Foi assim que eu sonhei.
"Meu amor, cadê você? Eu acordei, não tem ninguém ao lado."
Há conselhos demais e eles se opõem no que diz respeito a você. Se todos se calassem e ficássemos a sós. Mas há tanta gente ao nosso redor, há tanto esforço em não deixar escapar palavras a mais, há tanto teatro no meu jeito de fingir estar bem. Nunca ouvi tantas vozes em um só lugar. Nunca me calei por tanto tempo e principalmente, nunca me calaram dessa forma. ‘E aquilo que era nada volve a tudo’.
Não consigo mais ser sua amiga. Sinto-me patética ao seu lado. Um dia você vai entender, ou não. Nunca fez parte de você o entendimento, que seja. Mas um dia, eu voltarei sem que tenhas sentido a minha falta e tudo renascerá forte e grande dentro de você.
E ao modo de Perseu, transformarei todos em estátuas novamente. Inclusive você. Pois como mereço uma Medusa em minhas mãos e a força que se dissipou dentro de mim.
Vês? Quem é você pra entender mitologia?
Por que falo mal de você se sei que te quero tão bem?
Ai Jesus, nem escrever eu agüento mais. Essa bipolaridade a que você me amaldiçoou é o que me faz mais mal. Não consigo nem mesmo me expressar por clichês mais aceitáveis. Não consigo ser fria, feia e frígida ao seu lado. Não consigo te trazer pra perto de mim e por isso mesmo, vou fugir.
Tchau.
Alguns dias atrás renasci por uma garota. Uns 17 anos, esperando ônibus, fones de ouvido, tênis all star, cabelos castanhos e olhos de mel. Da minha janela o tempo parou. Os cinco minutos em que a encarei, pareceram horas e horas de cumplicidade. Eu, envolvida com as páginas de um dos meus romances pessimistas, ao levantar o olhar para perceber à qual distância estava do meu destino, dei de olhos com aquela que permaneceria todo o fim do dia a mandar nos meus pensamentos. Ela, sem desviar os olhos do meu assombro, acompanhou minha expressão ignóbil entre maravilhada e perdida. A primeira marcha virou segunda. Eu me fui. Pensei em olhar para trás, mas por algum motivo não tive coragem. Eu que não acreditava que uma mulher pudesse ter poder sobre uma outra, me peguei pensando que acaso encontre aquela garota novamente, juro por minha sanidade que lhe arranco um sorriso cheio de dentes. Porque, para ser sincera, vai ser bonita assim na casa do caralho.
E, com as palavras de Dostoievski em suas ‘Memórias de Subsolo’, “proponho já da minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor?”. Minha resposta é que, naquele dia, sem perceber, adicionei uma garota a minha coleção de amores platônicos. E o diabo deve saber o porquê.
Foi durante o último trago que eu comecei a dizer mil coisas. O que eu fazia, o que eu faria e que precisaria de companhia. Contei da piedade que eu merecia, mas que a vida fez do meu orgulho um guia e que agora eu já não sabia como amar.
Você sorriu, me beijou suave, desculpou-se pelo o mundo, tirou meu cabelo de trás da minha orelha e disse: “você merece um mundo de rosas” e deixou seu toco de carinho a queimar no cinzeiro. Eu acompanhei seu olhar até ele beirar a indiferença, foi então que escapuliu da minha boca um sonoro “não, porque eu me cansaria dos espinhos”.
Você levantou, foi ao balcão, pediu um café, voltou e pôs-se a mexê-lo. A me olhar e mexê-lo. O olhar foi ficando frio seguindo o ritmo de expresso curto. “Café gelado”, eu pensei. Você suspirou e disse: “Então, você merece um mundo de tulipas, não é?”. E eu, com o coração atingido, só consegui pensar que o que eu merecia era você. Mas eu lembrei de como isso te assustaria e me mantive calada com meu ‘sorriso de menina’, aquele de quando estou envergonhada e que você sempre elogia. Aquele que transparece o ‘eu te amo’ que não sai da minha boca e que você não está pronto para escutar.
As dores pesam e a balança aponta nosso nada. Todo o sentimento ou qualquer outra coisa assim efêmera. O imaginado e/ou ocorrido carregado de uma jovialidade tenaz para, fatalmente, conhecer o silêncio e morar, humilde, no eterno esquecimento. É assim com você, mas me preocupo em querer esquecer-me de mim também para ir morar contigo onde nem eu mesma possa me encontrar. Por isso, não te esqueço agora, (L).
Parece uma sombra que escolhe as horas mais inoportunas para me enlouquecer. Provavelmente não é obra de Deus o fato de você aparecer enquanto estou com o desespero à espreita. Sempre calado, você chama a minha atenção e eu esqueço do meu orgulho para desperdiçar silêncios ao seu lado.
Uma vez elogiei Bovary para te chamar a atenção, mas hoje confesso que não gosto desse clássico não. Também não gosto de Poe e não sei absolutamente nada sobre a revolução da República Dominicana. No entanto, sou agnóstica como o seu (e o meu) querido Érico Veríssimo. Gosto muito de Camus, mas prefiro “O Homem Revoltado” ao “O Estrangeiro”. Se me dissesse que gosta de Nietzsche, eu te convidaria para ser clichê ao meu lado. Mas se dissesse que gosta de Sade, eu te pediria em casamento, no mesmo dia!
Faria tudo por você. Só não procuraria por Luizas, não ouviria discos inteiros de tango eletrônico e não assistiria filmes cuja fotografia se baseasse na escuridão. Eu gosto de músicas que tenham uma boa letra, pois as dançantes só são aceitáveis em momentos alcoolizados. Eu gosto de filmes que se preocupem com o roteiro, para que eu saia do cinema repassando diálogos inteiros na minha cabeça. Eu gosto muito de conversar sobre os filmes que já vi, assim como os livros que li, as exposições que visitei e os shows que me deixaram rouca.
Eu te vi na exposição do Fernando Sabino, no show do Rock Rocket, no show do Gotan Project, no ônibus lendo Camus, passeando pela minha quadra e refletindo em uma escada imunda. Eu já assisti a alguns filmes seus e sempre vejo você chegar aos bares do quadrilátero. Uma vez te vi desenhando, não sei o quê e sempre te via com cadernos amarelados em que escrevia frases curtinhas, talvez pensamentos. Nossos maços de cigarro se esvaziavam, assim como as minhas intenções. Enquanto isso você olhava para o nada na janela paralela à minha. Somente hoje percebi o tempo que você me tomou. Eu te confundi com o amor da minha vida e as pessoas reais se foram enquanto meu medo de você parecia uma feliz aventura.
Isso de apoiar à homossexualidade ainda vai nos levar além, mas me dói à alma eu ser tão paleozóica, enquanto você defende a poligamia com seus amigos que só vestem preto. Eu continuo gostando de homens e a dúvida disso ser nossa principal coincidência me assombrou por noites demais. Não agüento mais o martírio de levar essa anedota a sério. As páginas que gastei contigo podem ser rasgadas como os estabilizadores podem ser desligados, aprenda a usar botões. Olhe ao seu redor e aprenda a ser feliz. Mas não olhe para mim, porque eu cansei de tentar ser triste como você.
“(...) Vous filez lê parfait amour. Tant mieux, mon cher, tant mieux.”
Ela sonhou com um matadouro. Abatiam homens como se fossem galinhas. Arrancavam seus cabelos, seus órgãos genitais e suas orelhas. Deixavam o suficiente para que se pudesse perceber o desespero que pairava pelo ar. Dois olhos arregalados e uma língua murcha dentro de uma cela pequena a chamaram a atenção. Aquele seria o próximo.
Ele foi o ultimo a estar dentro dela, mas não quis permanecer. Agora, perdia a sua dignidade com as mãos castas e os sussurros lentos pedindo por socorro. Uma pontada de orgulho a assombrou o rosto e despertou seu mais maquiavélico sorriso. Queria ela que ele sofresse assim por toda a eternidade.
Mas antes mesmo de o orgulho excita-la, de seu peito crescer e se endurecer, um pescoço foi quebrado. Pronto, menos um.
“A graça da vida é não saber. Fica sereno quem arruma, com os entes e as coisas, o seu museu de encantamentos. Sem fichas. Nunca que eu quis explicações sobre o que estou sentindo. Vejo os meus sonhos. Ouço as minhas músicas. Ando pelos meus jardins. Dou a minha gulodice o prazer que ela me proporciona.
Estas mãos, tantas vezes pousadas em livros, em flores, em outros alimentos terrestres, continuam mãos abertas a todas as surpresas. Um dia, na praia, o cavalheiro erudito, indo até lá, como disse: ‘para sorver o ar isolado’, porque me encontrou adorando a cor do céu, logo se manifestou: - ‘Sabe por que é azul a cor do céu?’ - Confessei humilde: - ‘Não. E não me conte, pelo amor de Deus’”.
Saudade não é palavra paterna
É ambidestra porque machuca nos dois lados do
coração.
Triste é você sentir saudades antes da hora
É imaginar a
perda.
No vazio existe algo.
Saudade ocupa todo o espaço.
Queria eu ter baseado minha vida em sexo. Por onde transei, com quem transei e os 17 segundos de transe. Ainda dá tempo? Se os meus passos não são escolhidos por mim e o acaso me leva cada vez mais para longe da prosperidade. Ainda dá tempo?
Queria eu ter me viciado mais cedo em todas as coisas que garotas não fazem. Ter fugido das regras, ter desvendado florestas e camas e lençóis e corpos, principalmente o meu.
Queria eu ter desvendado meu corpo, seus equívocos, seus sabores, seus acessos, seus delírios e suas faltas. Queria eu que você descobrisse os meus medos, mas foi por altruísmo que eu me calei e te espantei com os meus sarcasmos de fuga. Mas eu queria também que você fosse mais homem, para apalpar, encarar, vencer meus silêncios. Ah, se soubéssemos falar de amor.
Queria eu ter descoberto o amor e o depois dele.
Eu não sei se o que estou fazendo é um ato de coragem ou extrema covardia. Nessa nossa relação prejudicada, eu não sei nem ao menos quando começou a dor de te ver e saber que não é mais meu. Eu acreditava que precisava me livrar desta dor antes que ela livrasse a minha vida do meu convívio. Sem saber que me livrando de você o seu descaso aumentaria a minha dor infinitas vezes. Já não sei o que fazer, pois agora é óbvio que não consigo arrancar-te do meu coração. Já não sei como ser, pois me dói até a ínfima parte da alma. Essa flechada que é a ausência de um “nós dois”. Não deverias mesmo ter imposto sua presença se a arrancaria logo depois, como doce na mão de criança. Eu tinha o meu canto e por você abri mão dele. Agora não pertenço a nada e a lugar nenhum. E você não quer mais me pertencer.


“Eu digo calma alma minha, calminha, você tem muito que aprender.”
Peço por um vício que possa ser meu. Uma religião que não seja vil. E nem careta. E nem extremista. E nem maniqueísta. Que combine com o abismo que há a minha volta. Que me faça morrer levemente. Não quero morrer de amor. Ou de dor. Ou outro sentimento que eu não posso tocar. Quero definhar por escolha minha. Não quero viver após a morte, ao menos ela TEM de me envolver, para todo o sempre. Mas nada me serve, nada cabe, nada me traz essa calmaria.
Pensei em me virar como se viram os adultos. Ser significativa em alguma coisa ou a alguém. Não consegui. Ninguém vê em mim uma vírgula de poesia. Nenhuma droga me altera. Nenhum ato me engrandece. Eu me despedacei por dentro, sem ao menos conhecer o que seria o amor.
Não amo mais, não posso. Não sei mais como se pronuncia o afeto, como se toca o afeto? E sofro. E choro. E grito, sempre em silêncio. Não é para me ouvirem.
Meus pais, esperança e cuidado. Alimentaram-me, me abençoaram e me amaldiçoaram a esse inoportuno viver. Recompensas à parte, o fizeram por egoísmo. Porque ninguém consegue viver solitário para sempre, isso quando se consegue viver. Quando já não completavam o vazio um do outro me trouxeram ao mundo e junto a mim a discórdia e junto a discórdia o tempo a passar. Vês? Somos fruto, maldito o vosso ventre, de sentimentos mesquinhos. Terrenos demais.
Procriaram, sim. Sem pensar nas conseqüências de tamanha vulgaridade. Mas não é culpa deles. Eles se adaptaram, assim como nós faremos. Não está escrito na bíblia que o bonito é viver? Viver e fazer vida, ou alguma coisa assim. Fim para mim. Agnóstico o caralho, e pro caralho esse maldito deus, com d minúsculo. Fim para ele. Fim para os criadores, todos!


