26 novembro 2008

Horizonte Distante

Brasília desperta em mim vazios a que não sei nomiar. A falta de horizonte me sufoca e acordar com passarinhos me tira a vontade de levantar. Sinto falta de uma poluição mais honesta que arda os olhos como deve ser. Por aqui vivo pouco e somente envelheço porque não há alternativa. O tempo passa sem razão. As pessoas não me perguntam se eu vou bem e eu não ligo a mínima para as pessoas. Enxergo a vida em flashes e só tenho plena consciência de momentos ligeiros carregados de uma felicidade barata, mas não ouso reclamar. Meu nariz não sangra e quando chove o cheiro é bom. Brasília resume-se em odores que me lembram o que eu poderia, mas não vivenciei. A verdade é que tudo tem cheiro do que passou e do que há de vir. A frase: "a vida há de melhorar" me é repetida todos os dias antes de dormir e já está de tal forma em minha cabeça que é impossível duvidar.
O fato é que bebo brindando as curvas do Pe. Eustáquio que fizeram de minhas panturrilhas as únicas partes mencionáveis de meu corpo intocado. O fato é que bebo brindando os semáforos da Savassi madrugada à dentro, desrespeitados e meramente ilustrativos. O fato é que bebo brindando as luzes do Centro, que se estendem em uma Lourdes altiva, da janela da Dani ou da Dai. O fato é que bebo brindando os carros da Avenida do Contorno. Bebo brindando a salada que comia no Conservatório de Música e o açai da Uaice. Bebo brindando aos filmes franceses e as exposições de fim de tarde do Cine Belas Artes. Bebo brindando os semanais campeonatos de truco no Bar do Paulinho. Bebo brindando os porres de vinho em galão e as constantes ressacas curadas em plena Praça da Liberdade. Bebo brindando o Café das Letras e as tardes de prosa com Isabela Farinha. Bebo brindando a Bruna Gil me apresentando seriados, e Lauras, e Maris, e bares, e seu Cirurgia Moral recém-criado. Bebo brindando Pedros, Thiagos, Eduardos e Felipes embriagados entre os meus beijos roubados na Rua da Bahia ou do Espírito Santo.
O fato é que bebo para esquecer que os meus motivos para brindes são de todo íngremes e intocáveis, pois não há nada, nem ninguém, nem momento que me possa pertencer da mesma forma novamente.
Brasília me acerta em cheio e não culpo as cigarras por minha insônia. Não culpo meus pais por meus vícios. Não culpo meus livros por meus silêncios. Não culpo meus amigos por seus receios. Não culpo meu bem por sua desistência.
Culpo a mim mesma por meu desapego, pois o que há de bom em Brasília eu sempre deixo escapar. Mas "a vida há de melhorar" e ai de mim se eu não tiver coragem da próxima vez.
(Escrevi esse texto a algumas semanas atrás. Não me sinto mais assim, por enquanto.)

21 novembro 2008

Bárbara Kruger makes my day



They're telling the stories that never should be told
They're smoking sad cigarrettes that never should be smoked
I open an old book and I try to read it again
But the dust over my thoughts had gone to my heart, had blown me as it could

20 novembro 2008

Desculpa: 2° dia, de 10.

Eu perdi as estribeiras e vi em você muito poder. Foi com malícia que usei a maça e a língua e os vapores quentes e gelados. Sei que te confundi com os dias em que sorria meu sorriso segredo. Eu também odeio esse sorriso. Minhas palavras não controlo e é de estudos sociológicos que levo minha vida amorosa. Por esse lado, me enxergo mais fracassada do que você.
Olha, não te enganei por completo. Eu quis, durante essas noites, que você viesse ser meu travesseiro e não só isso, mas que estivesse presente nas minhas tardes de calor e de filosofia também. Eu ponderei levar-te dentro de mim: para conhecer meus amigos, meus bares, minhas ruas sinuosas, minhas noites de vinho e lua, meus horizontes de mistérios. Pensei que não seria de todo ruim pois teríamos liberdade e eu respeitaria você. Eu seria leal e nunca me imaginei prometendo isso, mas eu prometi.
Não fiz por mal. Fiquei afobada com o incentivo da perda e o ego a tilintar pedindo por alguma reação. Depois de um tempo, percebi que, mesmo que eu gostasse de você, eu estava era diminuindo seu potencial. Segundo uma grande amiga minha, 'homem é oito ou oitenta' e bem, se você voltasse, nem 0,8 você valeria. Afastei-me de ti e o mundo se aproximou de meus calcanhares. Quase que bato asas todos os dias de manhã. Tenho calafrios na espinha que não sei de onde vêm, meus cabelos balançam me arrancando um sorriso e meu pai me dá bom dia de um jeito completamente novo.
Desculpa por ter te contado meus desvios e ter desviado você em meus contos. Eu não repito esse erro com mais ninguém, porque agora, só me alegra o que é ou tem chances de se tornar real.

Para Mª Fernanda

Transformações acontecem, querida. Ainda que sejam lentas, elas inundam vontades e transbordam nossas ilusões. Quando menos se espera o mundo saí de si mesmo e tudo perde sua essência. Caneta, porta-retrato, Papai Noel. Nada volta a acontecer e não se pode evitar o que há de ser. Têm de se ser.
E querida, existem direções para os seus assobios, mas o vento não vai querer te ajudar. O vento não espelha os odores que desejamos espelhar e não traz de longe o que nos falta na alma. Depois de uma certa idade já não faz mais sentido contar os passos e desenhar moinhos e Dom Quixotes. Existem relógios que não são elétricos e nem todas as pessoas são brancas do olho azul. Essa é a maravilha do mundo.
Pessoas nascem sabendo ser um só animal, não são como os pássaros que às vezes fingem ser gente. Dissimulados que são! Mas você vai ser o que quiser, vai ser várias e há tanto tempo em suas mãos. Querida, encarar pessoas é deselegante e dizer 'olá' não vai trazer ninguém para perto de você. Não se assuste! Você aprende... Envelhecer é uma arte, mas ser jovem é ainda mais difícil. É complicado descomplicar, pois a vida querida, é uma só.
O fim do mundo está dentro de você, querida. Saiba usá-lo quando lhe convir, mas saiba convir a quem lhe usar e saiba ser usada pelo fim do mundo. Coloca seu vestido rosa e sorri com todas as suas covinhas. Quero te abraçar tão forte, mostrar os parques e os calafrios do mundo moderno. Enrole os seus cabelos que eu estou chegando e não acenda ainda o pisca-pisca do Ricardo. O Natal dessa vez, não terá capitalistas de codinome 'bom-velinho'.

17 novembro 2008

Fim da prosa: 5° dia, de 10.

Acho que cansei (e digo que acho porque não cometo mais o engano de usar afirmações). A verdade é que não sinto sua falta aos domingos, não procuro saber por onde anda e não te encontro nos meus desvarios. Sua ausência (ou presença) passa batida a minha percepção. O mundo gira feito peão de madeira que meu primo Jorge colecionava e da minha janela o vento não grita seu nome. Acho que minha vontade adormeceu dentro de mim e ninguém, nem mesmo ‘deus’, sabe se ela acordará. Não enxergo mais aquela coisa que eu queria conquistar em você, não sobrou nada em você que eu queira guardar em minha memória, não tenho mais que te revirar para descobrir palavras não ditas, não te dedico músicas ou prosas. Tudo foi explícito demais. Mas eu continuo triste e mais ainda agora. Pois, de noite, em meu travesseiro, eu tinha o que murmurar e agora (que acho que te esqueci) eu adormeço feito criança em dia de visita ao zoológico. Como é chato acordar descansada e ter de viver o dia em seus mínimos detalhes sem nem ao menos uma razão para o meu mau humor.

Eu explico: gosto mesmo é de ter insônia, de sofrer descasos, de ver a chuva me atrapalhando as madrugadas, de ouvir os ‘nãos’ que a vida me reserva e quando vem essa calmaria eu perco aquilo que me faz humana. Pois sofro sem razão e não há nada mais doloroso do que não nomear a dor que carregamos no peito. Logo encontro outro motivo para sentir um penar mais sôfrego e então a vida será em prosa novamente.

16 novembro 2008

Já é quase Natal: 6° dia, de 10.

Um ano sem espetáculo. Escolhi uma profissão, alcancei a maior-idade, me apaixonei e desencantei, fiz novos vícios, perdi amizades, ganhei algumas, permaneci a mesma. Cansada e calada, Dandara.

No escuro invento histórias e memórias que esqueço de escrever. Dou nome a amores não encontrados e os que perdi não possuem sobrenome. O que eu queria não corro atrás e a vida se prolonga. Para brincar com minha fúria continuo a existir, entre as frases não ditas e os meus pais com suas vidas. Invento motivos para brindes alcoólatras e todo dia é dia de bar. Estraguei os meus sonhos, decapitei minhas vontades e psicólogos diriam que é culpa da fase oral. Minha mãe não acredita em culpa, em matrimônio, em bissexualidade, em fé e eu ainda não me decidi se concordo com ela ou não. Primo pela liberdade, igualdade e condeno à morte a propriedade privada. Pois ter não tem relação com o direito de ir e vir. Não me venham condenando minhas vontades e dando o nome de utopia porque engano seria permanecer calada, com os olhos vermelhos e um pito de cigarro fedendo entre os meus dedos. Afinal, como fede a nicotina e como fede não conseguir largá-la e como fede essa juventude apática. Como fico bêbada quando não há com quem conversar e hoje nada há. Quer me ver sofrer? É só dizer que votou nulo, que Interpol é imitação de Joy Division, que Machado de Assis é chato e que eu sou ingênua demais.

Sinto saudades. É tudo. Não quero mais fazer sentido, pois quanto tempo perdi sendo Dandara. Também odeio pessoas que falam sobre si mesmas em terceira pessoa, mas vocês que me perdoem, pois quanto tempo perdi tentando escrever de um jeito tragável e como traguei enquanto escrevia dessa forma desprezível. Pior de tudo, como que pensei em me mudar só pra que me chamassem de ‘meu bem’? Hoje, desprezo por demais os motivos que levam seres razoáveis a referir-se uns aos outros como ‘xuxu’, ‘neném’, ‘benzinho’, ‘tchuco’, ‘querida’. É como se perdessem aquilo que os faz humanos e se tornassem alvo do capitalismo que cria datas como Natal e dia dos namorados. Já é quase Natal nesse ano sem espetáculo e eu odeio 24 de dezembro.

Quero Janeiro por demais.

12 novembro 2008

Solidão: 9° dia, de 10.

Fui, entre sorrisos e lágrimas, me esconder em outras bocas. Assim, como que brincando com os dias, te esqueci entre as feridas mal curadas do meu ego. Digo sem total convicção, mas ainda assim o digo:

- Vai-te embora, vai-te mesmo, pois eu não entendo nada de amor.

Eu quero arrastar sozinha todo o caminho e quero continuar com a razão invicta porque é assim que os meus méritos hão de surgir. Ninguém usa o amor como troféu. Caso contrário não seria amor e sim outra coisa qualquer parecida com surpresa de menino frente a eco gigante. Nome: amadorismo.

Pois eu gosto mesmo é de ter o que contar. Bebendo os meus goles cumpridos, conto pro mundo das coisas que tenho empilhado e dou sorrisos de moça vivida ou vívida, dependendo da sua linha de entendimento. Ah, e de minhas histórias surgem os frutos para as palavras que se desdobram e escrevo sem receio porquê foda-se se o mundo acabar amanhã. Bem sei que perderia o ‘foda-se’ e o trocaria pela foda acaso o amor batesse a minha porta. Que me perdoem o jeito de moça desbocada, é que não possuo aquilo a que meu pai chama de encanto, mas porque, conscientemente, não quero mesmo encantar a ninguém. Sou pró foda-se à cima de todas as coisas e devo ser a única, pois continuo só.

Discordo do pacto silencioso de cultivar a estupidez, pois cometo, com prazer, a gafe de falar sobre artes, filosofia e política. Quase gozo quando a mim me destinam atenção e só não o confundo com o amor porque aprendi, com os meus livros, que amor acompanha aquele sentimentozinho de posse e nunca que eu quis possuir ninguém. Que fardo seria! No entanto, que possessiva que sou e como que gosto de ser a preferida do mundo e como que gosto quando sou possuída, pois tão rápido passa.

Isso de gostar de ser ouvida já é indício de desvio de conduta, pois como dizia a minha avó, “boa moça é aquela que sabe ser calada e ao mesmo tempo sabe ser obedecida”. Era feminista e não sabia, a minha avó. Meu avô, por esse ou outro motivo, gastava toda a sua aposentadoria em chocolates Lancy para a mulher diabética e eles comiam escondidos na área ou no quintal. A isso dou o nome amor e que ‘deus’ ou a minha memória os tenha, benditos foram.

Lembro-me, que sem pausas, eu gastava horas a fio contando pro meu avô como que fora o meu dia e eu, por assim dizer, fui a única moça vívida, desbocada e faladeira que ele amou. Minha avó era de uma mudez sincera e nunca que a vi chorar. Aquela fineza me machucava feio. Depois de tantos anos de saudade eu aprendi que amor não é aos gritos, mas na pergunta fácil:

- Você prefere pão de queijo ou biscoito de polvilho, minha filha?
- Eu prefiro o biscoito vó.

E lá ia ela queimar-se no olho quente, na cozinha em que criança não pisava, mas que tinha aquele cheiro mineiro que nunca mais vou sentir. A isso também dou o nome de amor.

Ao fato de te deixar partir, dou o nome de cansaço e digo com convicção:

- Vai-te embora, vai-te mesmo, pois eu não entendo nada de persistência.

Só para constar: eu nunca mais na minha vida espero por você novamente e eu nunca mais na minha vida conto pra outro alguém as coisas que confiei a você. Mais uma vez eu vou fugir para onde o ‘foda-se’ não me magoe tanto e quando eu voltar nós não vamos nem mais sentir essa pedra que colocamos entre nós. Não vai mais me doer seus três, quatro ou sete meses. Não vai mais me abalar a casa vazia e eu não vou me embebedar pois sua presença nem vou sentir.

Eu nunca que quis te possuir, pois ah, como seria fácil viver.