27 junho 2010

"O último dos sonhos que eu sempre sonhei"

Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.
E este é o motivo pelo qual permaneço aqui,
Sozinho e vagorosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens ao lago,
E nenhum pássaro canta.








A saudade é um veneno e um vício. Como um opiário que me permite trazer aquilo que aqui não está e, embriagada, fica mais fácil imaginar o que não vivi como uma lembrança.
Eu vivi pouco e, por isso, invejo esses casos trágicos de personalidades que escreveram seus nomes na linha do tempo de todos os amantes e ainda são felicitados com uma pneumunia fulminante ou uma tuberculose, aos 25 anos. Como é bonito morrer gênio e jovem. Não ser obrigado a ver seu próprio declínio, a conviver com a soberania do tempo que transforma toda genialidade em passado e toda lembrança em saudade. Morrer são e invicto. Como um imperador que suspira pela última vez com a memória fresca de seu legado intocado. 
É impiedoso o que escrevo, mas essa é a noite mais fria do ano e não existe outro sentimento a não ser a saudade - essa maldita que é incapaz de esquentar meus pés.
Sinto-me por vezes tão feliz, porque finalmente os meus anseios foram atendidos e me foi demonstrado que "alguém definido" existe. Existe com maestria, de um jeito único e gostoso, atribuindo novo significado à condição de haver. Um jeito singular que, em 20 anos de poesia, nunca me passou pela cabeça. 
Mas, por fim, acostumada com a maneira simplória com que a vida me passa, lembro-me de todas as impossibilidades da minha condição frágil de humana e também das obrigações que tenho com a sociedade burguesa-patriarcal. A premissa de fazer sentido e ser útil da qual sou escrava.
Sim, eu não sei dirigir. Mas também não sei voar, não sei me deslocar automaticamente, por mais intenso que meu desejo seja e é. Não sei nadar, a braçadas largas, pelo fio da vida até encontrar repouso onde gostaria de estar. A relatividade do tempo me acorrenta e tortura, repetidas vezes, como um carrasco que encontra a morada perfeita para seu sadismo.
Ser humana é vulgar e patético. Nós, diferentes do vinho, por mais bem guardados que sejamos, não nos transformaremos em champagne. Se meu nome fosse John, faltariam cinco anos até que uma noite, mais fria que esta, me carregasse em um delírio, para um fim mais digno do que o envelhecer. 
Se fossemos pássaros, estaríamos juntos ao Sul.

24 junho 2010

05 junho 2010

Chupa essa, que é de uva





E assim você chegou, três anos atrasado, com seu sotaque sulista e sua magreza monumental. Abraçado em toda a boçalidade. E eu já te chamei de sisudo e de altivo. O tempo passa e os adjetivos mudam, é inevitável. É estranho, você sempre foi e sempre será estranho. Mas não do tipo emocionante-estranho, não mais.


Eu sabia seus caminhos, os corredores que percorria na biblioteca pública, os livros que tinham suas anotações e com quais eu concordava. Eu as tinha na ponta da língua. Porque um dia, através do espelho¹, eu diria, como se suas palavras fossem minhas, que “O Estrangeiro não consegue ser melhor do que A Metamorfose, mesmo o ateísmo sendo mais atraente no primeiro”. A República Dominicana nunca mais seria a mesma, eu pensava.


Eu admirava suas unhas ruídas, suas calças rasgadas, suas poucas palavras, seu rosto inexpressivo, sua ausência. Eu amava a sua ausência. Pois ela era a única constante na minha vida de menina mimada, de menina sofrida, de menina sozinha, de menina masoquista, de menina. Todos os dias eu te esperava, mas a verdade é que eu esperava por mim mesma. Por uma voz dentro de mim que concordasse com quem eu era.


É covarde aquele que espera. O nome da espera é medo. Não há nada mais confortável do que esperar. O (in)certo é a procura, a entrega e, enfim, a liberdade. O humano, demasiadamente humano², seria levantar-se em minha duas patas traseiras, caminhar até você e descobrir sua mediocridade três anos atrás. Descobrir sua confusão e, principalmente, ajudá-lo a se esclarecer. Toda aquela filosofia e mitologia gregas, os contos eróticos e os aterrorizantes, os romances niilistas, as músicas de protesto, o cinema de vanguarda, a sociologia aplicada não conseguiram te transformar em alguém definido³. Você será sempre o Outro, para homens, mulheres e, para mim, ser sempre Outro é patético. Porque você não consegue criar identidade nem consigo mesmo.


Os beijos que pediu, seriam de escárnio, pode apostar. O vinho que ofereceu, seria uma ofensa minha a você. E nenhuma cama, em nenhum hotel, em nenhum momento, poderia mudar essa minha nova percepção. Não há, ainda, nenhuma voz dentro de mim que concorde com essa que sou. Mas eu sou e eu procuro ser. Eu estou sempre à procura de alguma coisa que nunca vou encontrar. A diferença é que ninguém poderá dizer que eu não tentei, que não fui livre, que não atravessei o espelho, que não dancei na chuva, que não nadei pelada, que não me solidarizei com o mundo, que não apontei estrelas por medo de verrugas, que não beijei meu semelhante, que não cuspi em meu semelhante, ou que fui objeto de eterna alteridade. A diferença entre nós e entre mim e a menina que te amou, é que a incompletude do mundo não me apavora e paralisa. Ela me faz reagir e como parte do inevitável círculo da vida, eu discorro sobre o tempo e a modernidade com o sorriso faceiro de ter te dado o não que você sempre mereceu.


04 junho 2010

Der Mann ohne Eigenschaften, Der Mann ohne Verwandtschaften

Quando o Amor junta-se à Sociologia...

“Odo Marquard falou, não necessariamente com ironia, do parentesco etimológico entre zwei e Zweifel (‘dois’ e ‘dúvida’) e insinuou que o elo entre essas palavras vai além da simples aliteração. Onde há dois não há certeza. E quando o outro é reconhecido como um ‘segundo’ plenamente independente, soberano – e não uma simples extensão, eco, ferramenta ou empregado trabalhando para mim, o primeiro – a incerteza é reconhecida e aceita. Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro.
Franz Kafka observou que somos duplamente distintos de Deus. Tendo comido da árvore do bem e do mal, nós nos distinguimos Dele, enquanto o fato de não termos comida da árvore da vida O distingue de nós. Ele (a eternidade, na qual se abraçam todos os seres e seus feitos, em que tudo que pode ser é, e tudo que pode acontecer acontece) está próximo de nós. Fadado a permanecer secreto – eternamente além de nossa compreensão. Mas sabemos disso, o que não nos permite ter sossego. Desde a fracassada tentativa de erigir a Torre de Babel, não podemos deixar de tentar e errar e fracassar e tentar novamente.
Tentar o quê? Rejeitar essa distinção, rejeitar a negação do direito aos frutos da árvore da vida. Prosseguir tentando e fracassar nas tentativas é humano, demasiadamente humano. Se a alteridade é, segundo Levinas, o derradeiro mistério, o absolutamente desconhecido e o totalmente impenetrável, isso não pode ser uma ofensa e um desafio – precisamente por ser divino: barrando o acesso, negando o ingresso, inatingível e eternamente além do nosso alcance. Mas (como Rozenberg insiste em nos lembrar) ‘o limitado não pode ser alcançado por meio da organização... As coisas mais elevadas não podem ser planejadas. Imediatez é tudo para elas.’
Imediatez para quê? ‘O discurso é amarrado ao tempo e por ele nutrido... Não sabe de antemão onde vai terminar. Segue o exemplo de outros. De fato, vive em virtude da vida de outro... Na conversa real, alguma coisa acontece’. Rosenweig explica quem é esse ‘outro’, por cuja vida vive o discurso de modo a que alguma coisa possa acontecer na conversa: esse outro ‘é sempre um alguém bem definido’ que não tem ‘apenas ouvidos, como todo mundo, mas também uma boca’.
É exatamente isso que faz o amor: destaca um outro de ‘todo mundo’, e por meio desse ato remodela ‘um’ outro transformando-o num ‘alguém bem definido’, dotado de uma boca que se pode ouvir e com quem é possível conversar de modo a que alguma coisa seja capaz de acontecer.
E o que seria essa ‘alguma coisa’? Amar significa manter a resposta pendente ou evitar fazer a pergunta. Transformar um outro num alguém definido significa tornar indefinido o futuro. Significa concordar com a indefinibilidade do futuro. Concordar com uma vida vivida, da concepção ao desaparecimento, no único local reservado aos seres humanos: aquela vaga extensão entre a finitude de seus feitos e a infinidade de seus objetivos e conseqüências.”
Em Amor Líquido, Bauman.