27 outubro 2008

Relatos, Parte 1.

Veja bem, eu tenho os meus vícios e eu nunca soube ser feliz. Minhas maiores realizações foram os sarcasmos que usei pela vida a fora e as pessoas que magoei continuam empilhadas nos recônditos da minha memória. Sempre fiz as coisas certas para não ser incomodada e as vezes que me traí são contadas em uma só mão, assim como as pessoas que sabem dos meus vacilos. Levo minha rotina e faço o que tenho que fazer. Minha vida é prática, sem direito a erros. Nunca tive um motivo ou um alguém para nada. Sou taciturna e ácida no mais alto grau. Em suma, eu não sou interessante e nem nunca tentei ser. Pareço mesmo com um soque certeiro no estômago, porque de tão indecisa escolhi a indiferença como forma de vida e ninguém nunca percebeu que ela é, na verdade, minha derradeira capa protetora.

Eu não digo as coisas certas e eu costumo chorar enquanto deveria rir. Eu costumo chorar. Eu choro por qualquer coisa e na maioria das vezes nem o meu coração sabe o porquê, que dirá minha razão. Eu soluço enquanto choro e provavelmente, algum dia, eu vou soluçar enquanto gozo. Eu não grito. Bem que gostaria, mas eu não tenho coragem. Eu não tenho coragem. Eu nunca fugi pela janela e nem pela porta da cozinha. Eu nunca beijei na chuva, nunca dancei nua, nunca vi ninguém nu, nunca toquei um ser nu. Se pensar que essa é a parte triste da minha vida, estará muito enganado. Triste, para mim, é fazer aquilo que não se quer. Triste é não ser ouvido porque é o sexo que move o mundo. Triste é perder a infância e tão logo a jovialidade por amor, não que o sexo faça isso, mas o sentimento de doação corrompe até a mais sonhadora e independente das mulheres. Triste é perder a individualidade. Triste é transar com qualquer um e fazer do sexo coisa tão terrena como a fome. Transa-se para acreditar na continuidade da vida, assim como a diferença social existe para que alguns acreditem na superioridade e na validez dessa vida. Mas são todos uns inválidos, os dependentes de sexo e os amantes do dinheiro.

Eu gosto de falar e eu falo muita mentira. São imperceptíveis, juro. Faz tanto tempo que as tenho decoradas que não me lembro mais se são mentiras de verdade ou verdades de mentira. Mas há também as verdades que de tão sólidas, só acontecem comigo, segundo eu sei. E olha que eu sei da vida de todo mundo, porque, por alguma razão, as pessoas gostam de me contar os seus problemas. Mas eles são, na maioria dos casos, muito patéticos ou talvez, minha noção de mediocridade é que englobe muitas coisas. Eu sei, eu não deveria julgar, mas essa é uma mania antiga e ninguém nunca me repreendeu. A não ser Deus. Deus me amaldiçoou a uma solidão que vem de berço e por esse motivo a minha descrença também é de nascença. Essa sim, é a parte triste da minha vida. Porque de todas as ausências, minha fome de fé é que mais machuca os meus dias. Felizes são aqueles que acreditam na benevolência de Deus e podem ter esperança. Felizes são os que limpam a própria consciência com um “Pai Nosso” e conseguem dormir a noite inteira sem se revirar. Felizes são os que enchem os bolsos do capitalismo de dinheiro no Natal, mas que se vêem endividados logo após o carnaval e não perdem as estribeiras por conta disso. Mas eu vivo de blasfêmia, infeliz dependente de dinheiro e feliz amante de sexo (como ele deveria ser).

Desde muito cedo aprendi a ser bem falsa e, sem que ninguém perceba meu desprezo, eu consegui a maioria das coisas que quis. Eu bem que poderia me meter com política, mas não faço isso porque esse é um erro que meus pais já cometeram no meu lugar e chega de decepções ideológicas nessa família. Eu finjo ser apática, mas a verdade é que, em termos de sociedade, eu sou uma ingênua revolucionária com muitas idéias e de caráter basicamente otimista. Mas nada acontece e minha paixão pelos humanos se dissipa cada dia mais. Assim como a minha vontade de ouvi-los. Eu não sei escutar, digo logo. Ouvir posso ouvir, mas jamais levarei frases alheias a sério. A não ser que sejam escritas, a palavra escrita têm caminho certo até minha razão e compreensão. A imagem em nada me influencia e nem as declarações públicas de afeto. A verdade é que declarações me assustam e, como uma menina amedrontada, me escondo entre devassidão e medo, troco minhas próprias pernas entre os meus lençóis, me esqueço do mundo até a aflição passar. Então, de cabeça erguida apareço novamente, refeita em minhas mentiras e com frases tão bem decoradas que ninguém nunca há de perceber que eu estava era me escondendo. Admito, sou romântica demais e não sei lidar com coisas relacionadas ao coração. Após tantos labirintos, eu perdi a lição em que aprendemos a ser sociáveis. Posso falar com todos eles sem de fato dar a mínima atenção. Minhas relações são todas tão superficiais e se esvaem assim que a distância ou o tempo se alongam. Sempre foi assim e eu já me acostumei. Guardo quatro amigas no meu peito, dois pais (apesar das ressalvas) e umas ilusões com nome e sobrenome. Á fora isso, sobrevivo de colegas “que só aparecem quando eu bebo e quando eu não sou eu”.

Sou uma pessoa que discute. Excitam-me as discussões e mais ainda as que, de antemão, eu sei que perderei. No entanto, fico desolada quando perco sem previsão. Em sobressaltos digo o que não deveria, ofendo a todos, amaldiçôo e mando ao inferno as hipocrisias do mundo moderno. Depois me arrependo. Mas como não sei voltar a trás, perco pessoas como perco brincos. Eu perco todos os meus brincos, por isso parei de comprá-los. Em falar em vaidade, a minha é engavetada. Quando me arrumo, me preocupo em parecer espontâneo, quase como se não quisesse ter me arrumado. Tenho é medo de que os outros pensem que me arrumei para essa ou aquela situação, ou para esse ou aquele alguém. Pois, me convenço de que todas as situações e todas as pessoas devem ser dotadas da mesma importância. Eu odeio as vaidosas. Sempre tão vazias e infelizes, não refletem sobre seus motivos e mal entendem os tropeços do mundo. Enquanto eu só me preocupo com isso, tanto que perco o sono e fico com olheiras que mandam ao diabo a minha vaidade. Como odeio maquiagens e safadezas que os homens inventam para não serem eles mesmos e tudo isso escraviza ainda mais as mulheres. Torna-se um círculo vicioso e sobre isso posso discorrer páginas a fio, mas já me canso. Escrever assim, sem motivo, é sempre promissor, mas cansativo. Talvez um outro dia eu queira falar sobre mim novamente, mas é mais provável que eu escreva sobre os vazios do meu peito (como sempre). O sono bate à porta do meu quarto. É melhor atender antes que ele desista de mim.