Eu apalpei meus lados, primeiro reconhecendo terreno e depois dando tapinhas sutis nos ombros, como se a vontade dos dedos pudesse afastar a solidão forçada ou os pensamentos desejosos. Não tentaria te explicar as construções suplicantes de Gaudí e nem mesmo o amor perdido quando pronunciou as palavras finais que andam a vagar por uma Barcelona embaçada (eu ia te explicar a modernidade da minha Brasília límpida). A verdade é que poderia me chamar de covarde mas não doeria mais do que a repulsa que já sinto por minhas frases não ditas. Seu barco em linha reta por todos os caminhos que te afastam de mim e também por entre as pernas de outra que talvez não sejam tão macias e confortáveis como as minhas seriam. O que não posso provar e por isso, é apenas uma suposição vaga: essa de que minha vontade é tão involuntária e suprema que todo o meu corpo pensaria ser melhor se fosse dado a ele a chance de te reconfortar. Caso contrário, para nada ele serve, a não ser se permitir glorioso nas noites de imaginação. Meu corpo estremece, ressentido, só de pensar na possibilidade de tal inutilidade ser comprovada. Mas quando a fúria reprime o calafrio, percebo o engano de nós dois, que pensamos tão diferente sobre esse específico assunto. Em oposição a você, penso que a vida não é curta e, em oposição a Pessoa, navegar não é preciso. A vida é a única chance de jogar à maré sua bússola e perder-se infinitas vezes, mais até do que Ulisses. Navegar sem rumo, à deriva, e talvez encontrar mais aventuras do que o necessário. Mais longevidade do que o premeditado e mais pernas, e mais línguas e mais barcos. E definitivamente, não fincar sua âncora em Barcelona. Não a deixe enferrujar, é sempre hora de partir. Porque é preciso navegar, mas de forma imprecisa (até chegar a mim).
18 outubro 2009
17 outubro 2009
Res
Ando abandonada. Por vários sentimentos, principalmente, e também porque às vezes sinto que ser abandonada é ter um passo a frente. Mas esta talvez seja uma covardia claustrofóbica. Apesar de quatro paredes não me assustarem em nada, nem sei como expressar. É lá fora que mora o perigo. Imenso e perturbador que me aflige a ponto de trancafiar-me a romances meia boca e filmes assistidos as pressas madrugada a fora. Não sei nomear a fobia de vida que possuo e todo o melodrama também não me deixa alegre ou contente em ser eu mesma. É como um vazio. E chaves e cadeados me impedem de fugir disso tudo. Porque às vezes acordo sobressaltada de qualquer devaneio e percebo, colérica, que sou humana como qualquer outro. Sem coisas especiais a minha volta ou prévias de amanhã. Apenas essa certeza masoquista de que existe um amanhã que quase me mata de tédio. Certeza absoluta que não parece ocorrer a todos: arrepio de todos os pêlos e respirar confuso. Mas o corpo se acostuma a me forçar a respirar, quando perco assim, por momentos, minha consciência de toque, de vento, de frio ou até de dor. E coisas que me ardem por dentro começam a explodir em minha mente que se sente traída e traidora por acreditar, por um segundo, em experiências extracorpóreas. Ou mais que isso, experiências que vêm de antes. De quando eu não me sentia tão triste por ser somente o mesmo, todos os dias e provavelmente, também amanhã. Com certeza amanhã. Essas experiências que terapia não resolve, que parecem nos levar a resoluções acima do bem ou do mal, resoluções de caráter, posturas sólidas e irrevogáveis. Coisa que não vem de berço, criação ou vivência. Coisa que vem de dentro. É quando me perco nisso que sinto o sol paralisado, esquentando minha face da Terra, fazendo possíveis os pavores das eras que virão, quando não terei mais esse ar enfraquecido nos pulmões e quando o fato de ser humana, como qualquer outro, não amargue esperanças alheias no amanhã. O fato de não ser mais nada colore o mundo nas particularidades sutis que passam desapercebidas aos meus abandonos.
06 outubro 2009
Compleaños
Digamos que são vinte anos, todos corridos como bolas-de-gude no gramado. A mim, e confesso meio tímida, é preferível os anos corridos aos pulos como as pedrinhas achatadas que, jogadas de maneira calculada, tomando por força e distância, e alguns insistiriam também em um pouco de sorte, vão de encontro à água do rio – que nunca será o mesmo, no mesmo espaço e tempo – e pulam serelepes até se curvarem a incrível força da gravidade e se repousarem bem no fundo, local onde se passam todas as armações de Narizinho. Mas, por palpite, acredito que seus vinte anos não são pedrinhas, e sim bolas-de-gude. O que me leva a afirmar que se trata de outro tipo de personalidade - em comparação com a minha - e por esse motivo, nós dois não conseguimos nos compreender nem mesmo pelo espaço de tempo de uma bolinha que perde o rumo no chão desnivelado ou de uma pedra que encontra seu repouso na lama do rio. O que é problema pequeno, frente ao respeito que temos um pelo outro.
Por sorte, eu me desvencilho dos problemas como dos mosquitos que, às vezes, me perturbam o sono (e não entender nossos dias em comum era como um mosquito que me tirava a tranqüilidade do travesseiro). Não tanto por sorte, eu fiz o que achava certo e definitivamente, tomei o caminho mais fácil. Mania antiga, veja bem. Isso graças a bons anos que foram pulados no meu laguinho, como os de perdas e também os anos de super-informação (lê-se 2006).
Esse é meu primeiro desejo para você: que aprenda a esquecer os mosquitos, ao invés de se desvencilhar deles. Porque, afinal de contas, os coitados só vivem, em média, durante um dia. No entanto, te desejo também uma contínua superioridade de caráter e uma coragem sobre-humana, que eu sei que você possui resolutamente em sua personalidade (ao contrário de mim), para permanecer de pé como o dono de calças compridas (metáfora caipira para “gente grande”) que você é, não somente agora devido aos últimos ocorridos, mas desde o primeiro dia que te conheci de verdade. Quero deixar registrados os meus desejos e também o profundo carinho que sinto quando te ouço falar sobre todas as coisas, inclusive meus defeitos confundidos entre as suas paranóias. E também explicar, em um ímpeto de meia-noite, que mais vale essa saudade serena do que os profundos dias de eufórica dúvida que me cometiam quando eu não conseguia entender e expressar meus sentimentos por você.
Simples assim: eu compreendo as suas bolas-de-gude com um respeito que é mais importante do que a aceitação. Eu fico feliz de sentir sua presença nos dias de críticas (que são todos) e mais ainda nos dias em que você aparece de xadrez. Eu quero que se inicie agora uma fase de calmaria jamais sentida por você, primeiro porque você merece e segundo porque tem o meu apoio para isso. E quero que compreenda que sinto inveja das bolas-de-gude, mas que eu me acostumei severamente à brincadeira do rio, o que definitivamente é melhor do que viver a vida como o um iô-iô.
Você me apareceu em um dos momentos fugidios em que a pedrinha encosta na superfície finíssima da água do rio. Como se repele um calafrio, a água repele a pedra achatada que dá um rodopio no ar e volta renovada sem os pavores do último pulo. Eu repeli a super-informação. O que não significa que perdi as lembranças na nova queda.
Bom de te ter por essa bolinha-de-gude, verde assim.
Assinar:
Postagens (Atom)