Isso nos faz pensar. Semana passada uma notícia deu o que falar: o Universo é um pouco mais velho do que se imaginava. Os cientistas, usando desse dom inestimável que é fazer ciência, recalcularam a idade do cosmo e descobriram que, na verdade, ele existe há 13,8 bilhões de anos. Eu sei que nós não conseguimos compreender valores em bilhão nem mesmo quando falamos de dinheiro e jornalistas dão barrigadas constantes ao confundir milhão com bilhão. O problema está, inclusive, em manuais de redação. Portanto, taí um valor que não se ouve todo dia: o cosmo existe há 13,8 bilhões de anos e a expectativa de vida do brasileiro em 2012 foi de 74 anos e 29 dias. Percebe a força disso?
Ainda melhor. Percebe a insignificância dos nossos 74 anos de latinidade? Enquanto as manchetes de jornais e as compartilhadas do Facebook continuam se voltando aos casos de intolerância que, infelizmente, atingem também a vida política do nosso país; o brasileiro - segundo esta pesquisa - estaria pronto para responder a um plebiscíto dizendo que sim, homossexuais devem ter direito a adotar e casar e ser eternamente felizes.
Claro que podemos ressaltar que a pesquisa foi feita pela internet, é uma amostragem e talvez não represente, realmente, o que o brasileiro pensa. Mas eu, como sempre, prefiro acreditar que as boas notíciais existem. Mesmo porque, ainda hoje, enquanto fazia a unha no salão de beleza, duas carochas estavam falando sobre uma missa que uma delas assistiu na TV.
(Católica Loira) - Na propaganda o padre dizia que ia revelar segredos da Igreja, mas ele só falou que os católicos eram hipócritas, que ele às vezes sentia inveja dos evangélicos, porque eles sim falam o que pensam!
(Católica Morena) - Ele disse que os católicos deviam ser evangélicos?
(CL) - Não. Ele disse que os católicos deviam falar mais vezes e com mais enfâse o quanto são contra o casamento gay ou a adoção de crianças por casais gays. Achei um absurdo, se ele quer ser pastor, que vire pastor.
(CM) - É estranho mesmo. Como se Deus se importasse com esse tipo de coisa.
Eu, que não acredito em Deus, fiquei muito feliz ao ouvir esse diálogo. Porque eu, que não sou gay, acho que não precisamos ser homossexuais para acreditarmos que a vida deles não nos diz respeito. Eu não preciso acreditar em uma força suprema para defender que as pessoas tenham direito à fé. E as pessoas que tem fé, não precisam se sentir melhores do que eu, com minha absoluta falta de chão, de céu e inferno. O eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo precisa evoluir para o eu aceito o que você diz e é, defendo o seu direito de dizer e ser. E olha, minha gente, talvez esse dia esteja mais perto do que imaginávamos.
Ainda não é motivo para se comemorar. Mesmo porque, sabemos que o número de assassinatos de não-heterossexuais quase triplicou nos últimos cinco anos, tendo um acréscimo de 26% somente em 2012. Foram 336 mortes, dentre as quais 188 eram homens homossexuais, dois bissexuais, 19 lésbicas, 128 travestis e também se incluiu o caso de um jovem heterossexual que foi assassinado por um grupo de radicais que o confundiu com um gay. E esse ódio ainda está presente na publicidade, nos produtos audiovisuais e no discurso de pessoas próximas à nós. Esse ódio também está na ausência; ausência do gay em filmes que não tenham temática gay, por exemplo. Ou gays que não sejam estereotipados. Os gays que pagam contas, como todos nós e declaram o imposto de renda. Sabe? Esses gays que comem pão francês e arroz e feijão.
Apesar desses pesares, é preciso esperança. Porque mesmo com um discurso velho de homofobia/machismo que continua se reerguendo nas novas gerações sob máscaras grotescas como o Orgulho Hetero; também há uma nova leva de gente humanista fazendo a sua voz soar mais alto do que nunca. Sei disso pelas pequenas coisas que se transformam em gigantes no cotidiano das pessoas. Como a minha vizinha lésbica de 17 anos, cuja namorada vai ao supermercado com a sogra. Como o filho de uma conhecida, que beijou um coleguinha na pré-escola e não foi descriminado por isso. A professora avisou aos pais e os dois ainda são melhores amigos. E a reação dessa criança que nunca sai de moda.
Foto: Azedume
* Uma ótima reportagem sobre este assunto - por incrível que pareça - pode ser encontrada aqui.
