07 outubro 2011
I've got you deep inside of my mind
Você estava encarando-a, como se sua vida dependesse disso. De cá, onde eu estava, era uma cena ridícula. E quando levantava os braços fingindo que gostava da música, pequenos furos na sua blusa apareciam. Caso não te conhecesse, sentiria pena. Mas ao te ver mendigando atenção eu senti pena de mim. Porque, por mais que você não fosse correspondido, eu também não o era. E via, em você, eu mesma. Tentei puxar pela memória todas as vezes que nos encontramos e quantas dessas estávamos em alguma apresentação musical. Desde então, reprimo esse singelo movimento de aplaudir a música com os braços para cima. Fiquei pensando ainda, se poderiam reparar em mim também, no meio dessa multidão amarelada de Brasília. Conclui que não.
Aquele dia no café, quando me viu de muito longe, meu coração deu um aperto irreprimível. Você me pediu para sentar. Para ficar. "Fica", você disse. Duas horas, repassadas facilmente como se tivessem durado cerca de dez minutos. A relatividade me sacaneando, como sempre. Se te encontrar de novo, decorei um diálogo e quero que você siga à risca. Ele começa comigo dizendo que te desejo o melhor. Porque bem, essa é a verdade. Você deve permanecer calado a essa altura. Depois completo com uma breve explicação de todas as coisas do mundo, sabe, posso pedir emprestado um haikai nesse momento. Se você souber de quem é o poema que citarei, eu te roubo um beijo. Caso contrário, vou prosseguir. Direi ainda que você deve saber que tem outras opções. Porque bem, essa é a verdade. Se você souber de quem é a opção que citarei, por favor, me roube um beijo.
Essa semana conheci um rapaz, num sonho meu, que tinha características muito parecidas com as suas. Diferença fundamental é que ele me queria de volta. Além disso, o nome dele, como fez questão de logo dizer, era Iuri. Não é de Brasília, há de se citar, pois todos sabem que eu não me apaixono por pessoas dessas bandas. O que seria da vida sem manias? Bom, Iuri me disse coisas incríveis sobre Salvador, música, teatro, fotografia, cinema, literatura, sexo. Todas as coisas boas da vida. Iuri disse que gostava de murais e que se admirava como em Brasília há tantos que as pessoas já mal notam. Ele se sentou a minha mesa e dominou o assunto como se tivesse nascido para isso. Hoje sabemos que quem havia dominado era o meu subconsciente. Mas, naquele presente momento, tudo era ainda muito real. Iuri me levou para a sua casa e colocou para tocar um CD triste com uma voz completamente nova para mim, era Sarah Vaughan, como depois eu descobriria. O sofá era amarelo e tinha uma almofada grande em cores primárias. Em um canto, um espelho rachado do teto ao chão, refletia tudo no cômodo. Nós passamos a beber vodka e Iuri me beijou. Não posso repassar todos os detalhes, mas talvez, seja importante explicar que Iuri tinha pintas nos lugares mais bem selecionados que a melanina pode escolher. Lembro-me de uma pequenina, na parte interior de sua coxa esquerda que, alinhada com outras duas, formavam as três marias perfeitas de um escorpião.
Acordei assustada com as semelhanças e me desculpe dizer, não quero te encontrar porque tenho muito medo de enxergar Iuri em você.