28 novembro 2010
23 novembro 2010
underworld
Escrito em setembro, encontrado hoje.
Mal consigo me lembrar dos motivos iniciais. A cidade, suja cidade, desperta agora olhos mais críticos e que, ultimamente, andam amargurados. Onde estava escondia toda essa pobreza de espírito e de bolso? Como se esconderam de mim, decadência e precariedade?
A cidade, a minha cidade, agora explícita em sua pequenez. O esforço desperdiçado anda a vagar, em um último suspiro de impaciência. Seus defeitos agora são impiedosos, fazem questão de esfregar os destroços dos meus sonhos pueris na minha cara tão limpa e dispersa. Olhos, redondos olhos, assustados olhos e por fim, molhados, encharcados olhos.
E eu pergunto, por que?
Talvez porque a esperança tardava na caixa preta de Pandora e agora, que se pôs a mostra não deixou nem sombra da nostalgia de antes. Arrastou a inocência de mim, essa quimera.
Mas eu te amo, não entenda mal. Apenas te amo com suas cicatrizes, sua face paralisada, sua anemia, sua intoxicação, seus germes, suas desgraças. Oh, cidade sitiada. Eu te amo, mas não te desejo mais.
08 novembro 2010
Aos crentes
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| Anna Karina, dans Vivre sa vie. |
É fácil para uma mulher dizer que nunca amou ninguém. Sorrir, olhando para o trio de ases, sorrir. É fácil expressar assim, com a ponto dos dedos e indicar o caminho da cama. “Há tantos destinos por aqueles lençóis”, é fácil pensar. Sentir o cheiro de suor, os cabelos grudados na nuca. É fácil sair só de sutiã, buscar um café na cozinha. Encher a casa de aroma campestre. É fácil oferecer um chá preto, para curar a garganta arranhada. Alisar o nariz na face cheia de pêlos, de barba, ou beijar, carinhosa, os machucados que a lâmina faz em dia de feira. É fácil buscar uma cerveja gelada, ou uma sopa, um pedaço de pão. Pintar os lábios, rosar as bochechas e exercitar a sutileza. Mas é ainda mais fácil para uma mulher dizer que nunca amou ninguém.
E todos hão de acreditar.
E todos hão de acreditar.
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