Brasília desperta em mim vazios a que não sei nomiar. A falta de horizonte me sufoca e acordar com passarinhos me tira a vontade de levantar. Sinto falta de uma poluição mais honesta que arda os olhos como deve ser. Por aqui vivo pouco e somente envelheço porque não há alternativa. O tempo passa sem razão. As pessoas não me perguntam se eu vou bem e eu não ligo a mínima para as pessoas. Enxergo a vida em flashes e só tenho plena consciência de momentos ligeiros carregados de uma felicidade barata, mas não ouso reclamar. Meu nariz não sangra e quando chove o cheiro é bom. Brasília resume-se em odores que me lembram o que eu poderia, mas não vivenciei. A verdade é que tudo tem cheiro do que passou e do que há de vir. A frase: "a vida há de melhorar" me é repetida todos os dias antes de dormir e já está de tal forma em minha cabeça que é impossível duvidar.
O fato é que bebo brindando as curvas do Pe. Eustáquio que fizeram de minhas panturrilhas as únicas partes mencionáveis de meu corpo intocado. O fato é que bebo brindando os semáforos da Savassi madrugada à dentro, desrespeitados e meramente ilustrativos. O fato é que bebo brindando as luzes do Centro, que se estendem em uma Lourdes altiva, da janela da Dani ou da Dai. O fato é que bebo brindando os carros da Avenida do Contorno. Bebo brindando a salada que comia no Conservatório de Música e o açai da Uaice. Bebo brindando aos filmes franceses e as exposições de fim de tarde do Cine Belas Artes. Bebo brindando os semanais campeonatos de truco no Bar do Paulinho. Bebo brindando os porres de vinho em galão e as constantes ressacas curadas em plena Praça da Liberdade. Bebo brindando o Café das Letras e as tardes de prosa com Isabela Farinha. Bebo brindando a Bruna Gil me apresentando seriados, e Lauras, e Maris, e bares, e seu Cirurgia Moral recém-criado. Bebo brindando Pedros, Thiagos, Eduardos e Felipes embriagados entre os meus beijos roubados na Rua da Bahia ou do Espírito Santo.
O fato é que bebo para esquecer que os meus motivos para brindes são de todo íngremes e intocáveis, pois não há nada, nem ninguém, nem momento que me possa pertencer da mesma forma novamente.
Brasília me acerta em cheio e não culpo as cigarras por minha insônia. Não culpo meus pais por meus vícios. Não culpo meus livros por meus silêncios. Não culpo meus amigos por seus receios. Não culpo meu bem por sua desistência.
Culpo a mim mesma por meu desapego, pois o que há de bom em Brasília eu sempre deixo escapar. Mas "a vida há de melhorar" e ai de mim se eu não tiver coragem da próxima vez.
(Escrevi esse texto a algumas semanas atrás. Não me sinto mais assim, por enquanto.)
