19 outubro 2013

Booooooooooom

Colocaram uma bomba na minha cabeça. A boa notícia é que ela não causa enxaqueca, nem por um dia. Às vezes, muito pelo contrário, faz com que eu tenha ainda mais clareza para viver. Ela não tem um cronômetro e nem tem fios verdes e vermelhos. Isso me faz pensar, em meio à um suor gelado e amedrontador, que talvez ela também não possa ser desligada. Não dá pra chamar um conhecedor de bombas, ou sabe-se lá qual o nome deste profissional, para apertar um botão ou desabilitar alguma coisa arrancando de mim essa ansiedade sem fim. Essa espera. O que se pode fazer, apenas, é esperar o dia, fatídico dia, em que ela explodirá e com ela cada fragmento de conhecimento ou inutilidade guardado em minha caixola voará pelos ares.

Li em algum lugar, ou vi, ou ouvi, sabe-se lá, que a espera é a pior sensação possível. É pior do que a dor. Você sabe que a dor acabará ou então você morre. E você também sabe que a vida acabará, portanto morrer não é o pior dos quadros. Enquanto isso, a espera não tem prazo de validade. Ela apenas enebria e escraviza. Esperar é como se viciar. Sentimos que, assim que ela acabar, a vida valerá a pena novamente. Abraçamos a espera e a chamamos de esperança. Esperar é pior do que morrer e viver esperando é tudo o que nos sobra quando já estamos sem motivos.

12 agosto 2013

A ferida que sangra por nós

Coçar e abrir as próprias feridas é absolutamente banal. Eu te disse isso um dia, quando perguntou dos machucados nas minhas cutículas. Eu disse que é um comportamento natural. Mas você jurou nunca arrancar a casca dos seus machucados. Afora você, as crianças de todo o mundo fazem e procuram as mães quando a carne, fresca carne, aparece vermelha e sangrenta. Dizem para as mães que não fizeram por mal, que não sabiam que iria arder tanto. No entanto, no próximo machucado ou picada de mosquito, coçam novamente. Abrem novamente. Contemplam a ardência e se arrepiam por conta dela. Um comportamento que levamos para a vida adulta.

Este singelo ato masoquista piora veementemente quando assumimos para o outro as nossas fraquezas. Afinal, o outro passa a ter o poder de abrir novas feridas em nós, por sadismo, simples conveniência e/ou vaidade. Causamos a dor para nos sentirmos capazes de causar a dor. Ver a ferida que causamos no outro coçar faz com que sintamos uma ponta de excitação. É uma ferida que sangra por nós. Desespera-me saber que nunca alcançarei esse sentimento se continuar ao seu lado, pelo simples fato de que você não coça as suas feridas. Logo, a cicatrização de qualquer mal que eu seja capaz de te causar será muito mais rápida do que a cura dos males que você me causar. Um erro de cálculo que eu deveria ter percebido antes, meu bem.

10 maio 2013

Sobre o feminismo de gaveta

Apenas para deixar claro: eu sou uma feminista que acredita no amor romântico. Com isso, não estou dizendo que acredito em contos de fada, apenas que acredito em duas pessoas amando, juntos, um a imperfeição do outro.

Porém, acredito e sonho, principalmente, com a realização da mulher. E uma mulher realizada NÃO É sinônimo para uma mulher acompanhada e apaixonada. Uma mulher realizada NÃO É uma mulher "em um relacionamento sério". Porque isso tudo tem a ver com situação, é um estado. Mais uma vez, me foi jogado na cara o velho e cruel sistema patriarcal de sempre, sendo legitimado no mais disfarçado discurso. Uma mulher que acredita que felicidade está relacionada a vida a dois. Não a culpo. Por mais que tenhamos acesso à informação crescente e participemos de discussões sobre gênero; abraçar os valores patriarcais é uma maneira mais fácil de ser aceita.

Este é um texto sobre a feminista de gaveta, um tipo comum que pode até nos enganar em um primeiro momento. Explico como ela é, para que você, querido leitor imaginário, não se deixe enganar. A feminista de gaveta sabe o que é o feminismo e o prega, mas não o pratica. O grande problema é que ela nem sequer percebe que não o pratica, tornando-se assim uma feliz integrante do grupo crescente de brasileiros que praticam a hipocrisia nacional.

A feminista de gaveta já leu Simone de Beauvoir, Pizan e admira Frida Kahlo. A feminista de gaveta é interessante já no primeiro diálogo, é liberal, porém sutil. Os homens pensam "essa não vai me preparar o almoço, mas pelo menos não é 'chata' e vai topar um à três". Isso homens que, para todos os efeitos, conseguem um desempenho mediano na cama com a parceira de sempre, mas realmente acreditam que seriam capazes de satisfazer duas mulheres, ao mesmo tempo. Mas vamos falar de uma figura redícula de cada vez... Voltando a feminista de gaveta, ela consegue lidar com homens machistas e também consegue travar diálogos com os mais sensíveis, engajados e raros, muito raros. Entretanto, como o próprio nome diz, a feminista de gaveta guarda o feminismo enclausurado. A feminista de gaveta é aquela que nunca fica sozinha, mesmo jurando ser capaz. É aquela que está sempre ou muito feliz ou em completa desgraça por causa de alguém que ela jura que ama. É aquela que diz que as coisas acontecem e que realmente acredita que suas escolhas são baseadas na sua suprema liberdade. Liberdade de escolher o homem que lhe convém, mesmo que esse homem seja o machista que ela promete detestar.