19 outubro 2013

Booooooooooom

Colocaram uma bomba na minha cabeça. A boa notícia é que ela não causa enxaqueca, nem por um dia. Às vezes, muito pelo contrário, faz com que eu tenha ainda mais clareza para viver. Ela não tem um cronômetro e nem tem fios verdes e vermelhos. Isso me faz pensar, em meio à um suor gelado e amedrontador, que talvez ela também não possa ser desligada. Não dá pra chamar um conhecedor de bombas, ou sabe-se lá qual o nome deste profissional, para apertar um botão ou desabilitar alguma coisa arrancando de mim essa ansiedade sem fim. Essa espera. O que se pode fazer, apenas, é esperar o dia, fatídico dia, em que ela explodirá e com ela cada fragmento de conhecimento ou inutilidade guardado em minha caixola voará pelos ares.

Li em algum lugar, ou vi, ou ouvi, sabe-se lá, que a espera é a pior sensação possível. É pior do que a dor. Você sabe que a dor acabará ou então você morre. E você também sabe que a vida acabará, portanto morrer não é o pior dos quadros. Enquanto isso, a espera não tem prazo de validade. Ela apenas enebria e escraviza. Esperar é como se viciar. Sentimos que, assim que ela acabar, a vida valerá a pena novamente. Abraçamos a espera e a chamamos de esperança. Esperar é pior do que morrer e viver esperando é tudo o que nos sobra quando já estamos sem motivos.

12 agosto 2013

A ferida que sangra por nós

Coçar e abrir as próprias feridas é absolutamente banal. Eu te disse isso um dia, quando perguntou dos machucados nas minhas cutículas. Eu disse que é um comportamento natural. Mas você jurou nunca arrancar a casca dos seus machucados. Afora você, as crianças de todo o mundo fazem e procuram as mães quando a carne, fresca carne, aparece vermelha e sangrenta. Dizem para as mães que não fizeram por mal, que não sabiam que iria arder tanto. No entanto, no próximo machucado ou picada de mosquito, coçam novamente. Abrem novamente. Contemplam a ardência e se arrepiam por conta dela. Um comportamento que levamos para a vida adulta.

Este singelo ato masoquista piora veementemente quando assumimos para o outro as nossas fraquezas. Afinal, o outro passa a ter o poder de abrir novas feridas em nós, por sadismo, simples conveniência e/ou vaidade. Causamos a dor para nos sentirmos capazes de causar a dor. Ver a ferida que causamos no outro coçar faz com que sintamos uma ponta de excitação. É uma ferida que sangra por nós. Desespera-me saber que nunca alcançarei esse sentimento se continuar ao seu lado, pelo simples fato de que você não coça as suas feridas. Logo, a cicatrização de qualquer mal que eu seja capaz de te causar será muito mais rápida do que a cura dos males que você me causar. Um erro de cálculo que eu deveria ter percebido antes, meu bem.

10 maio 2013

Sobre o feminismo de gaveta

Apenas para deixar claro: eu sou uma feminista que acredita no amor romântico. Com isso, não estou dizendo que acredito em contos de fada, apenas que acredito em duas pessoas amando, juntos, um a imperfeição do outro.

Porém, acredito e sonho, principalmente, com a realização da mulher. E uma mulher realizada NÃO É sinônimo para uma mulher acompanhada e apaixonada. Uma mulher realizada NÃO É uma mulher "em um relacionamento sério". Porque isso tudo tem a ver com situação, é um estado. Mais uma vez, me foi jogado na cara o velho e cruel sistema patriarcal de sempre, sendo legitimado no mais disfarçado discurso. Uma mulher que acredita que felicidade está relacionada a vida a dois. Não a culpo. Por mais que tenhamos acesso à informação crescente e participemos de discussões sobre gênero; abraçar os valores patriarcais é uma maneira mais fácil de ser aceita.

Este é um texto sobre a feminista de gaveta, um tipo comum que pode até nos enganar em um primeiro momento. Explico como ela é, para que você, querido leitor imaginário, não se deixe enganar. A feminista de gaveta sabe o que é o feminismo e o prega, mas não o pratica. O grande problema é que ela nem sequer percebe que não o pratica, tornando-se assim uma feliz integrante do grupo crescente de brasileiros que praticam a hipocrisia nacional.

A feminista de gaveta já leu Simone de Beauvoir, Pizan e admira Frida Kahlo. A feminista de gaveta é interessante já no primeiro diálogo, é liberal, porém sutil. Os homens pensam "essa não vai me preparar o almoço, mas pelo menos não é 'chata' e vai topar um à três". Isso homens que, para todos os efeitos, conseguem um desempenho mediano na cama com a parceira de sempre, mas realmente acreditam que seriam capazes de satisfazer duas mulheres, ao mesmo tempo. Mas vamos falar de uma figura redícula de cada vez... Voltando a feminista de gaveta, ela consegue lidar com homens machistas e também consegue travar diálogos com os mais sensíveis, engajados e raros, muito raros. Entretanto, como o próprio nome diz, a feminista de gaveta guarda o feminismo enclausurado. A feminista de gaveta é aquela que nunca fica sozinha, mesmo jurando ser capaz. É aquela que está sempre ou muito feliz ou em completa desgraça por causa de alguém que ela jura que ama. É aquela que diz que as coisas acontecem e que realmente acredita que suas escolhas são baseadas na sua suprema liberdade. Liberdade de escolher o homem que lhe convém, mesmo que esse homem seja o machista que ela promete detestar.

10 abril 2013

Inspiração do dia




Hoje a inspiração veio do blog de uma amiga querida, o Goldenland.

Pasmem, mas essas fotos foram divulgadas na fanpage de uma imobiliária francesa no Facebook, a John d’Orbigny. São imagens raras do Louvre antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial. No Goldenland, Mauricio Massano explica que "com o medo de saques, durante os anos de 1938 e 1939, obras como a Monalisa, Vênus de Milo e a Vitória de Samotrácia foram encaixotadas, transportadas em comboios e escondidas dos alemães".

Lindeza pra esse fim de quarta-feira.

09 abril 2013

Ode ao transporte público


Quando eu fiz 18 anos eu não ganhei um carro. Os meus amigos - os de Brasília, ao menos - já o tinham. Eram todos mais velhos do que eu. Levou alguns anos para que eu me convencesse que não é natural andar de carro. Não é como se alimentar e eliminar resíduos. Não é como respirar e dormir. É uma necessidade criada, resultado da falta de iniciativa dos Governos em transformar nossos impostos na efetivação do direito sagrado de ir e vir. Mas a verdade, a cruel verdade, é que em Brasília, não são todos que podem ir e, mesmo se forem e chegarem, não terão como voltar.

O transporte público em Brasília funciona para manter o trabalhador em uma rotina casa-trabalho e às vezes, faculdade. Sair de noite? Só se for voltar antes das 23h. Porque a maioria dos ônibus deixa o ponto final à meia-noite e quem é que vai se arriscar a esperar o último deles? Além disso, há lugares que simplesmente foram planejados para que os abastados de quatro rodas não conseguissem chegar. Os exemplos são vastos, desde a Nova Torre Digital; passando pela Ermida Dom Bosco até as boates do Setor de Indústrias e Automóveis. Ou seja, eu, sem amigos, não teria conhecido nem metade dos bares, dos lares, dos teatros, das vicissitudes dessa cidade. E aqui incluo a minha singela gratidão.

Por muito tempo pensei que o motivo crucial para que Brasília ainda não fosse considerada minha e por mim era porque minha liberdade era limitada a telefonemas e mensagens toda vez que quisesse sair nos finais de semana. Isso porque também se trata de um lugar onde uma viagem de 7 km dentro de um táxi, custa R$ 25. Às vezes, eu queria sair e estar sozinha. Foi aí que eu ganhei um carro. E aqui também incluo a minha singela gratidão.

Entretanto, não esperava a indiscriminada falta de educação e de solidariedade que encontrei no trânsito de Brasília. E me lembrei desse texto e de como não há nenhuma "paciência", "respeito às diferenças" ou "altruísmo" quando você está de porte de um carro. Em ônibus ou no metrô, principalmente para quem segue uma rotina, encontramos pessoas que passaram por situações semelhantes às nossas. Às 22h15 de todos os dias úteis tenho apenas duas opções de ônibus para voltar para a minha casa, o 107 ou o 102. Como o destino final do Circular 107 é a Rodoviária do Plano Piloto, o coletivo está sempre cheio de estudantes e pessoas que moram nas asinhas do avião. Mas o 102 é uma novidade constante. Já encontrei bêbados e pedintes; travestis e muitos, muitos tipos diferentes de trabalhadores. Eu não conheço o destino final do 102 e nem sei de onde ele vem; mas a solidariedade que sinto por cada um desses brasileiros que passam por aquela roleta com a expressão de cansaço no rosto é incomparável.

Em ônibus já conversei com todos os tipos de pessoas. Já comprei até pequi e jambu. Já ouvi tocarem viola, violino e flauta. Já ouvi comediante que me fez rir, de verdade. Tudo isso enquanto ia ou voltava do trabalho/universidade. Também já peguei ônibus de carona, depois de perder o dinheiro da passagem. Tudo pode acontecer dentro de um ônibus/metrô. A cidade se encontra e é muito bom se sentir pertencente a esse sistema chamado cidade; enxergar as sutilezas, como as cores das sombrinhas das pessoas que esperam em paradas de ônibus; reconhecer faces conhecidas em filas na Rodoviária; ler as intervenções artísticas e às vezes, até as pixações, que são de uma verdade que nos estapeia. Andar de ônibus me faz sentir mais humana, mais semelhante aos meus semelhantes, vocês vejam só. Vejam também mais sobre este assunto aqui.

Pena, muita pena, que o descaso seja tanto. Mas nem por isso devemos parar de lutar. Escrevo esse texto porque gostaria que todos os meus amigos passassem a lutar pelo transporte público de Brasília. Não é porque não o utilizam mais que ele não diz respeito à vocês e também porque desejo que possam encontrar a paz de um fim de tarde em um ônibus, vendo a tarde caindo, as nuvens mudando de cor. O que, definitivamente, não podemos fazer quando há alguém colado no nosso fundo.

Aqui seguem algumas ações para melhorar isso que o brasiliense é obrigado a chamar de "transporte público":



Que Ônibus Passa Aqui serve para informar os usuários do transporte público que linhas passam em cada ponto através de um adesivo, onde as pessoas podem escrever nele as informações sobre as linhas. Todos podem colaborar. Basta imprimir o adesivo e colar nas paradas de ônibus. A ideia é que cada pessoa que passar pelo local anote as linhas de ônibus que podem ser pegos.

Aqui também é possível assinar uma petição pedindo para que o metrô de Brasília funcione 24 horas. Vamos lutar porque vai que um dia, finalmente, ele chega até a Asa Norte? E além? Não custa sonhar - e lutar por e para quem usa os trens todo santo dia.

E aqui o blog Transporte Público no DF com várias dicas interessantes para quem, como qualquer não-brasiliense, fica perdidinho nessa cidade de Super Quadras e Setores, múltiplos setores.

*Foto: "Through the bus window",  da Galeria de M. T. Sullivan, que tira fotos lindíssimas com o dia-a-dia das pessoas



02 abril 2013

Não há mais um trevo no meu jardim

Se encontraram, finalmente, mas foi como se não se conhecessem. Durante minutos de silêncio ela ficou imaginando o que poderia falar para quebrar o desconforto. Depois chegou a conclusão de que essa não era sua responsabilidade. Pelo menos não unicamente sua. Lembrou-se dos silêncios confortáveis e, por fim, se rendeu e passou a acreditar que não havia ali mais nenhum sentimento a ser revirado. "Às vezes ficamos remoendo a ferida para vê-la sangrar e inflamar", pensava enquanto imaginava os ralados de quedas de bicicleta ou o walkmachine da infância ou o skate da adolescência. A casquinha que ficava e que amava arrancar com as unhas mal cortadas. Naquele desconforto sentia o mesmo masoquismo.

"Pura mentira, mentira infantil", repassava na cabeça os acontecimentos da noite enquanto voltava para casa de carona. Por longos trechos da conversa que a conduziu até sua casa, tentava lembrar de qual argila e qual argamassa construiu aquela amizade que, naquele dia, parecia página virada do diário. Do diabo. Ela, sozinha, virando a chave de casa. Um casal de mendigos morando próximo ao seu prédio. "Vai ver são amigos", pensou. E pensar nessa amizade a fez lamentar o fim da sua. O fim.

Subia as escadas como quem se rende ao inevitável. "Não tem muito o que eu possa fazer", não tem. Se as pessoas as quais destina seu afeto não o querem mais, não lamentam por sua ausência, não comemoram a sua presença, não há muito o que se possa fazer, realmente. A realidade a atingia. E os 14 lances de escada pareciam a penitência de um cristão desavisado.

A luz da sala estava acesa e a bagunça à vista combinava com o momento. Abandonar também significa se amar. Abandonar aquela casa, abandonar aquela cidade, abandonar aquele que foi seu melhor amigo. Tudo isso significaria, um dia, a redenção. A esperança em um futuro melhor. O amanhã. "Se já abandonei outras pessoas antes e à essa dor sobrevivi, porque seria diferente agora?", perguntava mais para fora do que para dentro.

Para dentro do quarto o escuro era certo pois o eletricista não veio no dia combinado. Deitou-se em sua cama, antes mesmo de escovar os dentes e tomar o banho da madrugada. Ficou olhando para o teto do quarto, esperando por um sinal. Como se não nos conhecêssemos. "Não vou me enganar e como outros achar que as migalhas de sua atenção representam o você inteiro". Ela não queria mais fingir, queria falar, olhando em seu olho, que aquilo já não podia mais. "Se você não se ama, eu te amo e te acho um covarde por não saber lidar com isso, com quem você é e gostaria de ser. Quem você é?"



Essa música é para você, trevo do meu jardim.

When will you accept yourself, for heaven's sake? 
Anything is hard to find
When you will not open your eyes


26 março 2013

25 março 2013

Seu direito de dizer e ser

Pesquisa do Ibope demonstra que quase metade dos brasileiros são a favor do casamento gay (43%) e mais da metade acredita que casais homossexuais devem ter o direito de adotar crianças (57%). Mas, enquanto isso, dos que se declararam homossexuais - 165 em um universo de 2363 -, 31% deles não assumem a orientação sexual para a família por medo de rejeição*.

Isso nos faz pensar. Semana passada uma notícia deu o que falar: o Universo é um pouco mais velho do que se imaginava. Os cientistas, usando desse dom inestimável que é fazer ciência, recalcularam a idade do cosmo e descobriram que, na verdade, ele existe há 13,8 bilhões de anos. Eu sei que nós não conseguimos compreender valores em bilhão nem mesmo quando falamos de dinheiro e jornalistas dão barrigadas constantes ao confundir milhão com bilhão. O problema está, inclusive, em manuais de redação. Portanto, taí um valor que não se ouve todo dia: o cosmo existe há 13,8 bilhões de anos e a expectativa de vida do brasileiro em 2012 foi de 74 anos e 29 dias. Percebe a força disso?

Ainda melhor. Percebe a insignificância dos nossos 74 anos de latinidade? Enquanto as manchetes de jornais e as compartilhadas do Facebook continuam se voltando aos casos de intolerância que, infelizmente, atingem também a vida política do nosso país; o brasileiro - segundo esta pesquisa - estaria pronto para responder a um plebiscíto dizendo que sim, homossexuais devem ter direito a adotar e casar e ser eternamente felizes.

Claro que podemos ressaltar que a pesquisa foi feita pela internet, é uma amostragem e talvez não represente, realmente, o que o brasileiro pensa. Mas eu, como sempre, prefiro acreditar que as boas notíciais existem. Mesmo porque, ainda hoje, enquanto fazia a unha no salão de beleza, duas carochas estavam falando sobre uma missa que uma delas assistiu na TV.

(Católica Loira) - Na propaganda o padre dizia que ia revelar segredos da Igreja, mas ele só falou que os católicos eram hipócritas, que ele às vezes sentia inveja dos evangélicos, porque eles sim falam o que pensam!

(Católica Morena) - Ele disse que os católicos deviam ser evangélicos?

(CL) - Não. Ele disse que os católicos deviam falar mais vezes e com mais enfâse o quanto são contra o casamento gay ou a adoção de crianças por casais gays. Achei um absurdo, se ele quer ser pastor, que vire pastor.

(CM) - É estranho mesmo. Como se Deus se importasse com esse tipo de coisa.



Eu, que não acredito em Deus, fiquei muito feliz ao ouvir esse diálogo. Porque eu, que não sou gay, acho que não precisamos ser homossexuais para acreditarmos que a vida deles não nos diz respeito. Eu não preciso acreditar em uma força suprema para defender que as pessoas tenham direito à fé. E as pessoas que tem fé, não precisam se sentir melhores do que eu, com minha absoluta falta de chão, de céu e inferno. O eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo precisa evoluir para o eu aceito o que você diz e é, defendo o seu direito de dizer e ser. E olha, minha gente, talvez esse dia esteja mais perto do que imaginávamos.

Ainda não é motivo para se comemorar. Mesmo porque, sabemos que o número de assassinatos de não-heterossexuais quase triplicou nos últimos cinco anos, tendo um acréscimo de 26% somente em 2012. Foram 336 mortes, dentre as quais 188 eram homens homossexuais, dois bissexuais, 19 lésbicas, 128 travestis e também se incluiu o caso de um jovem heterossexual que foi assassinado por um grupo de radicais que o confundiu com um gay. E esse ódio ainda está presente na publicidade, nos produtos audiovisuais e no discurso de pessoas próximas à nós. Esse ódio também está na ausência; ausência do gay em filmes que não tenham temática gay, por exemplo. Ou gays que não sejam estereotipados. Os gays que pagam contas, como todos nós e declaram o imposto de renda. Sabe? Esses gays que comem pão francês e arroz e feijão.

Apesar desses pesares, é preciso esperança. Porque mesmo com um discurso velho de homofobia/machismo que continua se reerguendo nas novas gerações sob máscaras grotescas como o Orgulho Hetero; também há uma nova leva de gente humanista fazendo a sua voz soar mais alto do que nunca. Sei disso pelas pequenas coisas que se transformam em gigantes no cotidiano das pessoas. Como a minha vizinha lésbica de 17 anos, cuja namorada vai ao supermercado com a sogra. Como o filho de uma conhecida, que beijou um coleguinha na pré-escola e não foi descriminado por isso. A professora avisou aos pais e os dois ainda são melhores amigos. E a reação dessa criança que nunca sai de moda.





Foto: Azedume
* Uma ótima reportagem sobre este assunto - por incrível que pareça - pode ser encontrada aqui

23 março 2013

20 março 2013

Hoje não é dia de Maria

Aproveitando a famosa hashtag #nãomerepresenta, gostaria de usá-la também para falar sobre a imprensa brasileira. Não representa a mim e nem a Dona Maria. A Dona Maria Aparecida que faz a bainha das minhas calças e cobra R$ 5, ao invés dos vinte pilas que cobram na minha quadra. A Dona Maria do Carmo, minha mãe, que estudou para e sonhou em ser professora, mas que acabou pegando uma vaga no departamento de RH de um órgão público para que o zero a mais na fatura do cartão de crédito não continuasse tirando o seu sono. A Dona Maria do Rosário, ministra, constantemente diminuída. Ou a Dona Maria  Filomena, aposentada, que em 2011 passou três meses no Hospital de Base esperando uma perna mecânica que o Governo do Distrito Federal (GDF) se recusava a dar. E essa espera representou gangrena na perna amputada, uma pneumonia e outros germes.

É por essas Marias que eu sofro. Nessa manhã o meu travesseiro acordou ligeiramente molhado porque, mais uma vez, a escolha da minha profissão me tirou a paz de espírito. "Não basta sonharmos se não conseguiremos nos manter firmes nesses sonhos", ficava repassando em minha mente. E é cruel quando se percebe em uma noite fria que os seus sonhos, na verdade, são utopias. Que o mundo que você deseja jamais existirá e que, por mais que suas intenções tenham sido verídicas, elas se esfarelam na mecânica precisa do sistema. O meu trabalho, o que desejo falar para o mundo, não encontrou e nem encontrará o seu espaço.

Como me disse uma amiga de profissão recentemente, "não custaria tanto mais tempo fazer um jornal direito". Mas, enquanto esse dia não chega, me custa muito sofrer todos os dias por um jornalismo que não me representa e nem representa o Brasil que sonhei para nós, brasileiras e brasileiros.

18 março 2013

Primárias, secundárias. Alegria em cores.


Neste domingo, 17 de março de 2013, presenciei um dos eventos mais tolos da minha vida. Mas também um dos mais agradáveis. Porque não é só pelas mazelas que o mundo encontra seu eixo e continua a rodar. Só nos falta o tato para perceber isso mais vezes. E em cores primárias e em viva memória assim, a vida faz sentido novamente.

Guerra de Tintas no Parque da Cidade de Brasília.

Foto: Galeria Ai, que giro!

17 março 2013

Além da Fé

Posso contar nos dedos da mão a quantidade de filmes romenos que assisti na vida e não preciso do indicador para apontar um que eu não tenha gostado. Entretanto, é uma escolha difícil essa de assistir filmes romenos. Todos eles foram de um realismo bruto, um tapa sem luvas na minha face despreparada. Hoje não foi diferente.

"Você não sabe que Deus é tudo o que você precisa, até que você só tenha Deus"



O protagonista é a ignorância. Essa mesma que nos leva a rejeitar o próximo por não conseguir compreendê-lo e nem ao menos tentar. Com planos longos, diálogos densos e interpretações impecáveis, "Além das Montanhas" nos leva à compreender que a ignorância é sim uma das maiores bençãos nesta terra e uma benção reforçada pela religião. É claro que ela é capaz de causar tragédias, mas também acalenta nossos corações e nos ajuda a esquecer a culpa, tão natural ao ser humano.

Alina (Cristina Flutur) e Voichita (Cosmina Stratan) cresceram juntas em um orfanato. Com a chegada da maioridade, precisaram encontrar outro lugar para fazer sua morada. Enquanto Alina vai trabalhar como garçonete em um bar na Alemanha, Voichita vai morar em um monastério da igreja ortodoxa. O conflito se estabelece quando a primeira decide visitar a segunda - e levá-la consigo e para si.

A impossibilidade do amor entre as duas convive lado a lado com o fanatismo religioso. O que, durante a adolescência, floresceu entre elas já não pode mais se manifestar, pois Voichita está convencida de que sua adoração deve ser destinada somente à Deus. Em certo momento do filme, ambas se colocam em uma tríade com a Igreja. Alina, obcecada por Voichita e sem conseguir apoio psicológico na medicina, na família, no amor ou na religião; desenvolve um comportamento perturbador que é confundido pelo núcleo religioso como uma possessão demoníaca. Enquanto isso, o objeto de seu afeto -  personificação da fragilidade - apesar de estar desconfortável se mantêm apática às atividades exorcistas aplicadas em sua melhor amiga/amante.

A tragédia está anunciada. A sequência final do filme, muito bem realizada pelo diretor Cristian Mungiu, demonstra como a vida continua. Outras fatalidades acontecem, a cidade está em obras, as crianças vão para a escola e a neve do inverno começa a derreter, transformando-se na mesma lama de sempre. E aqueles que participaram do exorcismo encontrarão em seu Deus o perdão e na ignorância a resignação.



* Este é o terceiro filme de Cristian Mungiu e foi baseado em fatos reais ocorridos na Romênia em 2005. O caso foi relatado no livro da jornalista Tatiana Niculescu Bran. Por "Além das Montanhas", Mungiu venceu a Palma de Ouro de melhor diretor em Cannes de 2012 e ainda troféus para as protagonistas, Cosmina Stratan e Cristina Flutur, e o de melhor roteiro. Também figurou entre os nove candidatos ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas foi excluído na lista final.

Galeria de aiquegiro

<3Fora CollorFestival das Cores?LuzMontadaVermelho
Para cimaSemprePara todosAs armasGuerreirosDireto
Vodka ouSkatistaNajuÀ mostraVerde águaAos meus
LinceMaravilhosasBabi, amorosaHavaianasPaixão pela vidaBebê

Vamos além

15 março 2013

A gente somos inúteis


Último dia de aulas práticas. Amanhã é o dia em que será decidido se terei licença para conduzir ou se continuarei passando 40 minutos nas paradas de ônibus dessa Capital do Brasil, Capital do pior transporte público que já vi e, provavelmente, verei. Muito contente com uma série vitoriosa e geometricamente perfeita de garagens, sou surpreendida com a seguinte frase:

- Olha, amanhã, se você parecer nervosa, pode aparecer uma pessoa que te oferecerá R$ 300 para te passar na prova.

Obviamente, eu sabia que isso existia. Como sei que existem esquemas de todos os tipos, como alterar a bomba da conta de água, muito comum de onde eu vim. A questão é, por que nos sentimos no direito de exigir uma postura exemplar daqueles que nós mesmos escolhemos para nos representar se a corrupção nos cerca diariamente e não fazemos nada em relação a ela?

É a mesma história da criança que vê a mãe não devolver o troco errado na loja de conveniências e depois aparece em casa com um brinquedo que não é seu. Tem mãe que percebe, tem mãe que mal vê. Faça o que eu digo e não o que eu faço.

Ou a forma como nos colocamos em um altar tão superior que os erros dos outros não parecem atingir a nós mesmos. Quando eu estava na sétima série do ensino fundamental descobrimos que um colega era cleptomaníaco. Digo que descobrimos porque fizemos uma emboscada para ele. Emboscada que continuou sendo relembrada até o último dia de aula, quando o colega saiu da escola. Nós - os roubados, as vítimas, as pobres criaturas que perderam gameboys - vitimamos o autor do furto e transformamos um caso simples em um incidente constante de bullying. Um caso simples porque o colega precisava de ajuda e não de discriminação.

Nós que furamos filas; que pegamos a vaga do motorista da frente que já estava dando seta; ou a vaga destinada a idosos e pessoas com necessidades especiais; que achamos carteiras e devolvemos os documentos, mas não o dinheiro; que não assinamos a carteira de trabalho das nossas secretárias do lar; que sonegamos impostos. Nós, humanos e brasileiros, a qual corrupção nos opomos?


País rico é país sem hipocrisia.

Esclarecimentos antes das pedradas: Longe de mim ir contra as marchas ou qualquer iniciativa que tire a bunda dos brasileiros do sofá. Mas desejo também por uma população que sabe pelo que reclamar. Uma população que não é inocentemente e unicamente pautada pela imprensa. Um povo que se motiva e se opõe aos comportamentos de ética duvidosa como um todo, não somente quando lhe convém. É óbvio que sou contra o voto secreto de parlamentares e sou a favor da ficha limpa. É claro que gostaria de uma bancada mais plural, com políticos mais humanos. Gostaria que os crimes de desvio de verba pública fossem seriamente punidos e combatidos. Para mim, um governante que rouba dinheiro da educação ou da saúde é um sério candidato à piscicopatia. Entretanto, contudo e porém, é igualmente viciante nos contentarmos em marchar contra a corrupção, pedirmos por dignidade e honestidade; quando o cerne da questão encontra-se em nossas atitudes do dia-a-dia e claro, na atitude de descaso que leva um eleitor a anular o seu voto ou não se informar quanto ao seu candidato. É esse mesmo eleitor que diz "todo político é corrupto" e fura fila no supermercado.

Foto 1: "Ser contra um movimento é ainda fazer parte dele", disse esse Picasso de peito estufado.
Foto 2: O Globo



14 março 2013

Não mais


Eu queria ter mais tempo. Ou ao menos voltar ao tempo em que eu queria ter mais coisas para fazer. É normal que sempre queiramos as coisas que não temos, eu o sei. Mas é que, nesse momento, o querer é tão sofrido que não é desejo de consumo, por exemplo. Eu queria ser mais eu, ter tempo de decifrar ainda mais esse eu. Esse eu que anda por aí sorrindo e às vezes até gargalhando. Mas também esse eu que não se arrisca, a Dandara arisca. Esse eu calado, esse eu que não me pertence mais.

Eu queria ter mais tempo para me identificar nos personagens que não criei, nas músicas que não compus, nos filmes que não gravei. Eu queria ser uma dessas pessoas que decora os trechos preferidos dos livros por ter lido esses livros vezes demais. Mas eu sou uma dessas pessoas que chora com os livros, mas os guarda na estante e até se lembra da emoção que sentiu, mas não como se lembrasse do primeiro beijo ou do primeiro amor. É como lembrar que almoçou algo bom, mas não saber o que foi. A minha vida me parece o almoço de ontem, me alimenta, mas não me marca mais.

Foto: Shelby Tanner 

21 fevereiro 2013

Responsável


Vamos falar sobre responsabilidade. Não importa o quanto você já a tenha, ela há de aumentar. Até que fique maior que sua altura, até que já não caiba mais nos espaços fechados por onde anda, até que te faça curvar para tudo e todos. Você se submete tanto até o momento em frente ao espelho em que enxerga apenas a responsabilidade no canto dos olhos, entre as sobrancelhas e em volta da boca.

Sobre a responsabilidade que não deveria ser nossa, mas ainda assim, o é. Como um parasita que, uma vez depositado em nossas entranhas, passa a querer se alimentar mais e mais de nossa saúde até inflamar o organismo todo ou como um simples apêndice, que existe, porém, não deveria.

Sobre a responsabilidade de sermos quem somos. E até querermos ser o outro, às vezes e o tempo todo. A grama do vizinho, a cama do vizinho, a lama do vizinho. Mas somos quem somos, desde sempre e quem somos? Somos todos incompletos, mas precisamos completar o nosso tempo, o nosso currículo, o nosso bolso. Falemos de um precipício e não o chamemos de covardia.

Foto: Eleonora

05 fevereiro 2013

Disk-intimidade


Acabei de me inscrever em um aplicativo do Facebook chamado BangWithFriends. Sem mais explicações, é uma rede para amigos que buscam outros amigos com benefícios. Falando com sinceridade, não sei como me sinto em relação a isso. São pensamentos difusos. Ao mesmo tempo que quero ser muito moderna quanto a possibilidade do sexo fácil, me pego pensando nos valores que criamos ao nos submetermos a esses benefícios da pós-modernidade. Quando digo valores, não me refiro aos moralistas, mas ao apreço que sentimos pelo outro, ao respeito e também ao tesão - e aqui suponho que, como eu, todos concordem que o tesão é um valor e vai além do ato sexual.

Que haja sexo pelo e por sexo, que haja o prazer em todas as formas que o homem - e a Mulher, com M maiúsculo - achar conveniente. Que o prazer escancare à nós todos o motivo pelo qual estamos aqui. Que esse contorcer dos dedos, arrepiar dos pelos, suor e saliva nos suje e nos limpe cada vez mais. Que morramos de tesão todas as noites e nas manhãs seguintes, antes de ir para o trabalho. Por que não? Que o sexo encontre uma morada saudável no cotidiano das pessoas. Exatamente por ser tão natural quanto comer quando se sente fome. 

Porém, o que esperar daquilo que nos surge ainda mais fácil do que o alimento que nos faz resistir e sobreviver? Estaríamos, por fim, reduzindo ao mínimo o ato que, como já disse, pode também representar o motivo pelo qual nos encontramos no mundo? Será mesmo o homem/mulher "estômago e sexo"¹? E quanto ao algo mais? Aquilo que levamos para cama após o ato sexual, os assuntos, os silêncios, os cigarros de nicotina ou maconha, as risadas; enfim, a intimidade. Estaremos com tanto medo daquilo que somos e daquilo que se transforma dentro de nós quando deixamos a intimidade entrar ao ponto de usarmos subterfúgios para evitá-la de uma vez por todas? Porque não há nada menos pessoal do que um disk-sexo e eu encontraria muito mais intimidade - e tesão - sozinha, nos meus próprios lençois. 

O sexo, esse é superestimado. Mas a intimidade, meu amigo, essa nunca me decepcionou.