24 fevereiro 2009

Sobre estar só, eu sei.

É complicado descomplicar, pelo simples motivo de que, quando uma pessoa se acostuma à infelicidade, ela já não consegue viver a vida de outra forma. E em ‘viver a vida’ eu quero dizer exatamente o que se diz, pois não há redundância que explique o que a minha vida tem sido ou o que vivê-la tem representado.

Há aquele momento em que descobrimos que, daqui para frente, é sempre ladeira abaixo. Os cabelos e os amigos começam a rarear. O tic-tac do relógio é assombrosamente mais barulhento do que o nosso próprio respirar. E respirar torna-se algo doloroso, cansativo e dispensável. Nos últimos dias eu andei contando os meus passos e cronometrando o tempo que consigo ficar sem afeto e sem ar. Descobri que tenho todo o tempo do mundo e a incrível capacidade de não ter ninguém ao meu lado é suportável frente a minha própria presença. Tolice a minha pensar que era de peito aberto que se devia prosseguir e sinto pena de mim mesma, pois acredito que perdi o dom de acreditar. Já não faço mais amigos, amores e conquistas. Não confio em minha existência a partir de agora. E eu sinto muito se dessa forma estou delegando aos futuros e aos meus sobreviventes o fracasso e a desilusão.

Não creio que há alguém pra me libertar. Não mais.

15 fevereiro 2009

Não Estou Lá.

Ele disse para ela que achava maldade os homens morrerem apenas uma vez. Ela não entendeu e pediu que explicasse. Então, cheio de si, ele gastou mais de vinte minutos em um monólogo que poderia ser resumido em apenas uma frase: "Se morressemos mais de uma vez, sentiriamos a vida com mais intensidade". Ela discordava, mas não quis criar intrigas. Sabia que os homens não gostavam de ser contrariados e era melhor mesmo que ele pensasse que ela não ligava para essas questões, à que ele dava o nome de "existenciais". Mas no fundo e secretamente, ela gostava da idéia de morrer, viver e sofrer somente uma vez. De amar tão louca e intensamente, que tal sentimento não possuía o direito de ser repetido. Que se fosse para acabar um relacionamento, o rompimento deveria ser sentido por toda a vida, da mesma forma e com o mesmo desespero nas noites de frio. Nota-se que os dois eram sonhadores de correntes contrárias. Ele queria as provas materiais daquilo que não era material, enquanto ela queria apenas viver, nas últimas e irremediáveis consequências. Por esse motivo, nunca deram "certo", apesar de permanecerem por toda a vida juntos. Há quem diga que se amaram por demais e que se irritavam de forma avassaladora, porém totalmente viciante. Eu acredito apenas que sem ódio não há forma de existir amor.
Ela se lembrou de Macabéa que de tanta simplicidade acabava por não entender absolutamente nada. Lembrou-se de seu trecho preferido de A Hora da Estrela, em que Macabéa lamentava a própria morte, afirmando que, provavelmente, sentiria saudades dela mesma. E, sem tirar o Tempo de Morangos da cabeça, mais para não deixar a conversa morrer do que por afinidade com o assunto, perguntou à ele: "como poderíamos sentir a vida com mais intensidade, se toda morte exige um recomeço e se todo recomeço apaga as memórias do passado?". Ele franziu a testa por meio segundo e enquanto os pêlos do braço se arrepiavam, ele olhou para o céu que já não era tão azul. "Está escurecendo" - ele disse - "Acho melhor te levar para casa". E vendo a decepção no olhar dela, ele, que já não era muito de se preocupar com os sobresaltos femininos, quis reunir palavras de conforto, mas não conseguiu e a conversa morreu alí. Na porta de casa, com a mãe a vigiá-los pela janela, ela que sempre fora adepta das frases de impacto, disse: "Não sei porque você inicia esses assuntos comigo, se no final das contas, são sempre as minhas perguntas que permanecem sem respostas". Ele dormiu pensando em como a amava e ela dormiu prevendo o futuro em comum.
Desde o início, foram mais de dez mil quinhentas e quarenta e cinco perguntas sem resposta. E, quando viúvo, ele pôde confessar a neta mais querida que deixava a amada falando sozinha, porque nunca conseguiu admitir que ela fazia perguntas que ele não sabia responder. E viveu toda a velhice arrependido por não ter tido coragem de contar para ela que, na realidade, era ela a que mais filosofava entre os dois.

12 fevereiro 2009

20 minutos para salvar o mundo.

Tenho 20 minutos antes que tudo desligue-se automaticamente e a idéia morra na minha cabeça. Não sou como Madonna que tinha 4 minutos e ainda assim conseguiu se segurar em Jesus. E Jesus, danadinho, se deu bem. Como todos sabem (ou deveriam saber, ou não) Jesus é brasileiro e graças à Madonna conquistou o seu Green Card. Sorte dele. Viva 'the american dream'. Nacirema, para aqueles que entenderam à tempo e também para aqueles que precisaram de Luanda lá de Ruanda. Eu tenho mais de 4 minutos mas ainda assim, me parece muito pouco.

Hei de começar com... Acordei atrasada por culpa do pão quente, pois sempre como gelado; ou do cabelo limpinho, pois nunca lavo o cabelo (de manhã); dos dez minutos a mais, pois sempre durmo apenas cinco; da chuva. Não sei. Acordei atrasada e viva Brasil rumo ao Hexa (?) - não faz a mínima diferença. Delirei sobre crônicas e Ed's. Ed's só quinta, olha que azar. Conic que me salve e filas que aguardo. Mentiras ao telefone. Calorias, cafés, calorias. Chá de maracujá, ou maracujá de chá? Nada de Rafael. Uma roda-mundo-roda-gigante. Tinha uma cadeira de rodas no meio do caminho, no meio da cadeira de rodas tinha uma pessoa. E agora José? Cobradores machistas, mundo cruel, Sanderos realmente mal dirigidos. Garotos de preto, valas de brinquedo, amoras pelo chão. Chaves, caveiras, navalhas. Senhas, recados, caixa postal, 'chamada à cobrar, para aceitá-la continue na linha após a indentificação'. 'Quinta-feira bem que podia ser dia para sair' - eu disse - 'Mas e o que vai se da Estética na Comunicação?'. Banho gelado, nada de materialistas, Barât, latino-americanos, farofas, índios ou melhor amiga.

Tenho apenas 20 minutos para salvar esse texto.

11 fevereiro 2009

Oi, meu nome é ribanceira.

Nenhum esforço será reconhecido e talvez tudo não passe de mentira. Eu permanecia pensando somente em mim, a cada escolha e não foi pelo dinheiro, não mesmo. Pensar somente em si é, de alguma forma, permanecer humana. O telefone toca e, com o maior esforço do mundo, eu o atendo para ouvir sempre as mesmas reclamações. Não há valor moral que aguente e não mande logo a merda e desligue e depois chore e chore e chore. Quando se desliga o telefone na cara de alguém, ainda que 'o alguém' o mereça fervorosamente, somos nós mesmos quem nos sentimos pior. Afinal de contas, à quais impropérios tivemos que ouvir a ponto de cometermos tamanha falta de educação? Algo é suficientemente inaceitável para que faltemos com o respeito a outro ser desligando o telefone sem nem ao menos dizer 'ei, não quero saber, vou desligar'? O 'tum tum tum' nos magoa mil vezes mais do que aquele que não ouviu o 'eu vou desligar', pois 'eu vou desligar' é previsivel e singelo, já o 'tum tum tum' não encontra caminhos por nenhuma compreensão. E, a partir de então, o dia se estende em lamentos tantos, pois o telefone não toca de novo e não teria mesmo sido sincero se eu dissesse 'me perdoe, eu me descontrolei'. Não conseguir ser sincera é a maior tortura que há. Queria mesmo era viver em um mundo em que as pessoas pudessem se descontrolar sem ter que se sentir culpadas por isso, sem ter que inventar lamentos, sem se olhar no espelho treinando a cara de 'está tudo bem'.
Pois, sabe? Nada está 'tudo bem'. Nada nunca esteve 'tudo bem'. Para ninguém, diga-se de passagem. E 'tum tum tum' na minha quarta-feira feliz.
- 'Títulos não precisam concordar com os textos' - disse Fernando Pessoa (não o português, o brasileiro mesmo). - 'Escritores tem licença poética'.
Então ribanceira, seja (in)feliz ladeira à baixo.

07 fevereiro 2009


"Se tu pensas que me enganas eu bem sei, eu só não quero que tu penses que me enganas e eu não sei".

06 fevereiro 2009

A pobreza sorria, a Dandara encantada.

A pobreza cospia nos próprios pés, coitada. Anda sempre corcunda pelas ruas estreitas e o trânsito a faz balancear entre o 'onde se deve ir' e o 'onde se quer ir'. Mas, naquele dia, permanecia parada, sorvendo o ar massacrante e quente, com bolhas nos pés e nas mãos, sem desfrutar a sesta e padecendo em pé. A pobreza, ainda assim, sorria.

Isolada no ar condicionado, o mundo era de tal forma azul e verde que minha inocência combinava com a minha vontade de rosar as maçãs do meu rosto. Até o momento em que a pobreza cospiu nos próprios pés e eu, enojada, não consegui afastar de meus pensamentos o calor que os pés da pobreza deveriam estar sentindo. O sinal vermelho anunciava o espetáculo dos garotos morenos com vendas de algodão, que trocavam os pés pelas mãos em artemanhas que envolviam bolinhas de tênis, pulos e estrelinhas. Era realmente tudo lindo e inspiradoramente complicado. O boné vermelho não sentiu o tilintar de moedas mas pude perceber que, se pudesse, a pobreza encheria aquele boné de alegria. Pois a pobreza queria mais e esperava o verde, o amarelo, sorria espirituosa pro vermelho que se estendia... Ela se esquecia da rotina que deveria comprir, já que sexta é dia de feira, de obra, de trampo e de exploração. Carregava quatro malas abarrotadas de roupas que não deveriam mais estar em condições de uso e se deliciava com manobras infantis dos meninos que devem ter decido do morro pra conseguir uns trocados. Eles não cospiam nos próprios pés, mas cospiam nas próprias mãos, coitados. É que a saliva é boa pra grudar bocas e malabares.

E assistindo logo ao lado, a pobreza sorria. E assistindo bem distante, eu me encantava.

1) Sobre a revolução a gente ouve cada coisa... Lendo "Dias e Noites de Amor e de Guerra", de Eduardo Galeano, tive - como que se diz? - uma revelação.

" Dos rapazes que daquele tempo conheci nas montanhas, quem estará vivo? 4. Conversa que não sei se escutei ou imaginei, naqueles dias:
-Uma revolução de mar a mar. O país inteirinho levantando. E penso ver isso com esses meus olhos...
- E vai mudar tudo, tudo?
- Até as raízes.
- E não teremos mais de vender os braços por nada?
- De jeito nenhum.
- Nem aguentar ser tratado que nem bicho?
- Ninguém será dono de ninguém.
- E os ricos?
- Não haverá mais ricos!
- E quem é que vai pagar aos pobres, nas colheitas?
- É que também não vai ter mais pobre, não entende?
- Nem rico nem pobre.
- Nem pobre nem rico.
- Mas, então, não vai ficar ninguém na Guatemala. Porque aqui você sabe, o que não é rico é pobre."

E com os olhos cansados de tanto ler, eu me encantava. E com os olhos cansados de tanto sofrer, o sorriso da pobreza falecia.

02 fevereiro 2009

Pedra da Gávea

O Rio é todo azul e verde. É tanta Mata Atlântica abaixo de um céu azul. A Pedra da Gávea é curiosamente contrária a tudo o que eu espero da natureza. Você gostaria de estar aqui comigo. Eu sei que sim. Tudo que passa por meus olhos agora, eu tento levar até a sua compreensão. E tento reproduzir o que você diria, qual seria sua expressão, se você sorriria e de tanto rir, se escorreriam lágrimas do seu rosto. Te vejo em absolutamente todos os lugares. E sinto tanto, mas tanto por não ter te sequetrado pra vida. Pois há tanta vida, amiga, há tanta vida a nossa volta. Eu, que me sinto uma amadora, vivi tão pouco e ainda assim, mais do que você. E você com seus receios e eu os aceitava, como fui tola, como me arrependo! Devia ter te chacoalhado como se você tivesse medo de escuro, dito que não há nada na beira do arco-íris, mas ainda assim, vale à pena chegar até lá. Devia ter te levado para aventuras mais sérias, onde pudessemos nos lembrar com medo e a adrenalina subisse novamente a cabeça.
Por um momento eu desisti de você, de te entregar liberdade da forma como eu a conheço. Eu aceitei viver com suas regras apenas pra poder te ver, mas era sempre tão curto. E sua 'hora da Cinderela' era tão certeira e o melhor da noite nós deixávamos pra outro dia. E as noites passavam por minhas bebedeiras, eu dançava e eu ria até as três, quatro horas da manhã. Eu via o pôr-do-sol e você já devia estar dormindo.
Amaldiçoo Deus e todas as suas razões. Não acredito nele e eu acreditava tão verdadeiramente em você. Que não tinha 19 anos como afirmou o Jornal da Bahia, mas que tinha 18 em um EcoSport preto. Deus é um tolo, acaso ele exista, pois tirou do mundo umas das melhores pessoas que eu conheci. E essa chance única de vida que você usou tão de relance.
Dava pra pular da Pedra da Gávea de para-quedas e pousar na Praia de Copacabana. O mundo inteiro em Copacabana e nós duas voando a Mata Atlântica em um céu tão azul. Se você estivesse aqui, é exatamente o que eu te levaria pra fazer.