19 junho 2011

Não sei, só sei que é assim

Essa tentativa de relativizar as coisas me transformou em uma pessoa vã. Não sei bem se relativizar é a palavra certa, mas ressalto que estou má. Com os olhos demasiado sarcásticos e a cabeça desprezando a tudo e todos. Ao mesmo tempo, aprendi a disfarçar certos recalques e sem eles, o que somos? Realizados? Não, porque a completa realização não existe. Outra coisa que aprendemos metendo a testa na parede até a dor de cabeça não te impedir de acordar às seis da matina e ir estudar e depois trabalhar. Ir crescer. Continuamos como sádicos arrancando as cutículas com os dentes até inflamar a unha inteira e todos ficarem com nojo de nos cumprimentar. Bom, ao menos isso acontece comigo. Eu aqui, por minha vez, fazendo planos de mandar tudo a merda e me esconder em um ônibus enferrujado que sempre via no Pistão Sul. Achava aquele ônibus a realização da suprema liberdade, meio Into The Wild no Cerrado e em Taguatinga. Mas não vou mais para aquelas bandas e preciso encontrar a suprema liberdade nos detalhes desses lugares burgueses pelos quais estou passeando ultimamente. Classe média desvairada do Plano Piloto que me perdoe.

Outro dia, ainda odiando a tudo e todos e querendo, como já colocado, mandar o mundo a merda, saí do trabalho além do expediente e peguei um ônibus vazio. Muito simples, eu teria encostado alí minha cabeça e dormido até um anjo caído me despertar a tempo de descer na parada certa. Isso sempre acontece comigo, acordo a tempo, Chessuis sabe o porquê. Mas posto a cabeça na janela com o movimento corporal friamente calculado a ponto de o sono se sentir convidado, eis que um loiro tatuado atravessa a roleta, olhando para o nada. Visto assim, eu não daria nada por ele. Mas ele se sentou lá no fundão, território dos desgarrados e começou a tocar gaita. Sim, como Mick Jagger. Um homem tocando gaita ao pé do meu ouvido, depois do cotidiano ter me massacrado com todas aquelas notícias de estupro, pedofilia e estelionatos. Um homem, repito, tocando gaita ao pé do meu ouvido.

Não me recordo de conhecer alguém que toque gaita e olha que até acordeão conheço ai, um gato pingado. Que não é tão gato assim. Minha vontade era dizer: "muito prazer, meu nome é Dandara e eu não tenho nenhum amigo que toque gaita. Quer fazer parte do meu círculo social?". Podemos então imaginar várias possibilidades: 1. Eu estava cansada demais para isso. 2. Eu não sou tão livre quanto penso e não teria coragem para isso. 3. Eu estava confortável demais sentindo a música para mexer um músculo se quer. 4. Todas as opções anteriores.

A questão é: eu não sei e nunca saberei. Só sei que tinha ali, talvez, a oportunidade de conhecer um loiro extraordinário mas ando odiando o mundo tanto que preferi, como Jaiminho, evitar a fadiga e continuar gofando palavras nesse blog. Ando tão vã e fria e frígida e intocável que as sutilezas me excitam mas não me motivam. E vai que só tarja preta poderá me salvar dessa realidade sem graça, já que depressão está na moda e já não é mais necessário ser Classe A para visitar um terapeuta. Aquela história de Oceano Sem Mar. Vai que.