Alguns dias atrás renasci por uma garota. Uns 17 anos, esperando ônibus, fones de ouvido, tênis all star, cabelos castanhos e olhos de mel. Da minha janela o tempo parou. Os cinco minutos em que a encarei, pareceram horas e horas de cumplicidade. Eu, envolvida com as páginas de um dos meus romances pessimistas, ao levantar o olhar para perceber à qual distância estava do meu destino, dei de olhos com aquela que permaneceria todo o fim do dia a mandar nos meus pensamentos. Ela, sem desviar os olhos do meu assombro, acompanhou minha expressão ignóbil entre maravilhada e perdida. A primeira marcha virou segunda. Eu me fui. Pensei em olhar para trás, mas por algum motivo não tive coragem. Eu que não acreditava que uma mulher pudesse ter poder sobre uma outra, me peguei pensando que acaso encontre aquela garota novamente, juro por minha sanidade que lhe arranco um sorriso cheio de dentes. Porque, para ser sincera, vai ser bonita assim na casa do caralho.
E, com as palavras de Dostoievski em suas ‘Memórias de Subsolo’, “proponho já da minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor?”. Minha resposta é que, naquele dia, sem perceber, adicionei uma garota a minha coleção de amores platônicos. E o diabo deve saber o porquê.