10 abril 2013
Inspiração do dia
Hoje a inspiração veio do blog de uma amiga querida, o Goldenland.
Pasmem, mas essas fotos foram divulgadas na fanpage de uma imobiliária francesa no Facebook, a John d’Orbigny. São imagens raras do Louvre antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial. No Goldenland, Mauricio Massano explica que "com o medo de saques, durante os anos de 1938 e 1939, obras como a Monalisa, Vênus de Milo e a Vitória de Samotrácia foram encaixotadas, transportadas em comboios e escondidas dos alemães".
Lindeza pra esse fim de quarta-feira.
09 abril 2013
Ode ao transporte público
Quando eu fiz 18 anos eu não ganhei um carro. Os meus amigos - os de Brasília, ao menos - já o tinham. Eram todos mais velhos do que eu. Levou alguns anos para que eu me convencesse que não é natural andar de carro. Não é como se alimentar e eliminar resíduos. Não é como respirar e dormir. É uma necessidade criada, resultado da falta de iniciativa dos Governos em transformar nossos impostos na efetivação do direito sagrado de ir e vir. Mas a verdade, a cruel verdade, é que em Brasília, não são todos que podem ir e, mesmo se forem e chegarem, não terão como voltar.
O transporte público em Brasília funciona para manter o trabalhador em uma rotina casa-trabalho e às vezes, faculdade. Sair de noite? Só se for voltar antes das 23h. Porque a maioria dos ônibus deixa o ponto final à meia-noite e quem é que vai se arriscar a esperar o último deles? Além disso, há lugares que simplesmente foram planejados para que os abastados de quatro rodas não conseguissem chegar. Os exemplos são vastos, desde a Nova Torre Digital; passando pela Ermida Dom Bosco até as boates do Setor de Indústrias e Automóveis. Ou seja, eu, sem amigos, não teria conhecido nem metade dos bares, dos lares, dos teatros, das vicissitudes dessa cidade. E aqui incluo a minha singela gratidão.
Por muito tempo pensei que o motivo crucial para que Brasília ainda não fosse considerada minha e por mim era porque minha liberdade era limitada a telefonemas e mensagens toda vez que quisesse sair nos finais de semana. Isso porque também se trata de um lugar onde uma viagem de 7 km dentro de um táxi, custa R$ 25. Às vezes, eu queria sair e estar sozinha. Foi aí que eu ganhei um carro. E aqui também incluo a minha singela gratidão.
Entretanto, não esperava a indiscriminada falta de educação e de solidariedade que encontrei no trânsito de Brasília. E me lembrei desse texto e de como não há nenhuma "paciência", "respeito às diferenças" ou "altruísmo" quando você está de porte de um carro. Em ônibus ou no metrô, principalmente para quem segue uma rotina, encontramos pessoas que passaram por situações semelhantes às nossas. Às 22h15 de todos os dias úteis tenho apenas duas opções de ônibus para voltar para a minha casa, o 107 ou o 102. Como o destino final do Circular 107 é a Rodoviária do Plano Piloto, o coletivo está sempre cheio de estudantes e pessoas que moram nas asinhas do avião. Mas o 102 é uma novidade constante. Já encontrei bêbados e pedintes; travestis e muitos, muitos tipos diferentes de trabalhadores. Eu não conheço o destino final do 102 e nem sei de onde ele vem; mas a solidariedade que sinto por cada um desses brasileiros que passam por aquela roleta com a expressão de cansaço no rosto é incomparável.
Em ônibus já conversei com todos os tipos de pessoas. Já comprei até pequi e jambu. Já ouvi tocarem viola, violino e flauta. Já ouvi comediante que me fez rir, de verdade. Tudo isso enquanto ia ou voltava do trabalho/universidade. Também já peguei ônibus de carona, depois de perder o dinheiro da passagem. Tudo pode acontecer dentro de um ônibus/metrô. A cidade se encontra e é muito bom se sentir pertencente a esse sistema chamado cidade; enxergar as sutilezas, como as cores das sombrinhas das pessoas que esperam em paradas de ônibus; reconhecer faces conhecidas em filas na Rodoviária; ler as intervenções artísticas e às vezes, até as pixações, que são de uma verdade que nos estapeia. Andar de ônibus me faz sentir mais humana, mais semelhante aos meus semelhantes, vocês vejam só. Vejam também mais sobre este assunto aqui.
Pena, muita pena, que o descaso seja tanto. Mas nem por isso devemos parar de lutar. Escrevo esse texto porque gostaria que todos os meus amigos passassem a lutar pelo transporte público de Brasília. Não é porque não o utilizam mais que ele não diz respeito à vocês e também porque desejo que possam encontrar a paz de um fim de tarde em um ônibus, vendo a tarde caindo, as nuvens mudando de cor. O que, definitivamente, não podemos fazer quando há alguém colado no nosso fundo.
Aqui seguem algumas ações para melhorar isso que o brasiliense é obrigado a chamar de "transporte público":
Que Ônibus Passa Aqui serve para informar os usuários do transporte público que linhas passam em cada ponto através de um adesivo, onde as pessoas podem escrever nele as informações sobre as linhas. Todos podem colaborar. Basta imprimir o adesivo e colar nas paradas de ônibus. A ideia é que cada pessoa que passar pelo local anote as linhas de ônibus que podem ser pegos.
Aqui também é possível assinar uma petição pedindo para que o metrô de Brasília funcione 24 horas. Vamos lutar porque vai que um dia, finalmente, ele chega até a Asa Norte? E além? Não custa sonhar - e lutar por e para quem usa os trens todo santo dia.
E aqui o blog Transporte Público no DF com várias dicas interessantes para quem, como qualquer não-brasiliense, fica perdidinho nessa cidade de Super Quadras e Setores, múltiplos setores.
*Foto: "Through the bus window", da Galeria de M. T. Sullivan, que tira fotos lindíssimas com o dia-a-dia das pessoas
02 abril 2013
Não há mais um trevo no meu jardim
Se encontraram, finalmente, mas foi como se não se conhecessem. Durante minutos de silêncio ela ficou imaginando o que poderia falar para quebrar o desconforto. Depois chegou a conclusão de que essa não era sua responsabilidade. Pelo menos não unicamente sua. Lembrou-se dos silêncios confortáveis e, por fim, se rendeu e passou a acreditar que não havia ali mais nenhum sentimento a ser revirado. "Às vezes ficamos remoendo a ferida para vê-la sangrar e inflamar", pensava enquanto imaginava os ralados de quedas de bicicleta ou o walkmachine da infância ou o skate da adolescência. A casquinha que ficava e que amava arrancar com as unhas mal cortadas. Naquele desconforto sentia o mesmo masoquismo.
"Pura mentira, mentira infantil", repassava na cabeça os acontecimentos da noite enquanto voltava para casa de carona. Por longos trechos da conversa que a conduziu até sua casa, tentava lembrar de qual argila e qual argamassa construiu aquela amizade que, naquele dia, parecia página virada do diário. Do diabo. Ela, sozinha, virando a chave de casa. Um casal de mendigos morando próximo ao seu prédio. "Vai ver são amigos", pensou. E pensar nessa amizade a fez lamentar o fim da sua. O fim.
Subia as escadas como quem se rende ao inevitável. "Não tem muito o que eu possa fazer", não tem. Se as pessoas as quais destina seu afeto não o querem mais, não lamentam por sua ausência, não comemoram a sua presença, não há muito o que se possa fazer, realmente. A realidade a atingia. E os 14 lances de escada pareciam a penitência de um cristão desavisado.
A luz da sala estava acesa e a bagunça à vista combinava com o momento. Abandonar também significa se amar. Abandonar aquela casa, abandonar aquela cidade, abandonar aquele que foi seu melhor amigo. Tudo isso significaria, um dia, a redenção. A esperança em um futuro melhor. O amanhã. "Se já abandonei outras pessoas antes e à essa dor sobrevivi, porque seria diferente agora?", perguntava mais para fora do que para dentro.
Para dentro do quarto o escuro era certo pois o eletricista não veio no dia combinado. Deitou-se em sua cama, antes mesmo de escovar os dentes e tomar o banho da madrugada. Ficou olhando para o teto do quarto, esperando por um sinal. Como se não nos conhecêssemos. "Não vou me enganar e como outros achar que as migalhas de sua atenção representam o você inteiro". Ela não queria mais fingir, queria falar, olhando em seu olho, que aquilo já não podia mais. "Se você não se ama, eu te amo e te acho um covarde por não saber lidar com isso, com quem você é e gostaria de ser. Quem você é?"
Essa música é para você, trevo do meu jardim.
"Pura mentira, mentira infantil", repassava na cabeça os acontecimentos da noite enquanto voltava para casa de carona. Por longos trechos da conversa que a conduziu até sua casa, tentava lembrar de qual argila e qual argamassa construiu aquela amizade que, naquele dia, parecia página virada do diário. Do diabo. Ela, sozinha, virando a chave de casa. Um casal de mendigos morando próximo ao seu prédio. "Vai ver são amigos", pensou. E pensar nessa amizade a fez lamentar o fim da sua. O fim.
Subia as escadas como quem se rende ao inevitável. "Não tem muito o que eu possa fazer", não tem. Se as pessoas as quais destina seu afeto não o querem mais, não lamentam por sua ausência, não comemoram a sua presença, não há muito o que se possa fazer, realmente. A realidade a atingia. E os 14 lances de escada pareciam a penitência de um cristão desavisado.
A luz da sala estava acesa e a bagunça à vista combinava com o momento. Abandonar também significa se amar. Abandonar aquela casa, abandonar aquela cidade, abandonar aquele que foi seu melhor amigo. Tudo isso significaria, um dia, a redenção. A esperança em um futuro melhor. O amanhã. "Se já abandonei outras pessoas antes e à essa dor sobrevivi, porque seria diferente agora?", perguntava mais para fora do que para dentro.
Para dentro do quarto o escuro era certo pois o eletricista não veio no dia combinado. Deitou-se em sua cama, antes mesmo de escovar os dentes e tomar o banho da madrugada. Ficou olhando para o teto do quarto, esperando por um sinal. Como se não nos conhecêssemos. "Não vou me enganar e como outros achar que as migalhas de sua atenção representam o você inteiro". Ela não queria mais fingir, queria falar, olhando em seu olho, que aquilo já não podia mais. "Se você não se ama, eu te amo e te acho um covarde por não saber lidar com isso, com quem você é e gostaria de ser. Quem você é?"
Essa música é para você, trevo do meu jardim.
When will you accept yourself, for heaven's sake?
Anything is hard to find
When you will not open your eyes
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