um sopro.
- Mas e as dores doutor?
- Receio que essas dores não sejam especificamente de coração. A senhorita está muito bem e nossa consulta está terminada. Pode chamar por Caio Teixeira ao sair da sala? Ele é o próximo, por favor.
- Mas não é possível, eu sinto tanta dor e o Sr. não vai fazer nada?
- Sugiro que você comece por arranjar um bom amor para você, pois quando acabar, aí sim você vai ver o que é dor de verdade.
- O senhor não entende. Eu não consigo amar, acho que não aprendi isso não. O meu pai está se afastando de mim cada dia mais. Meus amigos moram bem longe e eu não consigo fazer novos amigos nessa cidade aqui. Não há ninguém que possa me ouvir. Até minha mãe, companheira de todas as horas, fica com os olhos transbordando quando conto do meu pesar. Eu tô com tanto medo.
- A senhorita que não entende! Eu tenho cinqüenta e quatro anos e não conheci meus pais. Casei-me três vezes e me separei de todas as minhas mulheres. Ninguém permanece do meu lado. Meus filhos adultos estão perdidos pelo mundo. Meus filhos mais novos não sabem meu nome e eu sou obrigado judicialmente a me manter afastado deles por pelo menos cinco metros, enquanto cinqüenta por cento do meu salário vai para a conta da puta da mãe deles. Eu sempre pego plantões nos finais de semana para não me achar sozinho em casa, bebendo vinho tinto de noite e vinho branco de manhã. Para não dormir a tarde toda e sem sonhar, pois faz anos que não tenho um sonho se quer, nem mesmo pesadelo. Eu sinto dores, você sente cócegas!
- Pois então, o Sr. não conhece uma cura para os nossos corações? Você é médico, você deveria saber...
- Eu sou médico porque isso dá dinheiro, não é médico que pode nos curar não. Se médico cuidasse desse tipo de dor eu seria mais rico ainda. Agora, por favor, chame o Sr. Caio Teixeira e boa sorte, sim?
- Ah, obrigada. Para você também.

21 maio 2008

Platonismo.

Eu não sei qual é a tua fúria, mas posso senti-la até a minha medula. Você está certo em ter medo de gente, o fantasma do silêncio não oferece perigo algum e já foi, por muitas vezes, meu melhor companheiro.
Eu te admiro tanto, cada fragmento desconhecido ou escancarado. Por ser insensato, eu te inspeciono e me preocupo, com suas olheiras, seus devaneios, sua cabeça baixa e sua falta de rumo. É um rumo tortuoso que não te traz para perto de mim. Aposto que sou uma droga bem mais forte, mas não tenho como te oferecer e tão logo te viciar, porque posso perder o fio da meada que faz desse sonho tão bom de sonhar.

O diário de Mistress Joan Martyn.

“A madrugada, mesmo quando há melancolia e faz frio, nunca deixou de me varar pelos membros, como se me atirasse flechas de um gelo penetrante e rútilo. Descerro as grossas cortinas e busco o primeiro brilho do céu, que mostra que a vida está a irromper. Rosto colado na vidraça, gosto de imaginar que me comprimo o quanto posso contra a muralha espessa do tempo, que sempre se alteia e estira para permitir que outros espaços da vida venham de encontro a nós. Que a mim pois seja dado saborear o momento, antes que ele se propague pelo restante do mundo! Que eu saboreie o que existe de mais viçoso e mais novo [...] E que assim possa eu, eu que tenho o presente por dádiva, dar-lhe uso e desfruta-lo: isso é parte, confesso, da minha prece matinal.”
V. Woolf, O diário de Mistress Joan Martyn.

20 maio 2008

Dói.

A felicidade que dói. Essa que existe, mas não é sua. Que poderia ser sua, mas causa medo. Reconfortam-me as saudades e as lamentações. Em meio a problemas, tudo é fácil. Não há perigo. Eles acostumam-se aos seus vícios e o meu vício é criar novos problemas. Sentados ao meu lado na mesa de jantar, os únicos que não me deixam sozinha, não me engrandecem e nem me diminuem. Fazem de mim o que já conheço.

Eu perderia a todos com a chegada da felicidade. Maldita. Encarrega-se de criar intrigas nos caminhos profundos do meu coração.

Tenho medo. Morro de medo. Debato-me de medo. E agora, janto só. Porque hoje, passei o dia a pensar em você. Felicidade que não é minha, mas poderia ser. Felicidade que me derruba os vícios, saudades e lamentações.

19 maio 2008

O grande ditador.


Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar, se possível, judeus, os gentios, negros, brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Desejamos viver para a felicidade do próximo, não para seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos.
A terra, que é boa e rica, pode provar a todos as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina que produz abundancia, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos cépticos; nossa inteligência, empedernidos. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais que de maquinas, precisamos de humanidade. Mais que de inteligência, de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo será perdido. A aviação e o radio aproximaram-nos muito mais. A natureza dessas coisas é um apelo a bondade do homem, um apelo a fraternidade universal.
Neste mesmo instante, minha voz chega a milhares de pessoas, milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.
Aos que me podem ouvir eu digo: não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nos é o produto da cobiça em agonia, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram retornara ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca parecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais que vos desprezam, que vis escravizam, que ditam os vossos atos, vossas idéias, vossos sentimentos! Que vos tratam como gado humano e vos utilizam como bucha de canhão. Não vos entregueis a esses desnaturados. Estes homens com mentes e almas de maquinas. Não sois maquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar...
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! Em São Lucas está escrito: “O reino de Deus está dentro do homem.” Não de um só homem, mas de todos os homens!
Vós, o povo, tendes o poder, o poder de criar máquinas, de criar felicidade! Tendes o poder de criar essa vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto, em nome da democracia, usemos desse poder, unano-mos todos nós. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que a todos assegure o ensejo do trabalho, que dê futuro a mocidade e segurança a velhice. É pela promessa de tais coisas que desalmados tem subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Os ditadores liberam-se, mas escravizam o povo. Lutemos todos para cumprir essas promessas. Lutemos para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim a ganância, ao ódio e a prepotência. Lutemos por um mundo de razão, em que a ciência e o progresso conduzem a ventura de todos nós. Soldados! Em nome da democracia, unano-mos!


Chaplin em “O grande ditador”.

Silêncio.

O meu melhor são minhas ausências. Não o nego e nem o abomino. São minhas ausências que me fazem humana. Sem elas, não seria e não poderia ser.

Só ultrapasso a divindade quando encontro fragmentos teus. Você que grifou este trecho que leio agora. Você, que grifa os trechos reconhecíveis pelo seu coração. Coração que se ausenta e faz de você tão humano quanto eu. Se eu te levar a divindade, poderei retribuir a divindade que me proporciona a cada breve olhar. É uma nova meta, estava a precisar de uma. Escolhi você.
Não hei de procurar sua atenção. Sei que não vou encontrá-la. Você mora no silêncio e é no silêncio que vou te buscar. Sei o que te falta, sei que não o procura. Sinto que você é inatingível. Gigante. Empedernido.

Percebe porque me escondo? O seu pesar me magoa sem que eu ao menos tenha conhecimento do abismo que ele cria. O amor e o seu inferno.

Dizem que grifamos nos livros o que não conseguimos expressar por nós mesmos. Se assim é, você sofre. Então, alguém mais sofre além de mim e o sofrimento nos envolve.Contento-me com mais essa descoberta. Eu, que de ti tudo sei e você, que nem ao menos me repara. Nós podemos atingir a divindade juntos, mas você ainda não o quer e eu não consigo sem você. Minha meta continua. Mas o caminho continua sendo o silêncio.

12 maio 2008

Calminha.

Não tenho pressa, mas bem que esse futuro poderia se agilizar. Quem não tem presente se contenta, somente, com o futuro. É tudo o que eu tenho e que, pelo menos por enquanto, eu não pretendo abdicar. Já abdiquei demais, dos sonhos, das dores, dos amores.

Mas está tudo bem, não sou a primeira e não serei a última a ter de correr atrás das coisas que não são oferecidas em uma bandeja. Conheço o caso de um moço, bem moço mesmo, que abriria mão do sol e da lua para recuperar um amor que não o pertence mais, que não quer mais o pertencer. E do caso de uma garota que tatua no coração as inicias de seus amores fugidios, pois tudo na vida dessa garota é ligeiro e com um tempo (pré-determinado) bem curto.Engraçado como a vida dos outros é sempre tão vívida. Eu me contento com o futuro, enquanto ele não chega, meto a cara contra o muro (do meu quarto).


“Eu digo calma alma minha, calminha, você tem muito que aprender.”

11 maio 2008

I am Love.

Look, the place that cradled me is burning, I am alone. I bring the sorrow to those who love me. It was during this sorrow that love came to me. A voice filled with harmony. It said: “Live still”. I am life. Heaven is in your eyes. It’s everything around you, It’s the blood and the mud. I am divine! I am oblivion. I am the God. That comes down the heavens and makes oh the earth a heaven. I am love.

05 maio 2008

Sadomasô.

Julgar-me transformou-se no seu prato preferido, é que agora, com a chegada da diabete esse é o único prato doce que o restou. A mim é meio-amargo, mas cada um com seu gosto próprio.

Mais além há a parte yin, que toca e transcende sempre aos extremos. Somente existe o melhor e o pior de mim, sou sempre divina ou endiabrada. Yin ama meu intimo como a um velho amigo, enquanto eu mesma o desprezo.

Sou julgada, amada e me desprezo. Não a vida, mas a mim mesma. Parte infundada de uma anti-poesia, nada épica ou glamurosa.

No entanto, sou necessária aos dois e desejo unicamente arrostar só todo o caminho. Não o consigo. Minhas entranhas estão acorrentadas. Como alguém consegue se livrar de suas entranhas?

[Pseudo-sadomasô]

Escolho o mais fácil, me vomitar e me engolir de volta. Fingir que é o melhor, ser novo dói muito. E se a diabete é hereditária, assim como o gosto pelo julgamento e o amor pelos extremos, talvez os fracassos também sejam, por isso é bom me acostumar. Sou parte de um sonho que ninguém nunca teve.

Yin diria: “Isso é coisa da idade”.
Diabete diria: “Isso é culpa do ócio”.
E eu apenas me contento em ser náusea para mim mesma, fracasso para mim mesma, previsível para mim mesma e clichê por toda a vida.

01 maio 2008

Religiosidade.

Peço por um vício que possa ser meu. Uma religião que não seja vil. E nem careta. E nem extremista. E nem maniqueísta. Que combine com o abismo que há a minha volta. Que me faça morrer levemente. Não quero morrer de amor. Ou de dor. Ou outro sentimento que eu não posso tocar. Quero definhar por escolha minha. Não quero viver após a morte, ao menos ela TEM de me envolver, para todo o sempre. Mas nada me serve, nada cabe, nada me traz essa calmaria.

Pensei em me virar como se viram os adultos. Ser significativa em alguma coisa ou a alguém. Não consegui. Ninguém vê em mim uma vírgula de poesia. Nenhuma droga me altera. Nenhum ato me engrandece. Eu me despedacei por dentro, sem ao menos conhecer o que seria o amor.


Não amo mais, não posso. Não sei mais como se pronuncia o afeto, como se toca o afeto? E sofro. E choro. E grito, sempre em silêncio. Não é para me ouvirem.


Meus pais, esperança e cuidado. Alimentaram-me, me abençoaram e me amaldiçoaram a esse inoportuno viver. Recompensas à parte, o fizeram por egoísmo. Porque ninguém consegue viver solitário para sempre, isso quando se consegue viver. Quando já não completavam o vazio um do outro me trouxeram ao mundo e junto a mim a discórdia e junto a discórdia o tempo a passar. Vês? Somos fruto, maldito o vosso ventre, de sentimentos mesquinhos. Terrenos demais.


Procriaram, sim. Sem pensar nas conseqüências de tamanha vulgaridade. Mas não é culpa deles. Eles se adaptaram, assim como nós faremos. Não está escrito na bíblia que o bonito é viver? Viver e fazer vida, ou alguma coisa assim. Fim para mim. Agnóstico o caralho, e pro caralho esse maldito deus, com d minúsculo. Fim para ele. Fim para os criadores, todos!

30 abril 2008

A falta que mais dói.

Ô vô, que saudade de você que foi o melhor homem que conheci na vida. Saudade das suas poucas palavras e dos seus muitos sorrisos. Saudade do seu beijo molhado, do seu perfume, de beijar suas mãos marcadas pelo tempo e sua bochecha com a barba por fazer. Saudade do seu café boiando em cima da montanha de açúcar. É uma saudade que dói vô, porque eu era tão mais feliz quando você estava aqui.

Tudo mudou tanto, o mundo agora é triste e eu consigo sentir a dor dos outros como se fosse minha. Eu me lembro vô, de como o mundo era inocente quando você estava aqui. De como a sua pele e coração eram quentes e também me lembro de como foi beijar-te gelado. Gelou um pouco o meu peito, sabe? E ele só tem esfriado mais, desde então.
Estou te esquecendo aos pouquinhos e isso dói, como dói! Pois ao mesmo tempo eu tenho esquecido da felicidade que eu desaprendi a sentir desde que você se foi. E de quem eu era, sua neta preferida. Acho que você não me reconheceria não... eu já não faço massagens e nem cafunés, eu não crio coisas e nem faço desenhos, eu ainda escrevo mas com menos qualidade, eu não tento mais agradar a ninguém. Seria tudo tão diferente se você estivesse aqui. Eu gostava mais de mim porque eu sabia que você gostava. Agora eu nada sei. Agora eu não sei ser.

27 abril 2008

O Sacrifício.

(sa.cri.fí.ci.o) sm.1 Ação ou resultado de sacrificar(-se). 2 Oferenda aos deuses. 3 Rel. A missa. 4 Renúncia voluntária a favor de um ideal ou de uma pessoa: “Lá vai para frente/ o que se oferece/ para o sacrifício/ na causa que serve.”(Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência). 5 Tarefa desagradável que se deve realizar.

Eu não sei se eu sou muito cruel, chata, egoísta e acomodada ou se é mais fácil para você dizer que sou tudo isso e poder justificar o afastamento do afeto que me dava e que hoje me ponho a duvidar se chegou um dia a existir. Fui sempre um sacrifício? Ponho-me a duvidar se algum dia eu já tive motivo para me orgulhar de você, já que você acha que mereço tão pouco. A importância é dada a outrem e antes que eu me magoe sem ter cura, eu preciso ir. Longe dessas disputas de atenção com um ser banal que foi imposto ao meu convívio.

Odeio julgar e ser julgada (peço desculpas se me traí agora, julgando talvez de forma errada). Devido a sua importância é difícil criar um veredicto para mim, para você e para nós dois. É que eu te amo tanto e fiz de um tudo para ser isso tudo que você quer ver em mim e principalmente, ser isso tudo que você quer mostrar que eu sou. Tem sido impossível para mim ouvir suas críticas em forma de lista. Elas acabam comigo sem acabar. É um estoque incrível que eu nunca pensei que seria capaz de ouvir.

Eu odeio todas as horas que temos passado juntos e em companhia de outrem. As de paz me parecem de hipocrisia, para que os outros pensem que está tudo bem. Enquanto para mim, vai assim, tudo tão mal. Já desenhei o caminho da minha forca. Só conseguirei escapar dela se me afastar de você. Você volta quando quiser e se quiser. Volta a ser o que era antes.

Nunca pensei que a proteção iria acabar, nunca pensei que exigi-la poderia ser entendido como egoísmo. Eu achava que ela era natural e que não era sacrifício algum, para ninguém. Talvez eu esteja enganada, mas vou livrar-me dela e pronto, pode ficar bem feliz. Desisto de ver essa sua crise de meia-idade que só me faz mal. Pode correr atrás de uma juventude perdida. Pode se enganar dando espaço para a juventude dos outros. Pode dar à cara a tapa para uma mão mais jovem que a sua. Eu guardo a minha mão para o afago que você vai precisar quando esta historinha acabar. Porque eu vou me manter nos bastidores, sem força para te dar beijinho de boa sorte. Eu não tenho força para assistir nenhum declínio. O declínio dos outros sempre me entorta também e o seu seria capaz de me levar ao chão. Cai chão. Caixão. Você volta quando quiser e se quiser. Volta a ser o que era antes, porque essa minha mão só afaga e não apedreja, pelo menos não a você.
“Mas eu não caio do salto, não brigo e não falto com a minha verdade.
Sinceridade, sai que a fila tem que andar!”

21 abril 2008

Tic-Tac


Eles percebem-se no silêncio [...] Tic-Tac sem ser par. Seus olhos procuram-se sem se encontrar, propositadamente se deixam demorar, um perto do outro. Ele tenta ouvir sua risada. Ela tenta sorrir para ele. Nunca conseguem. O tempo a passar. Tic-Tac sem ser par.


Ela queria oportunidade para ouvi-lo, para concordar, para aprender, para completá-lo [...] sentir aquele encantamento presente, dizem, somente no que é real. Ele queria ter oportunidade para falar-lhe, para recebê-la, vê-la corar ao enaltecê-la [...] sentir o encantamento presente somente nos seus romances desgastados.


Eles queriam escrever uma história. Mas não há, ainda, para isso, um final feliz.

20 abril 2008

Os crimes do amor.

“Oh! Como é falsa essa embriaguez que, absorvendo os resultados das sensações, coloca-nos num tal estado que nos impede de enxergar, que nos impede de existir senão para esse objeto loucamente adorado! É isso, viver? Não será, antes, uma privação voluntária de todas as doçuras da vida? Não será permanecer, voluntariamente, nas garras de uma febre arrasadora que nos devora e absorve os gozos metafísicos tão semelhantes aos efeitos da loucura?”
Sade em “Os crimes do amor”.

18 abril 2008

Para o Sr. Excêntrico.

Ai, como me desperta! Meus olhos procuram por ti, arregalam-se apressados a cada movimento teu, sem conseguir perder um suspiro sequer. Esperando, calados, um olhar de recompensa.

E ele tem vindo. As barreiras estão se quebrando. O dia em que descobrirei se você é tudo isso está chegando. Espero que esteja esperando por alguém como eu, para acalmar-lhe o coração.

Será que os meus devaneios diminuirão? Será que o teu silêncio se romperá? Então poderemos trocar livros, discos, frases, sorrisos e sentimentos... Envolvidos por uma cumplicidade jamais vista nesta cidade de desilusão.

O personagem dos meus sonhos, Sr. Excêntrico. Torne-se palpável para mim! E um dia eu poderei te contar dos sonhos que tive e das vezes que te encontrei entre eles.

16 abril 2008

Por corredores.

No momento não há ninguém em especial a quem eu dedique meus escritos. Talvez os de ódio, mas não os de amor. Meu amor está sem rumo. Baita tristeza isso de ter amor para dar, mas não achar ninguém que o mereça ou que ao menos o queira. Não me rebaixo e tento não pensar nisso.
Outro dia me tocaram a mão suave, mas eu só o percebi depois de dois corredores, a essa altura a oportunidade já estava perdida. Eu sempre percebo apenas as oportunidades desperdiçáveis. As boas como essa, carregadas de afeto, de aconchego e de vontade recíproca, essas sempre passam sem que eu as veja. Mas um dia isso há de mudar e eu passarei a contar meu tempo por beijinhos e não por corredores.

Tenho dito. Ponto final.

Vaidade.


Tenho 17 anos e não sou bonita - pelo menos não com aquela beleza que enjoa ou que dá medo. Aquela que nos faz sair de perto, ter náuseas e dores na pupila, como claridade aguda despertando minha fotofobia. Eu nunca a quis. Nunca quis ser nada além do que sempre fui. Isso. Que a ele não agrada.


Talvez a vaidade possa fazer com que me olhem antes de me ouvirem, ao menos uma vez. Mas é um preço muito alto, prefiro é ser eu mesma. Isso aqui. Que a ele não agrada. Não é sempre que tenho tempo de falar. Não é sempre que as pessoas estão dispostas a ouvir.


Eu gostaria de ser e te agradar ao mesmo tempo, mas é tão difícil. Está tão ruim desse jeito? De cara eu não posso mudar e nem de coração, sinto muito.


15 abril 2008

.

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
Mas tenho medo,
Medo que toda a música cesse
E tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
Com que teces os dias sem memória.
Eugênio Andrade.

14 abril 2008

Mundo Moinho.

- É um mundo engraçado.
- Por que?
- E você liga?
- Claro que sim!
- Por isso que é engraçado, caso você não ligasse ele seria um baita mundo trágico.
- Você é muito, muito estranha, mas eu te amo assim mesmo.
- É, eu sei, é porque é um mundo engraçado.

"Ouça-me bem amor, Preste atenção, o Mundo é um Moinho, Vai triturar teus sonhor tão mesquinhos, Vai reduzir tuas ilusões à pó." - Cartolinha (Branca).

12 abril 2008

[...]

Sondar, amparar, debruçar, lamentar. Tantos verbos em um só sentimento e tudo o que eu realmente queria era ignorar o figurado. Deixar de ser alvo, fugir do óbvio. Clichês demais só podem significar algo inventado.

Quem sou eu para duvidar e fazer valer? Nosso fim, certamente, são reticências e ainda que essa dor amenize com o passar de outonos, sempre haverá um pedaço de você nos meus escritos, nos meus anseios, nas minhas certezas.

Seria diferente se tivesse acontecido? [...] Mas nós não nos favorecemos, amor.

10 abril 2008

Hipocrisia

Onde foi parar minha hipocrisia? Um humano que nunca recorre a Deus precisa de hipocrisia, orgulho e prepotência para sobreviver. É único jeito de conseguir manter-se saudável.

Prepotência para acreditar que acima de mim não há ninguém, orgulho para defender essa tese e hipocrisia para fingir que está sempre tudo bem.

Se ao menos Deus existisse, eu teria pena dele e de sua cruz. Mas eu tenho pena apenas de mim e da vida que eu tento e não consigo abandonar.

06 abril 2008

Outono.

Hoje eu acordei com uma vontade danada de rimar você durante todo, todo o dia.
Mas aí foi declarada uma guerra.

Diz mesmo, para quem inventou o pecado, que ele esqueceu de inventar o perdão. E diz para ele largar mão de desavença, porque não é só a alma dele que está em jogo não e o que era paz, meuDeus, o que era paz? Deixou de ser.

Antes de descobrir do fogo cruzado em que me colocaram, eu senti meu cabelo como o mais lindo do mundo, merecedor de atenção, sabecomoé? Mas passou, passarinho.
Queria rimar você mas não pensei que você mereceria.

No final das contas foi um dia desesperador e ainda assim, valeu a pena. Dia de sol, de falta de comunicação entre uns e excesso entre outros, de toques suaves que me salvaram de outra insônia, de outra navalha e da nicotina e outras inas inas inas. E esse dia passou.

Me alegra a alma quando a gente tenta falar uma coisa sabendo que ninguém, nem um ser sequer, entenderia. Me alegra a alma também quando vencemos nossos vícios, mas nos perdemos em solidão. E então eu durmo.
Como se fosse a primavera e eu morrendo.

02 abril 2008

Tenho dito.

Ontem eu tive insônia, hoje acordei de mal humor. Não pela insônia porque à ela já me acostumei, mas porque tive de acordar para ouvir a mesma ladainha que o mundo insiste em susurrar ao pé do meu ouvido.

Ser surda, muda e cega seria a glória caso a solução não fosse nascer de novo. Já tentei, mas até para nascer de novo a burocracia é insuportável.

As dores do mundo me atingem em cheio, somadas as minhas dores já não aguento mais. A solidão e a insônia são pouco frente a impossibilidade de criar coisas grandiosas, ou amores que não fossem banais. As certezas são tão pequenas e o desafio é tão superior que transcede até mesmo os devaneios que crio em noites de insônia, como a passada.

Pensei em você, pensei em ser um ser humano, ou deixar de ser, pensei na ética que falta nas relações entre as pessoas, pensei em sufocar em silêncio, mas nesse momento o sono chegou. Talvez ao dormir eu seja bem interessante, mas não é certeza, meu amor, e fora isso, eu não tenho nada mais a oferecer.

24 março 2008

Cíume amargurado.

Estou esperniando de cíumes, acho que até o vento se afastou da minha possessividade, não sopra aqui do meu lado e nem faz sereno. Esqueci o que é sossego. Minha alma está dilacerada, mas a culpa é minha amor, a culpa é minha.

Minha mãe disse que essa idéia de culpa não existe, que era para eu parar com essa mania de criar uma culpa para tudo.

-As vezes não há culpa. As coisas acontecem...

-Dessa vez, têm de haver, mãe. E tem que ser minha! Para esse cíumes poder ser doentio do jeito que é.

Como é possível tamanho sofrer caber num peito pequeno e apertado como o meu? Nem a solidão, única e passiva, me pertence. Não sei mais ser uma só. E não sei aceitar que os outros não queiram ser sós. Sempre aos pares, e de par em par vou me magoando. Eu não me divido e não me escancaro.

Sou (?) ímpar. Meu par perfeito é tão mal-me-quer que sinto cíumes do amor que não é meu e que não será. Jamais. Quero deixar claro o pesar que sinto pelas pessoas que só conseguem dedicar seu bendito amor a um só indíviduo, ou a si mesmo. Sinto pena. Não é julgamento, pobre de mim. Como poderia julgar sendo que consigo amar a tudo e todos, menos uma parte ínfima que poderia ser só minha?

Não sei amar aos bocadinhos, e é sempre tanto e muito, que havia de transbordar. Agora preciso de alguém que tenha sede. Alguém que não queira somente um fim de tarde de poesia, mas poesias todo dia a cada fim de tarde. Alguém que tenha o abraço largo, para todas as dúvidas e certezas que posso oferecer. Alguém que me pegue pela mão, mas que não tente me guiar. Alguém que esteja disposto a aguentar uma fonte que nunca vai secar.

Eu não sou impecável, intocável e insaciável. Quero provar pro mundo e curar o cíume e a beiradinha de inveja que está me tirando o sono e me amargurando mais a cada amanhecer.

20 março 2008

O discurso de Pausânias.

(...) Todas as ações, com efeito, não são em si mesmas, em sua pura realização, nem boas nem más; e sirva de exemplo o que agora nos encontramos entretidos a fazer: beber, cantar e falar. Nada disto, tomado de modo absoluto, é belo - mas depende da maneira pela qual se atualiza esta atividade para que se torne tal. Bela é a ação correta e boa; feia, é aquela que é incorreta. O mesmo podemos estender ao amor, dizendo que nem todo Eros é em si mesmo belo e louvável, mas se torna belo e louvável unicamente quando nos encaminha para um amor que é belo e louvável.
(...) Uma Afrodite é verdadeiramente vulgar e se realiza como que por acaso; e é o amor com que os homens inferiores amam.
Estes, com efeito, amam antes de tudo as mulheres e também mancebos; amam mais o corpo do que o espírito e, enfim, amam com o maior desvario que podem, dirigidos tão-somente pela concupiscência.
Portanto, não é de se espantar que daí resultem efeitos que dependem do acaso, e que às vezes são bons, e às vezes são maus.
(...) Afrodite celeste: não participa do feminino, mas unicamente do masculino, e por isso é o amor dos mancebos. É o amor da deusa mais velha, e por isso não se excede na concupiscência, e é por esta razão que seus adeptos preferem o sexo masculino e nele amam o que por sua natureza é mais forte, mais inteligente.
Os característicos dos servidores deste amor reconhecem-se facilmente. Eles amam, não crianças, mas adolescentes em que a inteligência começa a despontar, isto é, aqueles aos quais a barba começa a apontar.
A meu ver, os que assim precedem têm a intenção de conviver a vida toda com os seus amados e nunca ludibriam os rapazes conquistados por fáceis seduções, abandonando-os por outros, deles zombando ou menosprezando. A própria lei deveria encarregar-se de proibir que se amassem crianças, pois assim se impediria que se gastassem esforços excessivos na obtenção de coisa incerta, como são os meninos, nos quais não se pode prever o desenvolvimento dos vícios e das virtudes, tanto do corpo como do espírito.
Bem sabemos que os bons a si mesmos impõem uma tal lei, mas o mesmo não acontece com os amantes vulgares, que deveriam ser obrigados a respeitá-la, assim como já os obrigamos a não amarem mulheres livres.
Foram esses amores vulgares que tornaram desonesto o amor, e são dessa forma causa de que muitas pessoas tenham a coragem de dizer que é feio conceder favores aos amantes.
Essas pessoas afirmam isso tendo em vista a inconveniência e a imoralidade com que esses homens vulgares amam, quando é evidente que esse amor, quando é moral, não pode de nenhuma forma ser objeto de repreensão.
Com facilidade se pode compreender a opinião que em outros Estados reina a respeito do amor, e sua definição simples. Entre nós porém, e em Esparta, a coisa se torna complexa. Na Élida, e na Beócia, e em outras regiões onde o povo não sabe falar, todos consideram simplesmente como belo concederem-se favores aos amantes, e pessoa alguma, seja moço, seja velho, incrimina tal ação como desonesta. Creio que a razão de tal simplificação está em que todos por lá procuram dessa forma eliminar as dificuldades que poderiam surgir na conquista dos adolescentes, nascidas da incapacidade em que se encontram de falar e persuadir.
Ao contrário, na Jônia e em muitas outras regiões onde os gregos vivem sob a soberania dos bárbaros, temerosos da estabilidade de suas monarquias despóticas, consideram o amor entre os homens como imoral, e do mesmo modo a filosofia e a educação física. A razão disto é, creio eu, que aos tiranos, não favorece a eclosão de grandes espíritos entre os seus súditos, nem de amizades sólidas, nem de associações coesas - realidades estas que o amor cria.
(...) É pois visível que, nos Estados em que é vergonhoso conceder favores aos que nos amam, esta severidade decorra da iniqüidade daqueles que a estabeleceram, da tirania dos governantes e da covardia dos governados. E que, nos países em que isso parece bem, que essa indulgência é prova de grosseria. Tudo isso é bem melhor regulado na nossa terra.
Com efeito, se levarmos em conta que, segundo a opinião geral, é mais belo amar publicamente do que às escondidas, e principalmente aos adolescentes mais gentis e mais virtuosos, embora menos belos do que os outros; que os amantes recebem de todos encorajamento entusiástico; que é honroso triunfar no amor, e vergonhoso nele fracassar; que a própria opinião pública permite e concorda em que o amante realize as ações mais extravagantes com o fito de cativar o seu bem-amado, ações que lhe acarretariam as maiores repreensões se fossem realizadas com outra finalidade - como, por exemplo, se um homem qualquer, com o intuito de obter dinheiro, ou um cargo de magistrado, ou outro cargo político, consentisse em fazer tudo que fazem os amantes para seus amados, isto é, suplicar como mendigos, fazer juramentos fervorosos, deitar-se a porta das casas, rebaixar-se a um servilismo que repugnaria até um escravo -, tal homem haveria de ser impedido em suas ações, tanto pelos amigos como pelos inimigos, uns exprobrando-lhe as adulações e baixezas; outros repreendendo-o e envergonhando-se de seus atos. Ao passo que aos amantes são permitidas todas essas extravagâncias, não vendo nisso a comum opinião motivo algum de vergonha. E, o que é pior de tudo isso, segundo um ditado popular, só aos juramentos de amor, permitem os deuses que sejam impunemente quebrados, pois juras de amor não são juramentos - o que prova que tanto os deuses, como os homens, e como a própria opinião pública daqui, concedem todas as licenças aos amantes. Se considerarmos todas essas coisas, concluiremos que, em nossa cidade, bela e admirável coisa é amar e ser amado!
(...) Creio da seguinte forma: O amor não é simples, e como já nos disse no início as coisas em si mesmas não são nem boas nem más, mas boas se tornam quando feitas de bom modo, e más, no caso contrário. O que é feio é conceder favores a um mau e por maus motivos; e bom, a um bom, com bons motivos.
Mau, com efeito, é o amante vulgar que prefere o corpo ao espírito, pois o seu amor não é duradouro por não se dirigir a um objeto que perdure. A flor do corpo que ama vem um dia a murchar - e então ele “se retira ligeiro como as asas” esquecendo-se das declarações e muitas juras que fez.
O contrário, porém, acontece com aquele que ama uma bela alma e permanece a vida toda fiel a um objeto duradouro. Por isso a opinião pública distingue entre uma coisa e outra, e dispensa favores a uns, mas evita concedê-los a outros. Anima a uns a que prossigam e a outros a que se esquivem; em tudo procurando sempre a qual das duas espécies pertencem o amante e o amado.
E daí vem igualmente parecer à opinião vergonhosa uma entrega imediata: ela deseja que se dê tempo ao tempo, pois conhece o bom critério que o tempo proporciona. Além disso, considera-se feio entregar-se alguém ao dinheiro ou ao poder político, seja porque não seja capaz de mostrar-se mais forte do que as seduções exercidas pelo dinheiro ou pelas brilhantes posições. Este modo de pensar vem de que nada disso oferece segurança e durabilidade, e muito menos ocasião para a eclosão de um nobre amor.
(...) É sentimento comum entre nós não ser vergonhoso e humilhante alguém se entregar a outrem porque espera graças a ele realizar progressos no caminho da sabedoria ou de outra qualquer parte da virtude.
Essas duas opiniões sobre amor dos jovens e sobre filosofia e demais virtudes devem encontrar-se reunidas, para que se possa ter como bom e inatacável o fato de o amado conceder favores ao amante.
Quando o amante e o amado concordariam em ter por lei, um, prestar ao amado todos os serviços que não firam a virtude, e o outro, servir em tudo o que não se opunha à justiça e ajuda-lo a tornar-se sábio e bom; um, capaz de proporcionar a sabedoria e todas as outras virtudes, o outro, desejoso de ciência e virtudes - quando, pois, essas condições se encontra e harmonizam, só então não é desonesto que se concedam favores a um amante. De outro modo, não!
(...) Donde podemos concluir que é perfeitamente honroso entregar-se em nome da virtude. Este é o Eros da Afrodite celeste. É extraordinariamente benéfico tanto para os indivíduos como para o próprio Estado, pois impele ao mesmo tempo amante e amado a procurarem incansavelmente a virtude e sabedoria.
Platão, em seu Banquete.