29 outubro 2008

Passada A Hora da Estrela.

Meu estado de desolamento é tão forte que me tranquei em mim mesma para não ousar fazer contato com o mundo externo e te ligar com as lágrimas postas.
Empanturrei-me de sorvete de Macadamia, como se alto teor de glicose fosse à salvação da minha vida-consciência. Coisa de quase-burguês que acredita na luta de classes à mão armada, mas que gasta vinte reais em um pote pequeno de fantasias enlatadas.
Estou toda doída de tanto existir. E existir é o meu luxo.
Minha mãe passou mal todo o dia e o cheiro de vômito vai demorar a sair do banheiro, porque a impressão fica guardada na ponta do nariz ou na ponta da memória.
Meu pai me ofereceu quatro convites para nem-me-lembro-o-quê. Eu os recusei, pois vou tirar o sábado para não ser eu ou para continuar não sendo eu (livre leitura).
Vou ver se consigo ficar em casa amanhã, para aproveitar o tédio e a solidão e aumentar o orgasmo de sentir dor no âmago. Acaso perca as minhas medidas te ligarei sobressaltada e direi, sem eira bem beira, em letras garrafais saindo de minhas entranhas que sexta-feira foi um dos melhores dias da minha vida, mas que domingo me estraçalhou as esperanças e diminui minha vontade de viver meu futuro.
Meu travesseiro bem sabe que digo a verdade e essa sua desconfiança de mim chega a ser indecente de tão absurda, dado o tempo que ela desperdiça. Passam-se os dias e não chega o tempo de morangos.

A primeira garota.

Alguns dias atrás renasci por uma garota. Uns 17 anos, esperando ônibus, fones de ouvido, tênis all star, cabelos castanhos e olhos de mel. Da minha janela o tempo parou. Os cinco minutos em que a encarei, pareceram horas e horas de cumplicidade. Eu, envolvida com as páginas de um dos meus romances pessimistas, ao levantar o olhar para perceber à qual distância estava do meu destino, dei de olhos com aquela que permaneceria todo o fim do dia a mandar nos meus pensamentos. Ela, sem desviar os olhos do meu assombro, acompanhou minha expressão ignóbil entre maravilhada e perdida. A primeira marcha virou segunda. Eu me fui. Pensei em olhar para trás, mas por algum motivo não tive coragem. Eu que não acreditava que uma mulher pudesse ter poder sobre uma outra, me peguei pensando que acaso encontre aquela garota novamente, juro por minha sanidade que lhe arranco um sorriso cheio de dentes. Porque, para ser sincera, vai ser bonita assim na casa do caralho.

E, com as palavras de Dostoievski em suas ‘Memórias de Subsolo’, “proponho já da minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor?”. Minha resposta é que, naquele dia, sem perceber, adicionei uma garota a minha coleção de amores platônicos. E o diabo deve saber o porquê.

27 outubro 2008

Relatos, Parte 1.

Veja bem, eu tenho os meus vícios e eu nunca soube ser feliz. Minhas maiores realizações foram os sarcasmos que usei pela vida a fora e as pessoas que magoei continuam empilhadas nos recônditos da minha memória. Sempre fiz as coisas certas para não ser incomodada e as vezes que me traí são contadas em uma só mão, assim como as pessoas que sabem dos meus vacilos. Levo minha rotina e faço o que tenho que fazer. Minha vida é prática, sem direito a erros. Nunca tive um motivo ou um alguém para nada. Sou taciturna e ácida no mais alto grau. Em suma, eu não sou interessante e nem nunca tentei ser. Pareço mesmo com um soque certeiro no estômago, porque de tão indecisa escolhi a indiferença como forma de vida e ninguém nunca percebeu que ela é, na verdade, minha derradeira capa protetora.

Eu não digo as coisas certas e eu costumo chorar enquanto deveria rir. Eu costumo chorar. Eu choro por qualquer coisa e na maioria das vezes nem o meu coração sabe o porquê, que dirá minha razão. Eu soluço enquanto choro e provavelmente, algum dia, eu vou soluçar enquanto gozo. Eu não grito. Bem que gostaria, mas eu não tenho coragem. Eu não tenho coragem. Eu nunca fugi pela janela e nem pela porta da cozinha. Eu nunca beijei na chuva, nunca dancei nua, nunca vi ninguém nu, nunca toquei um ser nu. Se pensar que essa é a parte triste da minha vida, estará muito enganado. Triste, para mim, é fazer aquilo que não se quer. Triste é não ser ouvido porque é o sexo que move o mundo. Triste é perder a infância e tão logo a jovialidade por amor, não que o sexo faça isso, mas o sentimento de doação corrompe até a mais sonhadora e independente das mulheres. Triste é perder a individualidade. Triste é transar com qualquer um e fazer do sexo coisa tão terrena como a fome. Transa-se para acreditar na continuidade da vida, assim como a diferença social existe para que alguns acreditem na superioridade e na validez dessa vida. Mas são todos uns inválidos, os dependentes de sexo e os amantes do dinheiro.

Eu gosto de falar e eu falo muita mentira. São imperceptíveis, juro. Faz tanto tempo que as tenho decoradas que não me lembro mais se são mentiras de verdade ou verdades de mentira. Mas há também as verdades que de tão sólidas, só acontecem comigo, segundo eu sei. E olha que eu sei da vida de todo mundo, porque, por alguma razão, as pessoas gostam de me contar os seus problemas. Mas eles são, na maioria dos casos, muito patéticos ou talvez, minha noção de mediocridade é que englobe muitas coisas. Eu sei, eu não deveria julgar, mas essa é uma mania antiga e ninguém nunca me repreendeu. A não ser Deus. Deus me amaldiçoou a uma solidão que vem de berço e por esse motivo a minha descrença também é de nascença. Essa sim, é a parte triste da minha vida. Porque de todas as ausências, minha fome de fé é que mais machuca os meus dias. Felizes são aqueles que acreditam na benevolência de Deus e podem ter esperança. Felizes são os que limpam a própria consciência com um “Pai Nosso” e conseguem dormir a noite inteira sem se revirar. Felizes são os que enchem os bolsos do capitalismo de dinheiro no Natal, mas que se vêem endividados logo após o carnaval e não perdem as estribeiras por conta disso. Mas eu vivo de blasfêmia, infeliz dependente de dinheiro e feliz amante de sexo (como ele deveria ser).

Desde muito cedo aprendi a ser bem falsa e, sem que ninguém perceba meu desprezo, eu consegui a maioria das coisas que quis. Eu bem que poderia me meter com política, mas não faço isso porque esse é um erro que meus pais já cometeram no meu lugar e chega de decepções ideológicas nessa família. Eu finjo ser apática, mas a verdade é que, em termos de sociedade, eu sou uma ingênua revolucionária com muitas idéias e de caráter basicamente otimista. Mas nada acontece e minha paixão pelos humanos se dissipa cada dia mais. Assim como a minha vontade de ouvi-los. Eu não sei escutar, digo logo. Ouvir posso ouvir, mas jamais levarei frases alheias a sério. A não ser que sejam escritas, a palavra escrita têm caminho certo até minha razão e compreensão. A imagem em nada me influencia e nem as declarações públicas de afeto. A verdade é que declarações me assustam e, como uma menina amedrontada, me escondo entre devassidão e medo, troco minhas próprias pernas entre os meus lençóis, me esqueço do mundo até a aflição passar. Então, de cabeça erguida apareço novamente, refeita em minhas mentiras e com frases tão bem decoradas que ninguém nunca há de perceber que eu estava era me escondendo. Admito, sou romântica demais e não sei lidar com coisas relacionadas ao coração. Após tantos labirintos, eu perdi a lição em que aprendemos a ser sociáveis. Posso falar com todos eles sem de fato dar a mínima atenção. Minhas relações são todas tão superficiais e se esvaem assim que a distância ou o tempo se alongam. Sempre foi assim e eu já me acostumei. Guardo quatro amigas no meu peito, dois pais (apesar das ressalvas) e umas ilusões com nome e sobrenome. Á fora isso, sobrevivo de colegas “que só aparecem quando eu bebo e quando eu não sou eu”.

Sou uma pessoa que discute. Excitam-me as discussões e mais ainda as que, de antemão, eu sei que perderei. No entanto, fico desolada quando perco sem previsão. Em sobressaltos digo o que não deveria, ofendo a todos, amaldiçôo e mando ao inferno as hipocrisias do mundo moderno. Depois me arrependo. Mas como não sei voltar a trás, perco pessoas como perco brincos. Eu perco todos os meus brincos, por isso parei de comprá-los. Em falar em vaidade, a minha é engavetada. Quando me arrumo, me preocupo em parecer espontâneo, quase como se não quisesse ter me arrumado. Tenho é medo de que os outros pensem que me arrumei para essa ou aquela situação, ou para esse ou aquele alguém. Pois, me convenço de que todas as situações e todas as pessoas devem ser dotadas da mesma importância. Eu odeio as vaidosas. Sempre tão vazias e infelizes, não refletem sobre seus motivos e mal entendem os tropeços do mundo. Enquanto eu só me preocupo com isso, tanto que perco o sono e fico com olheiras que mandam ao diabo a minha vaidade. Como odeio maquiagens e safadezas que os homens inventam para não serem eles mesmos e tudo isso escraviza ainda mais as mulheres. Torna-se um círculo vicioso e sobre isso posso discorrer páginas a fio, mas já me canso. Escrever assim, sem motivo, é sempre promissor, mas cansativo. Talvez um outro dia eu queira falar sobre mim novamente, mas é mais provável que eu escreva sobre os vazios do meu peito (como sempre). O sono bate à porta do meu quarto. É melhor atender antes que ele desista de mim.

21 outubro 2008

Seletas e Gabrielas

- Relaxa.
- Relaxar como se eu ando triste há mais de um mês?
- Com o quê?
- (...)
- Ah, mas isso passa e você acostuma.
- Com o quê, com o que ele diz ou com essa nossa situação?

(Meu bem, não inventa de ser irônico nessa altura do campeonato. Nem bêbada posso ficar para aguentar seus meio-sorrisos. Você não pode me ignorar para sempre, você não pode me punir por muito mais tempo. A verdade é que eu nem mereço esse tratamento e não é possível que você discorde disso, não é possível.)

15 outubro 2008

Entre cigarros, cafés e tulipas

Foi durante o último trago que eu comecei a dizer mil coisas. O que eu fazia, o que eu faria e que precisaria de companhia. Contei da piedade que eu merecia, mas que a vida fez do meu orgulho um guia e que agora eu já não sabia como amar.


Você sorriu, me beijou suave, desculpou-se pelo o mundo, tirou meu cabelo de trás da minha orelha e disse: “você merece um mundo de rosas” e deixou seu toco de carinho a queimar no cinzeiro. Eu acompanhei seu olhar até ele beirar a indiferença, foi então que escapuliu da minha boca um sonoro “não, porque eu me cansaria dos espinhos”.


Você levantou, foi ao balcão, pediu um café, voltou e pôs-se a mexê-lo. A me olhar e mexê-lo. O olhar foi ficando frio seguindo o ritmo de expresso curto. “Café gelado”, eu pensei. Você suspirou e disse: “Então, você merece um mundo de tulipas, não é?”. E eu, com o coração atingido, só consegui pensar que o que eu merecia era você. Mas eu lembrei de como isso te assustaria e me mantive calada com meu ‘sorriso de menina’, aquele de quando estou envergonhada e que você sempre elogia. Aquele que transparece o ‘eu te amo’ que não sai da minha boca e que você não está pronto para escutar.

É pra você mesmo

As dores pesam e a balança aponta nosso nada. Todo o sentimento ou qualquer outra coisa assim efêmera. O imaginado e/ou ocorrido carregado de uma jovialidade tenaz para, fatalmente, conhecer o silêncio e morar, humilde, no eterno esquecimento. É assim com você, mas me preocupo em querer esquecer-me de mim também para ir morar contigo onde nem eu mesma possa me encontrar. Por isso, não te esqueço agora, (L).

Um quase-romance

É estranho como a altivez daquele homem me envolveu (confesso que ele não chega a ser homem, mas a fantasia fica mais saborosa para quem lê se escrita desse modo). Tem um espírito desleixado que lhe acentelha um quê de submissão, ao mesmo tempo em que, com gestos finos, demonstra não se importar ás palavras alheias, responde quando é necessário e faz o que tem que ser feito, porque julga vulgaridades esses afazeres cotidianos. Transpassou, cedo demais, a dor e o amor (essa é uma característica minha, mas lhe cai bem ou é mais fácil para minh’alma vê-lo assim). A dor continua presente: nos contos de horror, no choro dos instrumentos musicais, nas sílabas de seu caderninho de anotações, nos seus silêncios prolongados, na mania de vasculhar com os olhos o seu redor e na ansiedade que lhe faz roer as unhas de tardinha. Já o amor está presente apenas no teu coração, esperando pacientemente o dia em que verá a luz do sol novamente (essa descrição é tão perfeita à imagem que faço dele que não consigo imaginar uma melhor).
Certa vez, em um desses dias em que vou de encontro à rua sem nenhuma ambição, eu o encontrei em meu caminho. Mantive-me em uma distância considerável, que desse espaço a ele para ser ele mesmo e que me desse liberdade suficiente para observá-lo (não sei se me viu, mesmo porquê tenho a estranha impressão de que ele, quando me vê, se esforça ao máximo para não chamar minha atenção, o que muito me preocupa, mas não é assunto para agora). Lembro que ventava forte, mas isso não o abalava, pois virado para o sol tragava seu cigarro mais e mais, dando a impressão de que aquele cigarro continha todo o conhecimento humano e o fazia refletir sobre Deus-sabe-o-quê. De noite, já com minha cabeça no travesseiro, pensei com os meu botões que não havia visto nem um meio sorriso no rosto dele. Então, meio cabisbaixa, me deixei sonhar com um passado distante, talvez de outra vida, em que, em tempos de guerra, eu dividia carinhosamente um líquido verde com o homem (esse era mesmo homem) que amava e este líquido nos fazia dormir para sempre. Desde então eu nunca mais acordei.

Cala-te e me ouve

Cala essa sua boca na minha que eu perdôo a sua hesitação, me pega pela cintura e me leva pela mão, me ajuda a concertar as coisas, me ajuda! Ameniza essa dor que eu carrego no meu peito, cura esse medo que eu tenho de amar. Tenta de novo, volta pra mim, para de peça, namora comigo. Acredita na minha vontade de te gerar felicidade ou ao menos perceba a minha precisão de você, porque ela é grande e sua ausência a aumenta.

Eu queria te ligar pra te contar do meu dia, mas não sei se você poderia me ouvir ou se iria querer me ouvir. Se nem um ‘não’ você consegue me dizer, me cortaria a alma falar com as paredes novamente. Eu te levo para todos os lugares, mas não sei se é em mim que você pensa de manhã.

Reclama novamente que eu não me abro pra ninguém. Mas prepara seus ouvidos porque agora eu estou pronta pra falar. Falar no que penso, por que penso demais? Eu te falo das pessoas que passaram por mim e no que elas me mudaram. Eu te conto o que eu espero do mundo, o que eu espero de você. Eu só peço por compreensão e eu prometo te acompanhar e aceitar seus defeitos e rir com vocês todas as vezes que eu não conseguir falar papibaquígrafo. Eu te prometo concordar com o seu ideal de fidelidade, eu só não aceito qualquer sentimento de posse. Porque eu posso estar com você, mas jamais ser sua. Nós podemos existir juntos e esse é o meu ideal de relacionamento.

Eu freio meus impulsos, você acelera suas vontades e a gente faz acontecer. A gente se molda. Eu te faço caber nos meus dias suicidas e você me olha severo quando eu for grossa demais. Viu? Não repete, olhando nos meus olhos, que acha que não vai dar certo. Três anos não são nada perto da vida que está por vir e eu bem sei que nós dois não estamos felizes. Certo mesmo vai ser quando estivermos juntos.

A história de Clarice

Clarice tinha então 18 anos, mas há muito tempo ela já não possuía a leveza presente nessa fase ambígua da vida. Porque a muito se sentia mulher e pensava, com freqüência, que os seus dezoito anos tratavam-se apenas de uma obra mal feita do destino.
O seu caráter era incorrompível, raras as suas mudanças de opinião. Por esse motivo todos evitam gerar discussões com ela e ela preferia assim. Contentava-se em deixar claras as suas convicções, mas de modo certeiro, com ares decidido e ninguém nunca duvidava de que “Clarice estava certa”. Assim sendo, nunca era vista em confusões e curiosamente, era bastante procurada frente às dúvidas alheias. Sempre fora, aparentemente, uma pessoa de muitos amigos, mas em seu coração existiam poucos, bem poucos. A esses destinava uma devoção sobre-humana, mesmo tentando esconder isso. Porque, graças a um profundo sentimento de vazio, Clarice achava mais saudável não depender de ninguém. Sonhava com uma felicidade solitária, pois os solitários eram mais interessantes.
Vê-se logo que tudo mudou, como tinha que ser. Não graças a nenhum vício - mal da geração, mas a uma coisa mais complicada, intocável e intragável. Clarice se apaixonara e não compreendia o que aquilo significaria na sua rotina. Desde sua fase niilista, tinha se esquecido de que isso existia. Porque depois do niilismo vieram os outros homens revoltados e aos dezoito, bom, aos dezoito adotava um mix de descrença que eu, sinceramente, não sei ao certo se há corrente filosófica ou não. Por conta disso não sabia demonstrar seus sentimentos e continuava pregando sua solidão como única forma de existência. Foi tão convincente que deixou escapulir entre os seus dedos o seu objeto de admiração, pois de tanto medo ele fugiu para outra e a deixou com os seus livros hereges.
Hoje ela se diz agnóstica, não esconde mais suas afeições, apesar de continuar só. Hoje ela usa decotes, fuma Malboro dourado, embriaga-se com intenções vulgares e bebidas baratas. Para você ver como se enganar pode mudar uma quase-mulher.

Parei Pai

Eu parei de fumar pai. Eu também não gostava de cigarros antes de começar. Não é porque o mundo me faz mal que eu tenho que me fazer mal também. Você não percebeu quando eu comecei então não me venha falar sobre decepções. Concerto as coisas pelas beiradas, mas não é por você ou por mais ninguém. As bocas que não me beijam me pedem silêncio, me pedem compaixão, me puxam pela razão. Eu que nunca me meto na vida de ninguém. Os romances do século passado me viciaram novamente. Os meus nunca me renderam bons frutos e eu não sei por onde procurar calmaria a não ser no quentinho da minha cama. Já não sei como podem me encontrar se nem eu mesma sei por onde ando. Resta a dúvida se alguém me conhece de fato.

Eu parei de sonhar pai. Todos os lugares em que eu te via ao meu lado já não me apetecem. Não é por sua causa, mas é porque eu não quero estar em lugar nenhum. Eu não posso te culpar, eu sei da sua inocência. Mas tudo é tão difícil e vai saber quando esse vazio tomou conta de mim. Vai saber das possibilidades de cura, porque eu só me preencho com silêncios.

Eu parei de tentar pai. Não agüento mais engolir em seco os meus pesadelos repassados todos os dias no café da manhã, ouvir as vozes que passeiam pelo seu lar ou encarar as esculturas que fizeram dele o que não conheço mais. Parei de te chamar de meu, assim como parei de enxergá-lo como abrigo. Você é mais comum do que eu pensava. Eu que acreditava que a divindade era uma capa que poderia ser vestida quando a merecessem. Agora eu não posso mais ser Deus e podem me chamar de louca, porque não sou feliz.

Não há saída

Entre a prisão e o abismo, eu escolho a morte. Eu escolho os vícios da minha cidade natal. Eu escolho correr para longe disso tudo. Ninguém sabe o que se passa na minha cabeça. Cansei de sofrer pela a decadência alheia, pois que venha a minha.

“Eu não vou me trancafiar com as lágrimas e a poeira da nossa casa. Eu quero o mundo, eu quero esquecer que existo desse jeito que você me criou. Entre você e viver a festa, eu fico com a festa. Você fica sem mim e sua solidão vai te matar de tédio. Assim como eu, você é tão só que chega amarga as poesias de Andrade, com seu jeito simplório de levar a vida sem se questionar sobre o futuro do mundo e sobre o meu futuro. Você não sabe qual a diferença entre niilismo e existencialismo. Você não sabe a diferença do meu sorriso-segredo e do meu sorriso-recompensa. Você não liga à mínima e você não muda por ninguém. Desde sempre sua promessa era a de que o mundo ia melhorar para com a gente. No entanto, é você que sempre me afasta de tudo o que me faz bem. É o espinho mais encravado, porque só traz desilusão e me vicia com seu jeito de adiar os problemas. Você nunca me disse a verdade sobre o mundo e hoje quer me prender para que eu não vire uma segunda você. Não dá mais. Eu quero sofrer por minhas próprias cicatrizes, eu quero as minhas overdoses, as minhas desventuras, eu quero ser eu e ter o que contar. Me deixa ser alguém!”

14 outubro 2008

Bonito Ser

Bonito é quando se encontra um ser tão singular, que ele consegue ser igual a você sem perder a particularidade que faz dele real. Bonito é quando essa igualdade não é vulgar ou forçada. Só então se pode chamá-lo de amigo e classificação melhor do que essa não há. Pelo menos não no meu mundo.

Bonito é quando esse ser consegue te criticar com respeito, que é de direito de qualquer relação humana. Bonito é esse ser te apoiar em frente aos outros, te levar pela mão, te aconselhar com frases colhidas no mais singelo jardim. Bonito é quando esse ser te faz rir, da melhor piada ou das conveniências da vida. Bonito é esse ser aceitar entrar na sua vida sem fazer muitas perguntas, pois ele sabe que quando as intenções são honestas, o passado sempre vira assunto de mesa de bar.

Bonito é existir tais seres e eles te chamarem de amigo. Pena que sejam, quase sempre, mulheres. Porque caso não fossem, essa seria a declaração para o amor da minha vida. Mas essa é a declaração para o mais novo ser que me dá vontade de ser mais Dandara. Bonito é quando um ser de cabelos vermelhos entra na nossa vida (para ficar).

Bonito é quando estou ao seu lado, porque nesses momentos eu sonho e os sonhos fazem questão de nos sonhar.

Amiga, te amo.

09 outubro 2008

Para o Sr. Excêntrico

Parece uma sombra que escolhe as horas mais inoportunas para me enlouquecer. Provavelmente não é obra de Deus o fato de você aparecer enquanto estou com o desespero à espreita. Sempre calado, você chama a minha atenção e eu esqueço do meu orgulho para desperdiçar silêncios ao seu lado.

Uma vez elogiei Bovary para te chamar a atenção, mas hoje confesso que não gosto desse clássico não. Também não gosto de Poe e não sei absolutamente nada sobre a revolução da República Dominicana. No entanto, sou agnóstica como o seu (e o meu) querido Érico Veríssimo. Gosto muito de Camus, mas prefiro “O Homem Revoltado” ao “O Estrangeiro”. Se me dissesse que gosta de Nietzsche, eu te convidaria para ser clichê ao meu lado. Mas se dissesse que gosta de Sade, eu te pediria em casamento, no mesmo dia!

Faria tudo por você. Só não procuraria por Luizas, não ouviria discos inteiros de tango eletrônico e não assistiria filmes cuja fotografia se baseasse na escuridão. Eu gosto de músicas que tenham uma boa letra, pois as dançantes só são aceitáveis em momentos alcoolizados. Eu gosto de filmes que se preocupem com o roteiro, para que eu saia do cinema repassando diálogos inteiros na minha cabeça. Eu gosto muito de conversar sobre os filmes que já vi, assim como os livros que li, as exposições que visitei e os shows que me deixaram rouca.

Eu te vi na exposição do Fernando Sabino, no show do Rock Rocket, no show do Gotan Project, no ônibus lendo Camus, passeando pela minha quadra e refletindo em uma escada imunda. Eu já assisti a alguns filmes seus e sempre vejo você chegar aos bares do quadrilátero. Uma vez te vi desenhando, não sei o quê e sempre te via com cadernos amarelados em que escrevia frases curtinhas, talvez pensamentos. Nossos maços de cigarro se esvaziavam, assim como as minhas intenções. Enquanto isso você olhava para o nada na janela paralela à minha. Somente hoje percebi o tempo que você me tomou. Eu te confundi com o amor da minha vida e as pessoas reais se foram enquanto meu medo de você parecia uma feliz aventura.

Isso de apoiar à homossexualidade ainda vai nos levar além, mas me dói à alma eu ser tão paleozóica, enquanto você defende a poligamia com seus amigos que só vestem preto. Eu continuo gostando de homens e a dúvida disso ser nossa principal coincidência me assombrou por noites demais. Não agüento mais o martírio de levar essa anedota a sério. As páginas que gastei contigo podem ser rasgadas como os estabilizadores podem ser desligados, aprenda a usar botões. Olhe ao seu redor e aprenda a ser feliz. Mas não olhe para mim, porque eu cansei de tentar ser triste como você.

“(...) Vous filez lê parfait amour. Tant mieux, mon cher, tant mieux.”

07 outubro 2008

Nosso pacto.

Eu senti seu sorriso queimando minha face esperançosa. Rimos juntos da mesma piada, que mais parecia uma ironia. Se soubessem... Você corou. Eu virei o rosto. Ninguém percebeu o nosso silencioso pacto de concordância. Mas ele não sai da minha mémoria. Os beijos, os toques, os olhares envergonhados e/ou arrependidos. Reparei em cada passo, mas eu me entreguei de volta a minha rotina e vai saber por onde você anda. Assume logo que tem andado pelos caminhos errados. Que eu te mostro como chegar aos tijolos amarelos.

Hoje é Terça-Feira, o céu borrou a cor.

Eu me vicio. Eu me esqueço. Eu me perco. Imagino a quantidade de coisas que acontecem sem que eu perceba. Elas não acontecem nem dentro e nem fora de mim. Porque eu não sei acontecer.

O que vêem em mim, é o que sou ou o que quero ser? Alguém, por acaso, é e quer ser o que é ao mesmo tempo? Que venham os devaneios. Reparo nos sons que o silêncio faz. Leio livros pela metade que continuam empilhados na cabeceira da minha cama. Enquanto isso o tempo passa por minhas pupilas dilatadas. Cigarros queimam. Amores acabam. Velinhos se beijam. Meu pai bebe muito café.

Eu fecho meus olhos e quando os abro já não lembro mais no que eu pensava. Eu escrevo sobre o nada porque não consigo guardar coisas significativas na minha memória. Eu perco pessoas porque não consigo guardar coisas significativas na minha vida.

Você ia e voltava e eu não me lembro de ter tido coragem pra te pedir pra ficar. O engraçado é que eu sempre te guardei na minha memória, mas não encontrava um espaço para você no meu coração e também não encontrava palavras para demonstrar como eu gostava de te ter por perto. Desculpe, mas eu só sei usar as palavras quando sinto cheiro de papel e ouço o ranger de canetas azuis (sim, elas têm que ser azuis). Guardanapos, extratos bancários e cadernos antigos estão cheios de declarações que fiz pensando na sua última tentativa. Eu te perdi pro acaso.
Meus cigarros queimam e minhas pupilas dilatam, minhas pernas tremem e meu ego dói. Você se foi.

Reze enquanto choras.

Você fecha seus olhos e reza. Reza como se o mundo fosse acabar amanhã. Você não sabe se Deus existe, mas ainda assim você reza. Como sua avó te ensinou antes de “deus” a levar.

Pede para que esse não seja um daqueles pesadelos que duram a noite toda, porque a noite, ah, a noite é tão longa e há tantas coisas com as quais você pode sonhar. Você também pede para que suas forças não acabem e que você encontre um caminho. Uma estrada longa com árvores na beira da calçada e aquelas contínuas listras amarelas que levam nossos olhos sempre à frente, até o horizonte e esse horizonte te convida a alcançá-lo. Você pede por uma nova moradia, que seja clara e sempre limpa. Tão organizada como seus pensamentos deveriam ser. Você pede para que esses pensamentos não te abandonem e que eles sejam sempre sensatos, tanto na escuridão como no mais iluminado raiar do sol. Você tem fé de que seus pensamentos a livrarão de todo o mal e que você nunca estará sozinha enquanto conseguir pensar. Você pede para que nunca fuja e nunca utilize recursos errados. Mas pede também que esses recursos existam, à espreita da sua sanidade. Pede por coragem, coragem para utilizar esses recursos quando tiver certeza que suas preces não serão atendidas. De que esse pesadelo é eterno. Que não existe uma estrada e nem um horizonte convidativo. Que você nunca vai conseguir sair daqui e seus pensamentos vão sempre querer te abandonar e que Deus é apenas uma boa e antiga piada.

Então, você se vê sozinha, rezando para o nada, chorando e cuspindo palavras que ninguém nunca vai querer ler. Pode se sentir uma tola. Uma tola que tem muitos recursos e pouca coragem.

Coroada, rainha de mim.

Finalmente percebi que não se pode levar a vida baseando-se no que as pessoas querem de você. Eu posso dizer coisas lindas, do jeito como você quer ouvir. Eu posso sorrir mais, seguir os parâmetros da publicidade e ser engraçada como qualquer outra jovem de classe média. Mas não sei se devo. Durante tempo demais desempenhei o papel que me atribuíram. Não reclamo, eu cresci com ele. Mas hoje quero ser eu mesma.

Eu não gosto de acordar ouvindo música clássica. Coloca um Chico que eu te dou “bom dia” e cala essa outra boca que só traz discórdia. Eu não gosto de café com adoçante e eu não gosto de ter que ouvir como foram seus sonhos. Eu não gosto de você me dizendo o que tenho que fazer. Eu não gosto da forma como você me trata na frente dos outros, tão diferente do nosso verdadeiro convívio. Eu não gosto mais de te agradar. Sinto muito.

Mas eu gosto tanto de você. Do jeito que você é (ou era). Não entendo porque não pode haver retórica. Não entendo o porquê de você conseguir destinar seu afeto a um único ser humano e punir os outros pelos males que o mundo possui e punir a mim. Não entendo quando você escolhe palavras e faz gentilezas que me ofendem de tão dispensáveis. Enquanto para comigo vai tudo assim, como uma obrigação. Não entendo essa personalidade que você criou que não te serve e não te dignifica. Não entendo como um herói perde seus poderes tão rapidamente. Não entendo como sobrevivo a sua queda.

Mas eu sobrevivo e você mal sente. O tempo vai passar e um dia você vai me ver tão velha, tão longe das suas expectativas iniciais e isso vai te doer tanto que você vai se punir pelo tempo que perdeu querendo me mudar e pelo tempo que perdeu se mudando para os outros.