16 maio 2012

Atropelada por Iuri

Chamarei todos os sonhos de Iuri. Nada pré-definido, Iuri pode ser um momento, um homem, uma mulher, um fino bem apertado. No caso que agora relatarei, Iuri é a amizade.

Quando eu tinha 13 anos perdi Iuri. Nós nos perdemos. Eu parei de andar de skate e Iuri também. Eu cheguei ao que sou hoje e Iuri está noivo, quase formado em um curso que nunca exercerá, ganhando mesada do pai aos 22 anos e gastando esse dinheiro em LSD. Quando resolvemos que não tínhamos mais nada em comum, mandei para Iuri uma caixa com todas as coisas que estavam na minha casa e que eu já não poderia pegar emprestado. Entre essas coisas estava um CD do Nirvana, nossa banda preferida à época. Sofri como um cão. Naquele momento minha mãe me disse que você não pode esperar de Iuri o mesmo que fez por ele. "Nada é equilibrado" - palavras de mãe, me estapeando - "Você sempre amará mais do que recebe ou o contrário".

Em 2009 Iuri morreu. Acidente de carro. Nunca me perdoarei por não ter ido ao ser enterro, logo eu, que sou atéia.

Passaram-se anos e Iuri apareceu em novas formas. Fazendo-me ficar, fazendo-me partir. No presente momento, Iuri chegou, ficou e não sei ainda explicar o porquê, está se esvaindo. Por um raciocínio rápido, nada justifica a velocidade com que a intimidade apareceu. Estaríamos volúveis demais a ponto de entregar nossas fraquezas ao primeiro que oferecesse uma carona? É provável. É possível. Voltando as palavras de mãe, "o que vem fácil, vai embora fácil e a mesma coisa com o que vem rápido". Como evitar, então, a realização definitiva desse círculo vicioso? Passo a me esconder para que não fiquemos enjoados? Ou tento ser o que não sou, talvez, surpreendente?

Muito bandida essa vida de não receber aquilo que oferecemos em retorno. Uma via de mão única e você à beirada da rua sem saída, esperando ser atropelada pelos interesses de Iuri. Confiança em desmanche.