Nós falávamos de religião ou crenças ou a falta delas. Sobre a vontade de encontrar à deus ou o sublime. Nós falávamos sobre amor ou a falta dele. Sobre como nos modifica ou nos estagna...
São mais de 11 anos. 11 anos, ela disse. Sim, mais de uma década e continuamos aqui, eu respondi. Você não mudou nada. Você também não. Não diga isso, eu cresci. Mas eu também, então, não faz diferença. Como vai seu coração? Anda batendo descompassado? Mas não de amor, de dor, talvez. De angústia. Angústia se é de amor vale a pena. É, não sei ao certo. Sabe do que me recordo? Sua mãe, quero revê-la! Uma das coisas mais fortes que já ouvi, foi aquela vez que dormi na sua casa e ela me disse sobre como as mães são moldadas para as filhas.
Pausa
1998, janeiro. Segunda série. Nossas mães se conheceram em alguma reunião de pais e mestres. Naquele momento elas decidiram, sem o nosso consentimento, que deveríamos ser amigas. Com oito anos, decisão de mãe não se discute. Assim foi estabelecido. Tão logo começamos frequentar a casa uma da outra, como os amigos fazem, com o peito aberto e lençois estampados. Certo dia estávamos na minha casa e geminiana de ascendente áries, é perfeccionista mas criativa. Pintei uma faixa de boas vindas a minha mãe. Não sei de onde ela vinha, mas isso não é importante. Visto aquilo, minha amiga começou a chorar. Por pressuposto, eu fiquei assustada, não sabia o que tinha acontecido para desencadear em lágrimas. Era impossível para mim compreender. Mas minha mãe, com essa condição maternal tão arraigada, disse: "Você sabe porque eu sou a mãe perfeita para a Dandara? Porque a Dandara é a filha perfeita para mim. Toda mãe é perfeita para sua filha."
Eu não me lembro disso. Sério? Nossa, eu lembro de cada palavra. Deve ter sido muito importante para você. Sim, foi. Bom, eu me lembro do seu aniversário de oito anos, que todos os convidados ganharam uma faixa azul com escritos amarelos de "Ah! Eu tô maluco!". O quê? Sua festa de aniversário! Essa era a música do momento. Depois da festa eu dormi lá, dormi ainda com a minha faixa. Eu odeio essa música. Nós não temos mais 8 anos...
Pausa
1998, junho. 413. Todos os convidados foram obrigados a se vestir de azul petróleo, ou marinho. Era um azul da cor da blusa do Cruzeiro. Celeste, talvez? Eu fiquei para dormir. Depois desse dia, eu nunca mais brinquei de Barbie.
Mas eu nunca entendi, para onde você foi naquele ano? Voltei para BH. Minha mãe queria ficar perto do meu avô, ele estava morrendo. Eu não sabia de nada disso, sinto muito. Tudo bem. Agora não me pergunte porque eu voltei, ainda não sei a resposta disso. Você preferiria ter ficado lá? Não sei. Não posso responder isso. Como poderia? Eu não consegui morar no Rio. Por que? Gente besta. Pior que em Brasília? Sim, na Barra é pior.
Pausa
1999, janeiro. Volto para BH. Perdemos totalmente o contato. 2003, julho. Meu avô falece, parada cardíaca. Corpo quente, segundo, corpo gelado. 2004, julho. Minha avó falece, parada cardíaca. Lírios, muitos lírios. 2005, janeiro. Ela muda para o Rio. 2006, fevereiro. Eu volto para Brasília. 2007, agosto. Nos encontramos na internet.
Eu sei que você não acredita, mas posso ler sua mão? Qual das duas? A que dá para ver, a direita. Está bem. Eu vejo viagens, vejo que seu destino se funde com a da razão. Aliás, todas as suas linhas acabam na linha da razão. Sua mão é muito marcada, isso significa que você é um espírito evoluído. Eu vejo filhos. Mas não necessariamente filhos, podem ser realizações. Como um livro? Sim. Então quero um filho e um livro. Você tem o cinturão de Órion. Eu queria poder ver a esquerda. Só tiro a tala na quinta-feira. Elas não são iguais? Não, a direita é o presente, o potencial. A esquerda é o futuro. Hmm... Tudo bem, me desculpe. Não, eu achei bacana. Se tudo for verdade, eu serei feliz. Não é que eu não acredite nessas coisas, eu tenho medo delas. Como assim?
Pausa
2004, julho. Minha avó falece, parada cardíaca. Lírios, muitos lírios. Comprei um tarô, runas antigas e I Ching original. Nunca erraram. 2007. "Deus, um delírio". Parei de acreditar em Deus, no sobrenatural, na fé e no meu tarô.
E você? Eu nunca tive namorado. Não sei porque, nunca consegui. Dar importância. Abrir mão de mim, das minhas coisas, das minhas músicas, dos meus bares, dos meus lençois. Nunca consegui. Então, nunca amou? AH, não sei. Acho que não. Pelo menos, nunca amei ninguém mais do que amo a mim mesma. Também não quero que isso aconteça. Eu só amava a distância, até agora. Quando estava no Rio tive dois namorados que eram daqui. Olha que besteira, em vez de arrumar um namorado lá. Na verdade, o relacionamento que para mim faz mais sentido, é o a distância. Você não tem ciúmes, porque, para que perderia o tempo juntos com ciúmes. Você apoia sem julgar, porque, como julgar algo que não conhece? Você espera pelo melhor, porque os defeitos demoram mais para aparecer. Faz sentido.
Pausa
2006, julho. Em Brasília há cinco meses. Férias em BH, F. andava de skate e tocava bateria. Nunca nos beijamos. 2008, junho. Férias em Buenos Aires, J. tocava guitarra, fala inglês, espanhol, castelhano e francês. Nunca nos beijamos. 2010, janeiro. Feriado em BH, H. faz malabares e conhece todos os meus amigos. Nunca me mereceu.
Você quer ver um filme lá em casa? Amanhã eu tenho aula e trabalho. Acho que vou na casa dele. Ligue para ele. Vou te deixar em casa. Essa seda é horrível. Não quero mais. Põe no cemitério. Foi bom te ver. Finalmente. Liga para mim nesse final de semana? Liga para mim qualquer dia que precisar. São mais de 11 anos. 11 anos, ela disse. Sim, mais de uma década e continuamos aqui, eu respondi.