Morrer congelado. Contraposição ao medo profundo de morrer confortável, desse jeito burguês, na poltrona da sala, de barriga pra cima. Morrer congelado. Enquanto se é escravizado ao dia a dia de um inútil, nesse fordismo que nem se sabe mais onde se encontra o seu trabalho, o seu suor, o seu punctum. Morrer congelado. No deserto que é tão frio à noite que a própria saliva vira granizo e arranha as entranhas de quem ama com pavor, de quem geme com vergonha, de quem grita sem ter voz. Morrer congelado. Entrelaçado a cobertores cheios de ácaros do mau hábito apertado de viver sem organização. Morrer congelado. Sem os afagos tão quentes, tão mornos, tão seus. Morrer congelado. Sentindo o sangue expandido, as lágrimas partindo as retinas expostas ao terror. De morrer congelado.