15 março 2013
A gente somos inúteis
Último dia de aulas práticas. Amanhã é o dia em que será decidido se terei licença para conduzir ou se continuarei passando 40 minutos nas paradas de ônibus dessa Capital do Brasil, Capital do pior transporte público que já vi e, provavelmente, verei. Muito contente com uma série vitoriosa e geometricamente perfeita de garagens, sou surpreendida com a seguinte frase:
- Olha, amanhã, se você parecer nervosa, pode aparecer uma pessoa que te oferecerá R$ 300 para te passar na prova.
Obviamente, eu sabia que isso existia. Como sei que existem esquemas de todos os tipos, como alterar a bomba da conta de água, muito comum de onde eu vim. A questão é, por que nos sentimos no direito de exigir uma postura exemplar daqueles que nós mesmos escolhemos para nos representar se a corrupção nos cerca diariamente e não fazemos nada em relação a ela?
É a mesma história da criança que vê a mãe não devolver o troco errado na loja de conveniências e depois aparece em casa com um brinquedo que não é seu. Tem mãe que percebe, tem mãe que mal vê. Faça o que eu digo e não o que eu faço.
Ou a forma como nos colocamos em um altar tão superior que os erros dos outros não parecem atingir a nós mesmos. Quando eu estava na sétima série do ensino fundamental descobrimos que um colega era cleptomaníaco. Digo que descobrimos porque fizemos uma emboscada para ele. Emboscada que continuou sendo relembrada até o último dia de aula, quando o colega saiu da escola. Nós - os roubados, as vítimas, as pobres criaturas que perderam gameboys - vitimamos o autor do furto e transformamos um caso simples em um incidente constante de bullying. Um caso simples porque o colega precisava de ajuda e não de discriminação.
Nós que furamos filas; que pegamos a vaga do motorista da frente que já estava dando seta; ou a vaga destinada a idosos e pessoas com necessidades especiais; que achamos carteiras e devolvemos os documentos, mas não o dinheiro; que não assinamos a carteira de trabalho das nossas secretárias do lar; que sonegamos impostos. Nós, humanos e brasileiros, a qual corrupção nos opomos?
País rico é país sem hipocrisia.
Esclarecimentos antes das pedradas: Longe de mim ir contra as marchas ou qualquer iniciativa que tire a bunda dos brasileiros do sofá. Mas desejo também por uma população que sabe pelo que reclamar. Uma população que não é inocentemente e unicamente pautada pela imprensa. Um povo que se motiva e se opõe aos comportamentos de ética duvidosa como um todo, não somente quando lhe convém. É óbvio que sou contra o voto secreto de parlamentares e sou a favor da ficha limpa. É claro que gostaria de uma bancada mais plural, com políticos mais humanos. Gostaria que os crimes de desvio de verba pública fossem seriamente punidos e combatidos. Para mim, um governante que rouba dinheiro da educação ou da saúde é um sério candidato à piscicopatia. Entretanto, contudo e porém, é igualmente viciante nos contentarmos em marchar contra a corrupção, pedirmos por dignidade e honestidade; quando o cerne da questão encontra-se em nossas atitudes do dia-a-dia e claro, na atitude de descaso que leva um eleitor a anular o seu voto ou não se informar quanto ao seu candidato. É esse mesmo eleitor que diz "todo político é corrupto" e fura fila no supermercado.
Foto 1: "Ser contra um movimento é ainda fazer parte dele", disse esse Picasso de peito estufado.
Foto 2: O Globo

