Por conseguir sentar-me e cruzar a perna esquerda sobre a direita - que logo apresentará sintomas de cansaço como formigamento e vermelhidão. Por conseguir escrever melhor ou pior com essa mania destra de unhas com esmalte descascado. Por segurar meu tronco em tamanha precisão que o apoio da mesa apenas responde a força do hábito (que já não sei se é com "h" ou sem ele). E principalmente, por conseguir sorrir com toda a minha face à mãe que logo adentrará a minha casa com a mesma formosura e graça de ontem. No entanto, hoje, sua presença será muito mais importante para mim, pois sei da força que há em ter os lados da face igualmente sãos que tanto eu como ela (ainda) possuímos. Por conseguir viver esse dia de saberes eu escrevo.
Imaginava que literatura portuguesa "far-me-ia" amar mais a minha língua mãe e abrir mais meu peito para essas mudanças que já se fazem presentes no Soletrando do Huck. Mas, ao sentir os apontamentos que a pompa portuguesa desperta nos meus Ensaios sobre a minha Visão, ainda misturados com a mesma pompa dos livros teóricos do Trakina que fui mais ou menos obrigada e satisfeita em ler, descobri que gostava mesmo de acentuar a lingüiça com a trema automática do meu querido Word.
Para combinar, ainda descobri que depois de morta, a única coisa que me sobraria em terra seriam as minhas dívidas mal ou não pagas. Não me refiro as financeiras, pois (ainda) não possuo finanças para contrair dívidas. Me refiro ao sorriso que ganhei quando precisamente dele eu me via necessitada, sorriso esse que não devolvi quando a minha hora para 'todos os dentes' havia chegado. Por desmaselo não me afio a anotar os meus deveres, ainda que fosse de memória. Deixo mesmo é o que o destino tome conta por si mesmo de obrigar à mim a devolução de certos empréstimos que tomei pela vida afora. Mas o destino não é magnânimo e onipresente, ao contrário do que essa corja de fiéis acreditam. As vezes as dívidas passam a existir e o destino não toma conta delas.
Tenho aí pessoa que desprezo, com esse jeito de encher a boca pra falar "TE DESPREZO", mas que ainda assim amo. Talvez, esses mesmos desprezados seriam os primeiros a me visitar quando, por algum caso de organismo mal cuidado ou por pura fatalidade, os dois lados do meu rosto não conseguissem mais sorrir como um só. Não posso julgá-los, por isso os aceito (e amo). Tenho plena certeza que muitos deles me desprezam, mas me amam também.
Não sei como terminar esse texto. O lado esquedo continua sem sorrir e o tronco continua a enganar e cambalear feito bêbado.