20 julho 2010

É




De tudo, fizemos

Você não poderia dizer “Vem. Vem que eu te quero fraca”. Você não me quer assim, não suporta me ver perguntando o que devo fazer. Ver-me pedindo por ajuda te enoja. Você me quer madura, pronta pro mundo, com as garras de fora, o sarcasmo afiado. Você me quer inteira, tem preguiça de colher os meus pedaços por aí.
Você ri e desdenha das minhas dúvidas e meus receios. Meu medo, meu supremo e absoluto medo, você não o compreende.  Acredita ser infantil esse pavor que passa por meus olhos antes da madrugada me seduzir. Você não compreende.
Você tem razão. Está entendendo? Você é o dono da razão. Pois tudo aquilo que começa doloroso, há de acabar em sanatório. E eu, fraca assim, só te trarei decepção. Reclamando do barulho do relógio, da ventania de agosto, do café gelado e principalmente, de você.


E quando eu me curasse, você diria “Vem. Vem que eu te quero forte”. Mas então eu responderia, “Agora é tarde, ta lindo lá fora”. 

Eu não vou mais sangrar perto de ti.


06 julho 2010

Janela, palavra linda.

Uma vez eu conheci um americano que tinha muitos defeitos. Fora o fato de ser americano, obviamente. Mas de uma coisa devo perdoá-lo. Quando ele disse, reprimindo o bairrismo, que a “janela” era a palavra mais linda de minha língua. Pude sorrir triunfante, pois, realmente, que coisa maravilhosa é a língua portuguesa.

Janela • sf (lat vulg ianuella, dim de ianua) 1. Abertura nas paredes dos edifícios, para deixar passar a luz e o ar. 2. Caixilho de madeira, ferro com que se fecha essa abertura. 3. fam Abertura, buraco ou rasgão na roupa ou no calçado. 4. Geol Abertura no solo, causada pela erosão, por onde se percebe o substrato de camadas mais antigas. 5. Tip Claro existente num escrito, correspondente a alguma palavra que falta e se deve escrever. 6. Abertura nos veículos, de forma variável, em geral com vidro, pela qual os passageiros podem ver a paisagem.

Pois que digam mal de nossas ignorâncias, mas deve ser horrível mirar windows, e não janelas e principalmente, deve ser amedrontador não saber sentir saudade.








Parafraseando de(coeur)ação: Eu tenho inveja de quem tem banco na janela.
 
Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
clarabóia na minha alma,
olho no meu coração.

- Adélia Prado