28 maio 2011

Sobre Shakespeare

Aqui transcrevo Huxley, esse norte-americano direitista safado que confunde comunismo com ditadura, mas que acerta quanto à falsa democracia que faz de nós um produto pré-idealizado e com layout. Contextualize ainda, em meio à Guerra Fria:

Regresso ao Admirável Mundo Novo

194. Neste ponto encontremo-nos frente a uma pergunta atribuladora: Desejamos realmente agir segundo o que sabemos? Considerará a maioria da população que vale a pena fazer esforços ingentes com o objetivo de parar e, se possível, inverter a tendência atual para o controle totalitário integral? Nos Estados Unidos – e a América é a figura profética do que será o resto do mundo urbano-industrial dentro de alguns anos – investigações recentes da opinião pública revelaram que a maioria dos adolescentes abaixo de vinte anos, os eleitores do futuro, não acreditam nas instituições democráticas, não vêem desvantagens na censura das idéias impopulares, acham impossível um governo do povo pelo povo e julgar-se-iam perfeitamente satisfeitos por serem governados de cima por uma oligarquia de técnicos qualificados, se puderem continuar a viver conforme o estilo que a prosperidade os habituou. Que tantos jovens espectadores bem alimentados da televisão, na mais poderosa democracia do mundo, sejam tão totalmente indiferentes à idéia de se governarem a si próprios, que pouco se interessem pela liberdade de pensamento e pelo direito de discordar, é pesaroso, mas não muito surpreendente. “Livre como um pássaro”, dizemos e invejamos os seres alados devido seu poder de movimento ilimitado nas três dimensões do espaço, mas esquecemos, ai de nós, a nossa menoridade. Todo pássaro que aprendeu a esgaravatar uma boa porção de vermes sem ser impelido a usar as asas, logo renunciará ao privilégio de voar e permanecerá para sempre na terra. Algo de semelhante se passa com os seres humanos. Se o pão lhes é fornecido regular e fartamente três vezes ao dia, muitos deles ficarão satisfeitos vivendo apenas de pão – ou pelo menos, de pão e de espetáculos de circo. “Ao final”, diz o Grande Inquisidor na ficção de Dostoiewski, “ao final hão de depor a liberdade aos nossos pés e hão de dizer-nos: ‘Torna-nos teus escravos, mas alimenta-nos’”. E quando Alyosha Karamazov pergunta ao irmão, o narrador da história, se o Grande Inquisidor está falando sarcasticamente, Ivã responde: “Absolutamente! Ele reivindica com um louvor para si próprio e para sua Igreja o terem subjugado a liberdade, de o terem feito para tornar os homens felizes”. Sim, para tornarem os homens felizes. “Porque nada”, afirma o Grande Inquisidor, “jamais foi mais insuportável para um homem ou uma sociedade humana do que a liberdade”. Nada, exceto a ausência de liberdade, porque quando as coisas vão mal e as rações são limitadas, os infantilmente presos ao solo reclamam pertinazmente as suas asas – apenas para as renunciarem, uma vez mais contudo, quando os tempos melhorarem e os forjadores dos homens se tornarem mais indulgentes e mais generosos. A juventude que raciocina agora de forma tão chã sobre a democracia poderá crescer para lutar pela liberdade. O grito de “Deem-me televisão e cachorros-quentes, mas não me assombrem com as responsabilidades da liberdade”, pode ceder lugar, sob uma modificação das circunstâncias, ao grito de “Deem-me a liberdade ou a morte”. Se tal revolução se realizar será em parte devida à operação de forças sobre as quais até os mais poderosos dirigentes exercem muito pouco domínio, em parte devido à falta de competência desses dirigentes, pela sua incapacidade para tornarem eficiente o emprego dos instrumentos de manipulação do espírito com que a ciência e a tecnologia favoreceram, e continuarão a favorecer, o aspirante a tirano. Considerando o pouco que sabiam e quão pobremente se encontram preparados, os Grandes Inquisidores do passado atuaram de forma esplêndida. Porém os seus sucessores, os ditadores bem informados e totalmente imbuídos de espírito científico do futuro, farão, sem dúvida, muito melhor. O Grande Inquisidor reprova o Cristo por ter chamado os homens à liberdade e diz-lhe: “Corrigimos a tua obra e estabelecêmo-la no milagre, no mistério e na autoridade”. Mas o milagre, o mistério e a autoridade são o necessário para a ditadura. No Admirável Mundo Novo, os ditadores acrescentaram a isso a ciência, o que lhes permitia assegurar a sua autoridade pela manipulação de embriões, dos reflexos nas crianças e dos espíritos de pessoas de qualquer idade. Em lugar de falar apenazmente de milagres e de fazer alusões simbólicas aos mistérios, estavam à altura, graças às drogas, de fazerem que os seus súditos sentissem a experiência direta de mistérios e milagres – transformando fé em conhecimento extasiado. Os ditadores antigos caíram porque nunca forneceram em quantia suficiente aos seus súditos, pão, jogos, milagres e mistérios; também não tinham um método verdadeiramente eficiente de manipulação mental. No passado, livres-pensadores e revolucionários eram muitas vezes produtos da educação mais religiosamente ortodoxa. Não é de se admirar. Os sistemas adotados pelos educadores clássicos eram, e ainda são, extremamente ineficientes. Sob a palmatória de um ditador científico, a educação produzirá realmente os efeitos desejados e daí resultar que a maioria dos homens e das mulheres chegarão a adorar a sua servidão sem nunca pensar em revolução. Parece que não há motivo válido para que uma ditadura perfeitamente científica seja algum dia derrubada.

Entretanto, sobra ainda alguma liberdade no mundo. É verdade que muitos jovens parecem não apreciá-la. Porém, um relativo número de pessoas crê ainda que sem ela os seres humanos não podem tornar-se verdadeiramente humanos e que a liberdade é, por isso, um valor supremo. Talvez as forças que agora ameaçam o mundo sejam demasiado poderosas para que se lhes possa resistir durante muito tempo. É ainda nosso dever fazer tudo que pudermos para resistir-lhes.

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Parece-me cruel que este retrato tenha sido feito enquanto meus pais ainda eram esperma. Depois de 1959 os jovens passaram por muitas privações: épocas de escândalos, direitos individuais interrompidos, ditaduras prolongadas, necessidade de guerrear, buscar por si mesmo, aprender a ter voz... mas será que o fizeram por consciência ou não estavam, ainda, inebriados o suficiente, por sonhos milagres fé e drogas? Penso nesse meu tempo, nos jovens com quem convivo. Falta a eles um tanto de charme, que agora, posso jurar, chama-se liberdade! Não a comedida, com tempo pré-determinado, não a quinzenal. Mas a liberdade suprema, de se babar e gozar, e morrer de fome e amor. Voar sem precisar de asas.