24 setembro 2008

O Pássaro.

Existia um pássaro que pensava que sabia voar. Ele não se lembrava de qual tinha sido a última vez em que suas asas desafiaram o sol. Há muito tempo que ele não batia as asas e já nem sabia se elas eram verdes com azul ou azuis com verde. Não havia espaço para abri-las dentro da gaiola. Ainda assim, gostava de contar sobre as vezes que se perdeu em imensidões de azul, dizia que a volta para o norte era melhor do que a ida para o sul e também que as nuvens não eram de algodão, mas eram ainda mais gostosas do que sorvete de frutas.

Era um pássaro muito vivido.

Um dia percebeu que já não podia suportar sua gaiola. Que gostava mais de dias claros do que de chaves de compromisso. Resolveu largar as chaves para encontrar todos os dias claros de diferentes lugares do mundo. Então, enquanto tentava fugir de sua gaiola, morreu sufocado em uma fenda que parecia maior do que de fato era.

A gaiola foi queimada, mas as chaves ainda existem, assim como os dias claros.

23 setembro 2008

Duas páginas e meia.

Ela se arrumou. Escolheu a roupa com horas de antecedência, combinou a lingerie, passou creme de rosas, secou o cabelo, penteou a sobrancelha, se maquiou sem frescura. Ganhou a rua com o passo incerto, cambaleando entre o que pensava e como iria dizer. Sabia que esse era o dia para abrir o coração só não sabia se teria coragem, ousadia.

A chance de encontrá-lo era maior do que a chance de se magoar. A chance de ser feliz a possuía como nunca antes. Andava cansada. Cansada de escrever sobre fracassos, cansada de fechar portas, janelas, desligar telefones e trancafiar seus próprios sonhos.

Passou a tarde ensaiando seu discurso. O espelho até o decorou. Ele que por tantas vezes a viu enxugar as próprias lágrimas, a pentear os cabelos sem expressão, a passar cremes caros na pele perfeita. Ele que se perguntado, responderia: “Não, não existe ninguém mais bonita do que você. Nem nesse e nem em nenhum outro reino”.

É fácil conquistar o afeto de um espelho que só sabe enxergar a ela. Difícil é reconquistar o afeto de quem já se foi. De homem-orgulho, de homem-incerteza, de homem-segredo. No entanto ela foi pra rua depositando sua sorte e sua saúde no poder que a nostalgia tem. “Os velhos tempos podem voltar e podem ser melhor do que esse tempo de agora”, ela diria.

Chegada à hora. Lá estava ele, escondido entre outros que a cumprimentaram primeiro. Chegada a sua vez, não houve magia. Tocaram-se. Afastaram-se. Ninguém notou. Estavam vazios de palavras, mas cheios de intenção. Quando os goles compridos em copos de desespero desfizeram por completo a mulher que ela pensava ser, quis ir embora. Sua coragem se esvaiu. Aproveitou a primeira carona e fugiu. Sem despedidas e sem declarações. Sem sapatos, sem refúgios, sem meias-palavras em sua memória. Abriu as portas, as janelas, as lamentações e desperdiçou essas páginas que aqui se encontram. Entre lágrimas derramadas e copos de vinho tinto.

( Amanhã é um novo dia para essa mesma conquista )

21 setembro 2008

Matadouro.

Ela sonhou com um matadouro. Abatiam homens como se fossem galinhas. Arrancavam seus cabelos, seus órgãos genitais e suas orelhas. Deixavam o suficiente para que se pudesse perceber o desespero que pairava pelo ar. Dois olhos arregalados e uma língua murcha dentro de uma cela pequena a chamaram a atenção. Aquele seria o próximo.


Ele foi o ultimo a estar dentro dela, mas não quis permanecer. Agora, perdia a sua dignidade com as mãos castas e os sussurros lentos pedindo por socorro. Uma pontada de orgulho a assombrou o rosto e despertou seu mais maquiavélico sorriso. Queria ela que ele sofresse assim por toda a eternidade.


Mas antes mesmo de o orgulho excita-la, de seu peito crescer e se endurecer, um pescoço foi quebrado. Pronto, menos um.

19 setembro 2008

“My Blueberry Nights”



I always had the feeling I could say anything to you. Enclosed is a bill I’ve created for you in memory of our time together. I wonder how you remember me. As the girl who liked blueberry pies or the girl with the broken hearth?

16 setembro 2008

Julho 2009.


- Eu fico mais um tempo, eu te espero sim.

14 setembro 2008

A chuva era uma promessa.
-Vai sair?, ela quis saber.
-Vou.
-Vai chover...
O interesse cabia dentro de um papel de bala.
-Quer fazer amor?
Pareceu um filme rodando ao contrário. Ele, que se vestia para sair, parou e foi tirando a roupa recém-colocada.
-Quero.
Ela chorou todo o tempo. Gozou chorando. Ele nunca imaginou que fazer silêncio pudesse doer tanto. A porta da rua, essa foi ficando cada vez mais longe.

13 setembro 2008

Apelo.

Diz que você vai voltar e que foi um engano. Que o corpo dela não se encaixa ao seu. Que existe um desafino. Diz que minha fineza te assusta, porque eu sou capaz de gritar pros quatros ventos que te quero de volta. Só não diz que foi culpa minha.

Porque se disser que a culpa foi minha, eu perguntarei: - e essa é sua desculpa? - Eu não sei em qual parte do mundo o que você fez seria correto. Qual santo vai brigar por você? Eu larguei mão do meu orgulho para esperar por um motivo. Para te levar pela mão, como se o mundo fosse um lugar bonito. Mas ele agora me enoja.

Há pouco mais de duas horas vomitei as impressões que sinto desse mundo. Desse mundo em que eu não te tenho. E agora estou vomitando seu beijo, mas a lembrança não sai de mim. E nem a saudade.

06 setembro 2008

Reflexos da inocência.

“Quando eu era jovem eu pedia por coragem para viajar por todos os lugares do mundo. Depois eu percebi que para continuar em um só lugar que é necessário uma coragem sobre-humana.”

02 setembro 2008

As amargas, não - Avaro Moreyra.

“A graça da vida é não saber. Fica sereno quem arruma, com os entes e as coisas, o seu museu de encantamentos. Sem fichas. Nunca que eu quis explicações sobre o que estou sentindo. Vejo os meus sonhos. Ouço as minhas músicas. Ando pelos meus jardins. Dou a minha gulodice o prazer que ela me proporciona.
Estas mãos, tantas vezes pousadas em livros, em flores, em outros alimentos terrestres, continuam mãos abertas a todas as surpresas. Um dia, na praia, o cavalheiro erudito, indo até lá, como disse: ‘para sorver o ar isolado’, porque me encontrou adorando a cor do céu, logo se manifestou: - ‘Sabe por que é azul a cor do céu?’ - Confessei humilde: - ‘Não. E não me conte, pelo amor de Deus’”.