09 novembro 2011

Me leve para qualquer lado

Eu tirei as cartas para nós. É importante comentar que não fazia isso há muito tempo. Tentava me aproximar de mim mesma, sem oráculos, somente com a razão. Mas perdida assim, ver passado presente futuro foi como ter quinze anos de novo e estar em dúvida quanto a existência de deus. Curioso, equilíbrio, equilíbrio, dúvida. De frente, inverso d'O Enforcado e multicores. Azul e amarelo, azul amarelo e vermelho, caos. Clareza, leveza, desvio. No presente estou alí, dominando todas as formas de existência. O ser, o ter, o tudo. No passado, em meu trono, como se o equilíbrio fosse certo. Mas o futuro, para todos os lados, não sei para onde olhar. É como se eu literalmente, no futuro, dissesse que estou perdida, bem na porta da tua casa.

15 outubro 2011

Gloopy Goloss

Escrito em julho, encontrado hoje.

Hoje encontrei o passado na fila do teatro. O passado efêmero como tudo que já me aconteceu na vida, veio e foi embora. Porque eu quis e assim permiti, eu acho. Mas ali, na fila do teatro, ele voltou a ser real. Real que frequenta bons lugares, real que discute roteiros, real que toma café com leite vaporizado. Mas ainda assim, um real violado, meio apagado, assim, em cores pastéis. Um real que se vê e provavelmente se pode tocar com a mesma intensidade, mas sem o mesmo sabor.


No teatro ainda percebia uma inquietude real até demais. Aos personagens apaixonados pela lua, pelo mar iluminado pela lua, pela mulher enciumada pela lua, à eles a nossa devotada atenção. Ao passado, esse bonachão, "foi bom te ver mais uma vez, poder te abandonar e dar por fim da mágoa dese mal amar". Por mais real que me pareça.


"Eu a amava, em suma. E era infeliz. Mas como poderia ela algum dia entender essa minha infelicidade? Há aqueles que se condenam ao cinzento da vida mais medíocre porque tiveram alguma dor, alguma desgraça; mas há também aqueles que o fazem porque tiveram mais sorte do que poderiam
suportar"
- Italo Calvino, Os Amores Difíceis 
 

07 outubro 2011

I've got you deep inside of my mind



Você estava encarando-a, como se sua vida dependesse disso. De cá, onde eu estava, era uma cena ridícula. E quando levantava os braços fingindo que gostava da música, pequenos furos na sua blusa apareciam. Caso não te conhecesse, sentiria pena. Mas ao te ver mendigando atenção eu senti pena de mim. Porque, por mais que você não fosse correspondido, eu também não o era. E via, em você, eu mesma. Tentei puxar pela memória todas as vezes que nos encontramos e quantas dessas estávamos em alguma apresentação musical. Desde então, reprimo esse singelo movimento de aplaudir a música com os braços para cima. Fiquei pensando ainda, se poderiam reparar em mim também, no meio dessa multidão amarelada de Brasília. Conclui que não.

Aquele dia no café, quando me viu de muito longe, meu coração deu um aperto irreprimível. Você me pediu para sentar. Para ficar. "Fica", você disse. Duas horas, repassadas facilmente como se tivessem durado cerca de dez minutos. A relatividade me sacaneando, como sempre. Se te encontrar de novo, decorei um diálogo e quero que você siga à risca. Ele começa comigo dizendo que te desejo o melhor. Porque bem, essa é a verdade. Você deve permanecer calado a essa altura. Depois completo com uma breve explicação de todas as coisas do mundo, sabe, posso pedir emprestado um haikai nesse momento. Se você souber de quem é o poema que citarei, eu te roubo um beijo. Caso contrário, vou prosseguir. Direi ainda que você deve saber que tem outras opções. Porque bem, essa é a verdade. Se você souber de quem é a opção que citarei, por favor, me roube um beijo.

Essa semana conheci um rapaz, num sonho meu, que tinha características muito parecidas com as suas. Diferença fundamental é que ele me queria de volta. Além disso, o nome dele, como fez questão de logo dizer, era Iuri. Não é de Brasília, há de se citar, pois todos sabem que eu não me apaixono por pessoas dessas bandas. O que seria da vida sem manias? Bom, Iuri me disse coisas incríveis sobre Salvador, música, teatro, fotografia, cinema, literatura, sexo. Todas as coisas boas da vida. Iuri disse que gostava de murais e que se admirava como em Brasília há tantos que as pessoas já mal notam. Ele se sentou a minha mesa e dominou o assunto como se tivesse nascido para isso. Hoje sabemos que quem havia dominado era o meu subconsciente. Mas, naquele presente momento, tudo era ainda muito real. Iuri me levou para a sua casa e colocou para tocar um CD triste com uma voz completamente nova para mim, era Sarah Vaughan, como depois eu descobriria. O sofá era amarelo e tinha uma almofada grande em cores primárias. Em um canto, um espelho rachado do teto ao chão, refletia tudo no cômodo. Nós passamos a beber vodka e Iuri me beijou. Não posso repassar todos os detalhes, mas talvez, seja importante explicar que Iuri tinha pintas nos lugares mais bem selecionados que a melanina pode escolher. Lembro-me de uma pequenina, na parte interior de sua coxa esquerda que, alinhada com outras duas, formavam as três marias perfeitas de um escorpião.

Acordei assustada com as semelhanças e me desculpe dizer, não quero te encontrar porque tenho muito medo de enxergar Iuri em você.

19 junho 2011

Não sei, só sei que é assim

Essa tentativa de relativizar as coisas me transformou em uma pessoa vã. Não sei bem se relativizar é a palavra certa, mas ressalto que estou má. Com os olhos demasiado sarcásticos e a cabeça desprezando a tudo e todos. Ao mesmo tempo, aprendi a disfarçar certos recalques e sem eles, o que somos? Realizados? Não, porque a completa realização não existe. Outra coisa que aprendemos metendo a testa na parede até a dor de cabeça não te impedir de acordar às seis da matina e ir estudar e depois trabalhar. Ir crescer. Continuamos como sádicos arrancando as cutículas com os dentes até inflamar a unha inteira e todos ficarem com nojo de nos cumprimentar. Bom, ao menos isso acontece comigo. Eu aqui, por minha vez, fazendo planos de mandar tudo a merda e me esconder em um ônibus enferrujado que sempre via no Pistão Sul. Achava aquele ônibus a realização da suprema liberdade, meio Into The Wild no Cerrado e em Taguatinga. Mas não vou mais para aquelas bandas e preciso encontrar a suprema liberdade nos detalhes desses lugares burgueses pelos quais estou passeando ultimamente. Classe média desvairada do Plano Piloto que me perdoe.

Outro dia, ainda odiando a tudo e todos e querendo, como já colocado, mandar o mundo a merda, saí do trabalho além do expediente e peguei um ônibus vazio. Muito simples, eu teria encostado alí minha cabeça e dormido até um anjo caído me despertar a tempo de descer na parada certa. Isso sempre acontece comigo, acordo a tempo, Chessuis sabe o porquê. Mas posto a cabeça na janela com o movimento corporal friamente calculado a ponto de o sono se sentir convidado, eis que um loiro tatuado atravessa a roleta, olhando para o nada. Visto assim, eu não daria nada por ele. Mas ele se sentou lá no fundão, território dos desgarrados e começou a tocar gaita. Sim, como Mick Jagger. Um homem tocando gaita ao pé do meu ouvido, depois do cotidiano ter me massacrado com todas aquelas notícias de estupro, pedofilia e estelionatos. Um homem, repito, tocando gaita ao pé do meu ouvido.

Não me recordo de conhecer alguém que toque gaita e olha que até acordeão conheço ai, um gato pingado. Que não é tão gato assim. Minha vontade era dizer: "muito prazer, meu nome é Dandara e eu não tenho nenhum amigo que toque gaita. Quer fazer parte do meu círculo social?". Podemos então imaginar várias possibilidades: 1. Eu estava cansada demais para isso. 2. Eu não sou tão livre quanto penso e não teria coragem para isso. 3. Eu estava confortável demais sentindo a música para mexer um músculo se quer. 4. Todas as opções anteriores.

A questão é: eu não sei e nunca saberei. Só sei que tinha ali, talvez, a oportunidade de conhecer um loiro extraordinário mas ando odiando o mundo tanto que preferi, como Jaiminho, evitar a fadiga e continuar gofando palavras nesse blog. Ando tão vã e fria e frígida e intocável que as sutilezas me excitam mas não me motivam. E vai que só tarja preta poderá me salvar dessa realidade sem graça, já que depressão está na moda e já não é mais necessário ser Classe A para visitar um terapeuta. Aquela história de Oceano Sem Mar. Vai que.

28 maio 2011

Sobre Shakespeare

Aqui transcrevo Huxley, esse norte-americano direitista safado que confunde comunismo com ditadura, mas que acerta quanto à falsa democracia que faz de nós um produto pré-idealizado e com layout. Contextualize ainda, em meio à Guerra Fria:

Regresso ao Admirável Mundo Novo

194. Neste ponto encontremo-nos frente a uma pergunta atribuladora: Desejamos realmente agir segundo o que sabemos? Considerará a maioria da população que vale a pena fazer esforços ingentes com o objetivo de parar e, se possível, inverter a tendência atual para o controle totalitário integral? Nos Estados Unidos – e a América é a figura profética do que será o resto do mundo urbano-industrial dentro de alguns anos – investigações recentes da opinião pública revelaram que a maioria dos adolescentes abaixo de vinte anos, os eleitores do futuro, não acreditam nas instituições democráticas, não vêem desvantagens na censura das idéias impopulares, acham impossível um governo do povo pelo povo e julgar-se-iam perfeitamente satisfeitos por serem governados de cima por uma oligarquia de técnicos qualificados, se puderem continuar a viver conforme o estilo que a prosperidade os habituou. Que tantos jovens espectadores bem alimentados da televisão, na mais poderosa democracia do mundo, sejam tão totalmente indiferentes à idéia de se governarem a si próprios, que pouco se interessem pela liberdade de pensamento e pelo direito de discordar, é pesaroso, mas não muito surpreendente. “Livre como um pássaro”, dizemos e invejamos os seres alados devido seu poder de movimento ilimitado nas três dimensões do espaço, mas esquecemos, ai de nós, a nossa menoridade. Todo pássaro que aprendeu a esgaravatar uma boa porção de vermes sem ser impelido a usar as asas, logo renunciará ao privilégio de voar e permanecerá para sempre na terra. Algo de semelhante se passa com os seres humanos. Se o pão lhes é fornecido regular e fartamente três vezes ao dia, muitos deles ficarão satisfeitos vivendo apenas de pão – ou pelo menos, de pão e de espetáculos de circo. “Ao final”, diz o Grande Inquisidor na ficção de Dostoiewski, “ao final hão de depor a liberdade aos nossos pés e hão de dizer-nos: ‘Torna-nos teus escravos, mas alimenta-nos’”. E quando Alyosha Karamazov pergunta ao irmão, o narrador da história, se o Grande Inquisidor está falando sarcasticamente, Ivã responde: “Absolutamente! Ele reivindica com um louvor para si próprio e para sua Igreja o terem subjugado a liberdade, de o terem feito para tornar os homens felizes”. Sim, para tornarem os homens felizes. “Porque nada”, afirma o Grande Inquisidor, “jamais foi mais insuportável para um homem ou uma sociedade humana do que a liberdade”. Nada, exceto a ausência de liberdade, porque quando as coisas vão mal e as rações são limitadas, os infantilmente presos ao solo reclamam pertinazmente as suas asas – apenas para as renunciarem, uma vez mais contudo, quando os tempos melhorarem e os forjadores dos homens se tornarem mais indulgentes e mais generosos. A juventude que raciocina agora de forma tão chã sobre a democracia poderá crescer para lutar pela liberdade. O grito de “Deem-me televisão e cachorros-quentes, mas não me assombrem com as responsabilidades da liberdade”, pode ceder lugar, sob uma modificação das circunstâncias, ao grito de “Deem-me a liberdade ou a morte”. Se tal revolução se realizar será em parte devida à operação de forças sobre as quais até os mais poderosos dirigentes exercem muito pouco domínio, em parte devido à falta de competência desses dirigentes, pela sua incapacidade para tornarem eficiente o emprego dos instrumentos de manipulação do espírito com que a ciência e a tecnologia favoreceram, e continuarão a favorecer, o aspirante a tirano. Considerando o pouco que sabiam e quão pobremente se encontram preparados, os Grandes Inquisidores do passado atuaram de forma esplêndida. Porém os seus sucessores, os ditadores bem informados e totalmente imbuídos de espírito científico do futuro, farão, sem dúvida, muito melhor. O Grande Inquisidor reprova o Cristo por ter chamado os homens à liberdade e diz-lhe: “Corrigimos a tua obra e estabelecêmo-la no milagre, no mistério e na autoridade”. Mas o milagre, o mistério e a autoridade são o necessário para a ditadura. No Admirável Mundo Novo, os ditadores acrescentaram a isso a ciência, o que lhes permitia assegurar a sua autoridade pela manipulação de embriões, dos reflexos nas crianças e dos espíritos de pessoas de qualquer idade. Em lugar de falar apenazmente de milagres e de fazer alusões simbólicas aos mistérios, estavam à altura, graças às drogas, de fazerem que os seus súditos sentissem a experiência direta de mistérios e milagres – transformando fé em conhecimento extasiado. Os ditadores antigos caíram porque nunca forneceram em quantia suficiente aos seus súditos, pão, jogos, milagres e mistérios; também não tinham um método verdadeiramente eficiente de manipulação mental. No passado, livres-pensadores e revolucionários eram muitas vezes produtos da educação mais religiosamente ortodoxa. Não é de se admirar. Os sistemas adotados pelos educadores clássicos eram, e ainda são, extremamente ineficientes. Sob a palmatória de um ditador científico, a educação produzirá realmente os efeitos desejados e daí resultar que a maioria dos homens e das mulheres chegarão a adorar a sua servidão sem nunca pensar em revolução. Parece que não há motivo válido para que uma ditadura perfeitamente científica seja algum dia derrubada.

Entretanto, sobra ainda alguma liberdade no mundo. É verdade que muitos jovens parecem não apreciá-la. Porém, um relativo número de pessoas crê ainda que sem ela os seres humanos não podem tornar-se verdadeiramente humanos e que a liberdade é, por isso, um valor supremo. Talvez as forças que agora ameaçam o mundo sejam demasiado poderosas para que se lhes possa resistir durante muito tempo. É ainda nosso dever fazer tudo que pudermos para resistir-lhes.

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Parece-me cruel que este retrato tenha sido feito enquanto meus pais ainda eram esperma. Depois de 1959 os jovens passaram por muitas privações: épocas de escândalos, direitos individuais interrompidos, ditaduras prolongadas, necessidade de guerrear, buscar por si mesmo, aprender a ter voz... mas será que o fizeram por consciência ou não estavam, ainda, inebriados o suficiente, por sonhos milagres fé e drogas? Penso nesse meu tempo, nos jovens com quem convivo. Falta a eles um tanto de charme, que agora, posso jurar, chama-se liberdade! Não a comedida, com tempo pré-determinado, não a quinzenal. Mas a liberdade suprema, de se babar e gozar, e morrer de fome e amor. Voar sem precisar de asas.

22 maio 2011

Praquê

Cantando. Apaixonei-me por um percussionista. Com seus olhos revirados no tesão de tocar a próxima música que me fará sorrir. Sabe que não sou a mais bonita das cabrochas dessa ala. E o ranger dos meus dentes, tempo arranhado. O batom vermelho que saiu mais tarde, em seus lábios. Vermelho, cor de viva memória. Suas mãos avermelhadas de tanto bater naqueles tambores, que a cá imagino as abas de minha bunda. Estática, que a essa observação te ouça no pé do ouvido um suspiro velado. De amor. E eu, calada. A maravilha de ouvir, sem dizer, ouvir. Quando queres assim, calar o momento para que o finalmente aconteça. Grandioso demais. Naquela sala abarrotada de gente. Você. Eu, do lado de cá da fantasia, sempre desejando as coisas erradas, etéreas, efêmeras. Você. Nós fumando um no sofá-cama, com meias desordenadas e ainda faz frio. Não sei o nome do filme, mas ele era alemão. E já não tinha mais tanta gente, ou o barulho do tambor, do vento frio, o suspiro, o ranger, só a pipoca triturada sob os caninos e eu querendo ser aquele momento. Todo ele. Sempre em mim. Vida que acontece, mas que não escolhi. Filme sem cor, porém ao teu lado. Arrancaram do meu delírio o desespero, a felicidade. Soletro teu nome e assino com um d-e-s-a-p-e-g-o. Você. Acho que te vi na padaria. Suas mãos não estavam rosadas dos tambores ou das abas da minha bunda. Amareladas das folhas viradas de livros antigos demais e de cigarros fedorentos que a mim esse mal não mais abate. Você e o vício. Você do meu lado, na cama de outrem. Com a cabeça encostada na minha. Não ouso pegar em sua mão. Eu não sou sua e nem posso. d-e-s-a-p-e-g-o. E aquele vestido que você gostava, eu doei, eu doída.

08 maio 2011

Oh, minha mágoa

Sentia-se apertada. Desconfortável. A situação foi piorando até que era difícil para ela, até mesmo, respirar. Não havia espaço para todos os sonhos. Inflava o peito a procura do oxigênio que não vinha. Foi diminuindo, tão cheia de capacidades, diminuindo. Nunca mais cresceria e seria grandiosa novamente. Nunca mais.

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Tenta batalhar, diariamente, com a lembrança cruel dos melhores tempos. Os que passaram, pois já não confia nos que virão e não confiar é um novo status. Tenta sobreviver nessa nova realidade escorregadia, sem respeitar a si e aqueles que ama. Escorregando. De mês em mês, lhe é esfregado na cara a insensatez do mundo. O desmanche das coisas belas, em ferro velho. Os paparicos e souvenires, à venda, expostos como sucata. As frases sutis, os olhares de lado. Pisados, escarrados e sujos. Como marido bêbado encontrado na porta do botequim. E bebe essa amargura, e maltrata seus amores, e esconde seus medos e sofre, em silêncio, sofre. “Rir ainda consegue”, dizem. “Aprendeu a disfarçar”, respondem.

Há dias, entretanto, que permite certos sonhos. Não são maravilhados e desconcertantes, não dão tesão e nem provocam suspiros. Para todos os efeitos ainda são sonhos. Modestos, é o que se permite. Nesses dias, ela se sente melhor, sorri de dente em dente, cantarola as músicas que a ninavam na infância, faz poesias em guardanapos, toma cafés com bastante açúcar, encontra pessoas aparentemente magníficas, usa vestidos estampados e joga os cabelos para um lado e para o outro, acompanhando o compasso dos quadris.

O mundo sente-se esperançoso: Oh, criatura vil que só enxerga em mim as mazelas. Oh, minha mágoa. Há, afinal esperanças para que me ame?

Esperança, pensa sempre Pandora, que falácia dos Deuses, que ultraje essa tal esperança.


02 maio 2011

Padawan

Ontem eu olhei para o céu depois de ver um filme lindo sobre ser você em frente aos outros. Tomaso assume a vocação de escritor, mas o filme acaba sem que o mundo o ouça dizer “sou gay, namoro Marcos e o amo”. O exemplo não se aplica a mim, porque eu falo muito além do que verdadeiramente sou.  Digo que amo mais do que sou capaz de amar. E a lista de exemplos seria interminável. Aos olhos de outrem sou mais complexa do que aqui, dentro de mim. 

Pensei em tudo isso porque estava irremediavelmente frustrada. Eu, genética e socialmente programada para não me magoar, vivo a jogar em minha face o escárnio da minha falta de coragem. Bolas, melhor não tê-las, mas se não temos, como sabê-lo? Coragem, palavra faceira. Meio modesta, fica a brincar no quarto ao lado. A chamo para o almoço, ela diz que não tem fome. A chamo para a cama, ela diz que não tem sono. A chamo para me salvar da solidão, ela nem sequer responde.


- Eu quero uma chance – ela disse, embaixo da sombra da mangueira na frente de minha casa. Nunca tinha reparado como aquela sombra poderia criar um ótimo jogo de luzes. 

- Chance para quê ? – perguntei, ainda focalizando os olhos na cena, percebendo os tons, as nuances, guardando por fim, na memória. Enquadrando o momento. 

- Você sabe – ela ficou vermelha, a foto fica a cada quadro ainda mais bonita. 

- Não, me explica – eu queria mais, queria prender a respiração CLICK. Meu Deus, como tudo aquilo era emocionante. 

- Chance para nós dois. Percebe a força disso? Pense. Todo mundo merece uma chance, não afobe o momento e não vá se perder por aí. Quando nos encontrarmos, faça com que seja especial. Diga algo como “a chance chegou”, coloque os dedos na minha nuca ou os entrelace aos meus e espere que eu responda, “percebe a força disso?“ – Fui nocauteado, a foto foi perdida, desfocada, muita luz, muita luz entrou, quando ergui os olhos, ela não estava mais lá e a sombra da mangueira era só um espaço vazio. Ainda não a encontrei. Eu sei que ela quer que seja casual. Já se passaram sete meses. Se eu contar ninguém acredita mas, desde então, aquela mangueira nunca deixou de dar mangas. Enormes, rosadas e protegidas pela já comentada sombra, onde fico durante alguns minutos enquadrando aquela mesma foto e aguardando pela chance, percebe a força disso?

20 março 2011

Hahaha

Não é que eu tenha mudado (de novo), é só que o mundo se expandiu um pouco mais. Isso é uma metáfora, obviamente. Passo todo o meu tempo procurando por aquilo que não pode ser nomeado. Nomear é compreender e eu prefiro o incerto. Portanto acredito que a meta é o inominável. 

Enquanto ele não chega, vou me atarefando com o dia a dia, aos poucos e quanto mais amadora melhor. Isso não significa, entretanto, que não me ponho a pensar, nos horários de folga, como seria um eterno feriado, por entre seus morros que não são os de onde vim, mas malharam minhas panturrilhas de igual maneira. Ainda, o quente do seu sol, que faz questão de esquentar os seus, do morro, do asfalto e de terras distantes. Nasce para todos. Ou talvez seu cheiro inconfundível, experiente com seus 450 anos de ocidente e ainda aqueles anos magníficos de tupi-guarani, os quais não são informados às crianças no tempo de ensino fundamental ou regular, a depender da sua geração. Saber que você existe aconchega um pouco mais meu coração. Lembrar que existe um local onde as pessoas trabalham, e estudam, e se planejam para o vestibular, para o batente, ora, como seria diferente? Mas que, ainda assim, tiram o tempo para desperdiçar todos os dentes, a cada bom dia, boa tarde, já é noite. Aceita um cigarro? Uma cerveja?

Gente que ri, que é de Rio que todo boêmio precisa.

Que gastura me dá que a cor que me deste está a desbotar de minha pele a cada banho e suspiro e respirar sujo dessa poeira que aqui há demais. E ninguém há de me julgar, se um dia me cansar de me bronzear no escritório e assistir o pôr do sol pelas câmeras do Detran. Ninguém há de lamentar pois quando for para fugir, a todos depois atestarei minha felicidade, longe de poeira e de classe média desvairada. Isso eu garanto. Porque se acaso necessitar de outra carona em carro policial, que seja para encher meus pulmões do seu cheiro de salitre e não mais arrancá-los do meu paladar. Porque cheiro é sabor e o teu, um dia, será diariamente meu também. Não o documente ainda, porque a essa coragem ainda há de me servir também o desgastar inevitável dos minutos, das horas, dos dias e anos, por fim. Se não for a tua orla, que ninguém diga que não tentei. Mas que há um mundo inteiro para o inominável habitar e minha procura começa onde há gente que mais me fez sorrir em muito tempo. Mais do que minha própria gente. Gente que me põe a fazer as coisas que antes eu não me aventurava.

Gente que samba, que é de Bamba que toda falsa-baiana precisa. 

18 fevereiro 2011

Uma década e um décimo

Nós falávamos de religião ou crenças ou a falta delas. Sobre a vontade de encontrar à deus ou o sublime. Nós falávamos sobre amor ou a falta dele. Sobre como nos modifica ou nos estagna...

São mais de 11 anos. 11 anos, ela disse. Sim, mais de uma década e continuamos aqui, eu respondi. Você não mudou nada. Você também não. Não diga isso, eu cresci. Mas eu também, então, não faz diferença. Como vai seu coração? Anda batendo descompassado? Mas não de amor, de dor, talvez. De angústia. Angústia se é de amor vale a pena. É, não sei ao certo. Sabe do que me recordo? Sua mãe, quero revê-la! Uma das coisas mais fortes que já ouvi, foi aquela vez que dormi na sua casa e ela me disse sobre como as mães são moldadas para as filhas.

Pausa
1998, janeiro. Segunda série. Nossas mães se conheceram em alguma reunião de pais e mestres. Naquele momento elas decidiram, sem o nosso consentimento, que deveríamos ser amigas. Com oito anos, decisão de mãe não se discute. Assim foi estabelecido. Tão logo começamos frequentar a casa uma da outra, como os amigos fazem, com o peito aberto e lençois estampados. Certo dia estávamos na minha casa e geminiana de ascendente áries, é perfeccionista mas criativa. Pintei uma faixa de boas vindas a minha mãe. Não sei de onde ela vinha, mas isso não é importante. Visto aquilo, minha amiga começou a chorar. Por pressuposto, eu fiquei assustada, não sabia o que tinha acontecido para desencadear em lágrimas. Era impossível para mim compreender. Mas minha mãe, com essa condição maternal tão arraigada, disse: "Você sabe porque eu sou a mãe perfeita para a Dandara? Porque a Dandara é a filha perfeita para mim. Toda mãe é perfeita para sua filha."

Eu não me lembro disso. Sério? Nossa, eu lembro de cada palavra. Deve ter sido muito importante para você. Sim, foi. Bom, eu me lembro do seu aniversário de oito anos, que todos os convidados ganharam uma faixa azul com escritos amarelos de "Ah! Eu tô maluco!". O quê? Sua festa de aniversário! Essa era a música do momento. Depois da festa eu dormi lá, dormi ainda com a minha faixa. Eu odeio essa música. Nós não temos mais 8 anos...

Pausa
1998, junho. 413. Todos os convidados foram obrigados a se vestir de azul petróleo, ou marinho. Era um azul da cor da blusa do Cruzeiro. Celeste, talvez? Eu fiquei para dormir. Depois desse dia, eu nunca mais brinquei de Barbie.

Mas eu nunca entendi, para onde você foi naquele ano? Voltei para BH. Minha mãe queria ficar perto do meu avô, ele estava morrendo. Eu não sabia de nada disso, sinto muito. Tudo bem. Agora não me pergunte porque eu voltei, ainda não sei a resposta disso. Você preferiria ter ficado lá? Não sei. Não posso responder isso. Como poderia? Eu não consegui morar no Rio. Por que? Gente besta. Pior que em Brasília? Sim, na Barra é pior.

Pausa
1999, janeiro. Volto para BH. Perdemos totalmente o contato. 2003, julho. Meu avô falece, parada cardíaca. Corpo quente, segundo, corpo gelado. 2004, julho. Minha avó falece, parada cardíaca. Lírios, muitos lírios. 2005, janeiro. Ela muda para o Rio. 2006, fevereiro. Eu volto para Brasília. 2007, agosto. Nos encontramos na internet.

Eu sei que você não acredita, mas posso ler sua mão? Qual das duas? A que dá para ver, a direita. Está bem. Eu vejo viagens, vejo que seu destino se funde com a da razão. Aliás, todas as suas linhas acabam na linha da razão. Sua mão é muito marcada, isso significa que você é um espírito evoluído. Eu vejo filhos. Mas não necessariamente filhos, podem ser realizações. Como um livro? Sim. Então quero um filho e um livro. Você tem o cinturão de Órion. Eu queria poder ver a esquerda. Só tiro a tala na quinta-feira. Elas não são iguais? Não, a direita é o presente, o potencial. A esquerda é o futuro. Hmm... Tudo bem, me desculpe. Não, eu achei bacana. Se tudo for verdade, eu serei feliz. Não é que eu não acredite nessas coisas, eu tenho medo delas. Como assim?

Pausa
2004, julho. Minha avó falece, parada cardíaca. Lírios, muitos lírios. Comprei um tarô, runas antigas e I Ching original. Nunca erraram. 2007. "Deus, um delírio". Parei de acreditar em Deus, no sobrenatural, na fé e no meu tarô.

E você? Eu nunca tive namorado. Não sei porque, nunca consegui. Dar importância. Abrir mão de mim, das minhas coisas, das minhas músicas, dos meus bares, dos meus lençois. Nunca consegui. Então, nunca amou? AH, não sei. Acho que não. Pelo menos, nunca amei ninguém mais do que amo a mim mesma. Também não quero que isso aconteça. Eu só amava a distância, até agora. Quando estava no Rio tive dois namorados que eram daqui. Olha que besteira, em vez de arrumar um namorado lá. Na verdade, o relacionamento que para mim faz mais sentido, é o a distância. Você não tem ciúmes, porque, para que perderia o tempo juntos com ciúmes. Você apoia sem julgar, porque, como julgar algo que não conhece? Você espera pelo melhor, porque os defeitos demoram mais para aparecer. Faz sentido.

Pausa
2006, julho. Em Brasília há cinco meses. Férias em BH, F. andava de skate e tocava bateria. Nunca nos beijamos. 2008, junho. Férias em Buenos Aires, J. tocava guitarra, fala inglês, espanhol, castelhano e francês. Nunca nos beijamos. 2010, janeiro. Feriado em BH, H. faz malabares e conhece todos os meus amigos. Nunca me mereceu.

Você quer ver um filme lá em casa? Amanhã eu tenho aula e trabalho. Acho que vou na casa dele. Ligue para ele. Vou te deixar em casa. Essa seda é horrível. Não quero mais. Põe no cemitério. Foi bom te ver. Finalmente. Liga para mim nesse final de semana? Liga para mim qualquer dia que precisar. São mais de 11 anos. 11 anos, ela disse. Sim, mais de uma década e continuamos aqui, eu respondi.

29 janeiro 2011

D de derrelição

hoje pintei minhas unhas de verde e elas estão tão bonitas que me dá vontade de escrever olhando para elas. o nome do esmalte era absinto. pintei minhas unhas de absinto. absinto como o porre que tomei no Piauí, agarrada aos lábios de L. tentei me lembrar se um dia usei a palavra amor com ele ou outro alguém. disse que amava F., mas faz tantos anos que não me lembro se era verdade. amor de verdade. e não aquele "também" depois que dizem que te amam. "te amo também", não vale. percebi que o único que tocou neste assunto foi H., na vontade desvairada de quebrar o gelo, de me fazer sentir, de me estapiar, de me marcar. H. que me chupou até o oco, até me virar ao contrário, até que eu me perdesse de mim. ele disse "amor 'incoerente'". aliás, mais forte do que dizer, ele escreveu "amor 'incoerente'". escreveu e mandou, coisa que nunca tive coragem. somente meses depois consigo entender essas aspas: 'incoerente'. a redundância. todo amor é incoerente, todo amor. imagine quantas coisas nos escapam diariamente. meses depois eu percebi. todo amor. que não existe, não existiu. mas continua sendo incoerente.
hoje eu aprendi uma palavra nova: derrelição, em A Obscena Sra. D.. D de Dandara. D de derrelição, que quer dizer desamparo. imagine quantas palavras com toda essa força nos escapam diariamente. quantas palavras não chegam à nós. A Obscena Sra. Dandara não sabe as respostas para absolutamente nada. ela não entende nada. incoerente. está gagá. não é toda Sra. que chega a ficar gagá, algumas sabem morrer antes disso, com elegância. mas ela não. é deselegante e como já foi dito, Obscena. porque anda pelada por aí, mostra os seios para as crianças da vizinhança, apesar de não se interessar pelo sexo do marido. não quer mais. prefere se manter debaixo da escada perguntando a si mesma as coisas que não consegue responder. ficar na dúvida, porém pelada. tem um filme de Bergman, não me lembro qual. Trilogia do Silêncio, mas não me lembro qual. ele afirma que a dor de Cristo não era física, não é a cruz que pesa mais. mas a dúvida. se 'deus' o havia esquecido. se 'deus' ainda o merecia. se 'deus' se quer existia. o que te parece? será 'deus', essa alegoria de carnaval, digno de confiança? - foi o que Cristo pensou.
hoje uma idéia me possuiu. e ela gerou dúvida, e ela gerou amor, e um dia, ela se transformará em derrelição. porque tudo se tranforma em desamparo. incoerência. fim.