Ele disse para ela que achava maldade os homens morrerem apenas uma vez. Ela não entendeu e pediu que explicasse. Então, cheio de si, ele gastou mais de vinte minutos em um monólogo que poderia ser resumido em apenas uma frase: "Se morressemos mais de uma vez, sentiriamos a vida com mais intensidade". Ela discordava, mas não quis criar intrigas. Sabia que os homens não gostavam de ser contrariados e era melhor mesmo que ele pensasse que ela não ligava para essas questões, à que ele dava o nome de "existenciais". Mas no fundo e secretamente, ela gostava da idéia de morrer, viver e sofrer somente uma vez. De amar tão louca e intensamente, que tal sentimento não possuía o direito de ser repetido. Que se fosse para acabar um relacionamento, o rompimento deveria ser sentido por toda a vida, da mesma forma e com o mesmo desespero nas noites de frio. Nota-se que os dois eram sonhadores de correntes contrárias. Ele queria as provas materiais daquilo que não era material, enquanto ela queria apenas viver, nas últimas e irremediáveis consequências. Por esse motivo, nunca deram "certo", apesar de permanecerem por toda a vida juntos. Há quem diga que se amaram por demais e que se irritavam de forma avassaladora, porém totalmente viciante. Eu acredito apenas que sem ódio não há forma de existir amor.
Ela se lembrou de Macabéa que de tanta simplicidade acabava por não entender absolutamente nada. Lembrou-se de seu trecho preferido de A Hora da Estrela, em que Macabéa lamentava a própria morte, afirmando que, provavelmente, sentiria saudades dela mesma. E, sem tirar o Tempo de Morangos da cabeça, mais para não deixar a conversa morrer do que por afinidade com o assunto, perguntou à ele: "como poderíamos sentir a vida com mais intensidade, se toda morte exige um recomeço e se todo recomeço apaga as memórias do passado?". Ele franziu a testa por meio segundo e enquanto os pêlos do braço se arrepiavam, ele olhou para o céu que já não era tão azul. "Está escurecendo" - ele disse - "Acho melhor te levar para casa". E vendo a decepção no olhar dela, ele, que já não era muito de se preocupar com os sobresaltos femininos, quis reunir palavras de conforto, mas não conseguiu e a conversa morreu alí. Na porta de casa, com a mãe a vigiá-los pela janela, ela que sempre fora adepta das frases de impacto, disse: "Não sei porque você inicia esses assuntos comigo, se no final das contas, são sempre as minhas perguntas que permanecem sem respostas". Ele dormiu pensando em como a amava e ela dormiu prevendo o futuro em comum.
Desde o início, foram mais de dez mil quinhentas e quarenta e cinco perguntas sem resposta. E, quando viúvo, ele pôde confessar a neta mais querida que deixava a amada falando sozinha, porque nunca conseguiu admitir que ela fazia perguntas que ele não sabia responder. E viveu toda a velhice arrependido por não ter tido coragem de contar para ela que, na realidade, era ela a que mais filosofava entre os dois.