28 abril 2010

Quando escrevem sobre ti


Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que eu via.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo, e reverência. Mas nunca tinham me falado do carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-se toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor?  De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem nenhum sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado podia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? No rato? Naquela janela? Nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? Pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde pra você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta pro rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque eu sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada essa minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu mundo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu.  Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

Perdoando Deus,
Felicidade Clandestina

Considerações:
Engraçado que meu prato preferido do Rayuela chame-se Felicidade Clandestina. 
Precisava me jogar na cara tão nua um rato morto? 

24 abril 2010

Belo Horizonte,


Talvez você não tenha mudado, minha querida. E é mesmo provável que eu tenha mudado você. Durante esses anos de descanso, tenha provacado em minha mente lembranças tão doces, tão longínquas que te destruí em pensamento. Chego então a pensar que você nunca existiu. Existia era uma menina que andava por seus morros procurando o bom da vida. Mas seus morros são os mesmos, já a vida da menina...
Um dia vou esquecê-la de forma que poderei significar o esquecimento do amor. Porque palavra prostituta é essa que não tem definição por ser sempre subjetiva e mal paga. Você era o meu amor, querida, mas, quando outros amores me passarem pelas pernas, quando já não me lembrar da temperatura dos seus pés, ou da intensidade de seus beijos, ou da força de seus lamentos, poderei então saber que não era contigo o meu repouso. Morro por morro, encontrarei o abismo.

20 abril 2010

Ninguém

Quando você tem razão, sinto como se estivesse à beira da morte. Porque de nada adianta todos esses anos de independência emocional se coisas tão simples me jogam ao inferno, como passe de mágica. Queria acreditar em inferno e aguardar por ele. Mas a verdade é que não me imagino em situação pior do que essa determinada indiferença que me faz ser oca em contornos de mulher. Esperar pelo melhor não é suficiente porque, em paralelo, sei contabilizar os defeitos que me arranham e me perturbam. Também sou capaz de odiar.

O tempo não é o bastante e ser jovem já não me reconforta mais. Porque esperei ser menos pessimista se sou fruto de sua carne e de sua biblioteca particular? Não quero me trair dessa forma, pai. Quero amar desse jeito receoso e ao mesmo tempo, escorregadio. Eu quero amar.

Mas como é possível, se as pessoas não fazem o que espero delas? Eu sou justamente a mesma, ontem e hoje, ainda. O que espera de mim é exatamente o que farei. Não vou me jogar em seus braços, ou te calar com minhas palavras, ou sequer sorrir sem um ótimo motivo.

Simples e cômodo.

Ninguém é o bastante.
















Luck in Love
I have so many things that I want to say and so many things that I want to do. But I can’t do anything. I don’t know this somebody, and I am afraid that I never will. I have waited so long for this somebody to come, so long that I have made him an unrealistic and fictional person. Boys like him don’t really exist. They are too good to be true. They are made up in messed up minds like mine, and the only time you will ever meet them, is when you fall asleep and drag them in to your dreams.




(é exatamente isso)


13 abril 2010

Mon Amour




Ela - "O tempo bastante para quê? Para viver? Para morrer?"
Ele - "O tempo bastante para descobrirmos"
Ela - "Esse tempo não existe. Nem o tempo de o viver. De modo que me é indiferente"
Ele - "Preferia que tivesses morrido em Nevers."
Ela - "Também eu. Mas não morri em Nevers."

"O trágico de não ter morrido em Nevers; o trágico de ter podido contar a história do primeiro amor; o trágico de já pressentir o esquecimento desse amor novo e maduro; o trágico de, enfim, depois de um penoso anonimato, reconhecerem-se."

12 abril 2010

Por Zeus, por Ísis e por Odin

"Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente. Se realizasse algum sonho, teria ciúmes dele, pois me haveria traído com o ter-se deixado realizar. Realizei tudo quanto quis, diz o débil, e é mentira; a verdade é que sonhou profeticamente tudo quanto a vida realizou dele. Nada realizamos. A vida atira-nos como uma pedra, e nós vamos dizendo no ar 'Aqui me vou mexendo'."
Pessoa,
pois com toda razão. 
Que finita seria eu se todos os meus sonhos fossem realizáveis, que me tornam possível exatamente por jamais passarem na cabeça de outro alguém. Que finda de histórias estaria eu, se não pudesse sonhar com um "te amo" todos os dias. Sabendo ao certo que sua materialização em sons, seria nada mais do que vida realizada em mim, bem distante daquilo que desejei. E eu seria a escolhida, a caça, a pedra a rolar no morro de Sisífo.  
Não é sonho em brasa o que vê em meus olhos, vez sim e vez não? Que desse talvez me passem os dias. Sem saber ao certo o que qualquer coisa significaria e como poderia ser diferente, que essa palavra é tola ao som massacrante do relógio.  
Sonha comigo que a vida vai passar em nós também. 

06 abril 2010

La mort, La bête, L'absence

Morrer congelado. Contraposição ao medo profundo de morrer confortável, desse jeito burguês, na poltrona da sala, de barriga pra cima. Morrer congelado. Enquanto se é escravizado ao dia a dia de um inútil, nesse fordismo que nem se sabe mais onde se encontra o seu trabalho, o seu suor, o seu punctum. Morrer congelado. No deserto que é tão frio à noite que a própria saliva vira granizo e arranha as entranhas de quem ama com pavor, de quem geme com vergonha, de quem grita sem ter voz. Morrer congelado. Entrelaçado a cobertores cheios de ácaros do mau hábito apertado de viver sem organização. Morrer congelado. Sem os afagos tão quentes, tão mornos, tão seus. Morrer congelado. Sentindo o sangue expandido, as lágrimas partindo as retinas expostas ao terror. De morrer congelado.