14 março 2013

Não mais


Eu queria ter mais tempo. Ou ao menos voltar ao tempo em que eu queria ter mais coisas para fazer. É normal que sempre queiramos as coisas que não temos, eu o sei. Mas é que, nesse momento, o querer é tão sofrido que não é desejo de consumo, por exemplo. Eu queria ser mais eu, ter tempo de decifrar ainda mais esse eu. Esse eu que anda por aí sorrindo e às vezes até gargalhando. Mas também esse eu que não se arrisca, a Dandara arisca. Esse eu calado, esse eu que não me pertence mais.

Eu queria ter mais tempo para me identificar nos personagens que não criei, nas músicas que não compus, nos filmes que não gravei. Eu queria ser uma dessas pessoas que decora os trechos preferidos dos livros por ter lido esses livros vezes demais. Mas eu sou uma dessas pessoas que chora com os livros, mas os guarda na estante e até se lembra da emoção que sentiu, mas não como se lembrasse do primeiro beijo ou do primeiro amor. É como lembrar que almoçou algo bom, mas não saber o que foi. A minha vida me parece o almoço de ontem, me alimenta, mas não me marca mais.

Foto: Shelby Tanner