02 abril 2013

Não há mais um trevo no meu jardim

Se encontraram, finalmente, mas foi como se não se conhecessem. Durante minutos de silêncio ela ficou imaginando o que poderia falar para quebrar o desconforto. Depois chegou a conclusão de que essa não era sua responsabilidade. Pelo menos não unicamente sua. Lembrou-se dos silêncios confortáveis e, por fim, se rendeu e passou a acreditar que não havia ali mais nenhum sentimento a ser revirado. "Às vezes ficamos remoendo a ferida para vê-la sangrar e inflamar", pensava enquanto imaginava os ralados de quedas de bicicleta ou o walkmachine da infância ou o skate da adolescência. A casquinha que ficava e que amava arrancar com as unhas mal cortadas. Naquele desconforto sentia o mesmo masoquismo.

"Pura mentira, mentira infantil", repassava na cabeça os acontecimentos da noite enquanto voltava para casa de carona. Por longos trechos da conversa que a conduziu até sua casa, tentava lembrar de qual argila e qual argamassa construiu aquela amizade que, naquele dia, parecia página virada do diário. Do diabo. Ela, sozinha, virando a chave de casa. Um casal de mendigos morando próximo ao seu prédio. "Vai ver são amigos", pensou. E pensar nessa amizade a fez lamentar o fim da sua. O fim.

Subia as escadas como quem se rende ao inevitável. "Não tem muito o que eu possa fazer", não tem. Se as pessoas as quais destina seu afeto não o querem mais, não lamentam por sua ausência, não comemoram a sua presença, não há muito o que se possa fazer, realmente. A realidade a atingia. E os 14 lances de escada pareciam a penitência de um cristão desavisado.

A luz da sala estava acesa e a bagunça à vista combinava com o momento. Abandonar também significa se amar. Abandonar aquela casa, abandonar aquela cidade, abandonar aquele que foi seu melhor amigo. Tudo isso significaria, um dia, a redenção. A esperança em um futuro melhor. O amanhã. "Se já abandonei outras pessoas antes e à essa dor sobrevivi, porque seria diferente agora?", perguntava mais para fora do que para dentro.

Para dentro do quarto o escuro era certo pois o eletricista não veio no dia combinado. Deitou-se em sua cama, antes mesmo de escovar os dentes e tomar o banho da madrugada. Ficou olhando para o teto do quarto, esperando por um sinal. Como se não nos conhecêssemos. "Não vou me enganar e como outros achar que as migalhas de sua atenção representam o você inteiro". Ela não queria mais fingir, queria falar, olhando em seu olho, que aquilo já não podia mais. "Se você não se ama, eu te amo e te acho um covarde por não saber lidar com isso, com quem você é e gostaria de ser. Quem você é?"



Essa música é para você, trevo do meu jardim.

When will you accept yourself, for heaven's sake? 
Anything is hard to find
When you will not open your eyes