A pobreza cospia nos próprios pés, coitada. Anda sempre corcunda pelas ruas estreitas e o trânsito a faz balancear entre o 'onde se deve ir' e o 'onde se quer ir'. Mas, naquele dia, permanecia parada, sorvendo o ar massacrante e quente, com bolhas nos pés e nas mãos, sem desfrutar a sesta e padecendo em pé. A pobreza, ainda assim, sorria.
Isolada no ar condicionado, o mundo era de tal forma azul e verde que minha inocência combinava com a minha vontade de rosar as maçãs do meu rosto. Até o momento em que a pobreza cospiu nos próprios pés e eu, enojada, não consegui afastar de meus pensamentos o calor que os pés da pobreza deveriam estar sentindo. O sinal vermelho anunciava o espetáculo dos garotos morenos com vendas de algodão, que trocavam os pés pelas mãos em artemanhas que envolviam bolinhas de tênis, pulos e estrelinhas. Era realmente tudo lindo e inspiradoramente complicado. O boné vermelho não sentiu o tilintar de moedas mas pude perceber que, se pudesse, a pobreza encheria aquele boné de alegria. Pois a pobreza queria mais e esperava o verde, o amarelo, sorria espirituosa pro vermelho que se estendia... Ela se esquecia da rotina que deveria comprir, já que sexta é dia de feira, de obra, de trampo e de exploração. Carregava quatro malas abarrotadas de roupas que não deveriam mais estar em condições de uso e se deliciava com manobras infantis dos meninos que devem ter decido do morro pra conseguir uns trocados. Eles não cospiam nos próprios pés, mas cospiam nas próprias mãos, coitados. É que a saliva é boa pra grudar bocas e malabares.
E assistindo logo ao lado, a pobreza sorria. E assistindo bem distante, eu me encantava.
1) Sobre a revolução a gente ouve cada coisa... Lendo "Dias e Noites de Amor e de Guerra", de Eduardo Galeano, tive - como que se diz? - uma revelação.
" Dos rapazes que daquele tempo conheci nas montanhas, quem estará vivo? 4. Conversa que não sei se escutei ou imaginei, naqueles dias:
-Uma revolução de mar a mar. O país inteirinho levantando. E penso ver isso com esses meus olhos...
- E vai mudar tudo, tudo?
- Até as raízes.
- E não teremos mais de vender os braços por nada?
- De jeito nenhum.
- Nem aguentar ser tratado que nem bicho?
- Ninguém será dono de ninguém.
- E os ricos?
- Não haverá mais ricos!
- E quem é que vai pagar aos pobres, nas colheitas?
- É que também não vai ter mais pobre, não entende?
- Nem rico nem pobre.
- Nem pobre nem rico.
- Mas, então, não vai ficar ninguém na Guatemala. Porque aqui você sabe, o que não é rico é pobre."
E com os olhos cansados de tanto ler, eu me encantava. E com os olhos cansados de tanto sofrer, o sorriso da pobreza falecia.
Isolada no ar condicionado, o mundo era de tal forma azul e verde que minha inocência combinava com a minha vontade de rosar as maçãs do meu rosto. Até o momento em que a pobreza cospiu nos próprios pés e eu, enojada, não consegui afastar de meus pensamentos o calor que os pés da pobreza deveriam estar sentindo. O sinal vermelho anunciava o espetáculo dos garotos morenos com vendas de algodão, que trocavam os pés pelas mãos em artemanhas que envolviam bolinhas de tênis, pulos e estrelinhas. Era realmente tudo lindo e inspiradoramente complicado. O boné vermelho não sentiu o tilintar de moedas mas pude perceber que, se pudesse, a pobreza encheria aquele boné de alegria. Pois a pobreza queria mais e esperava o verde, o amarelo, sorria espirituosa pro vermelho que se estendia... Ela se esquecia da rotina que deveria comprir, já que sexta é dia de feira, de obra, de trampo e de exploração. Carregava quatro malas abarrotadas de roupas que não deveriam mais estar em condições de uso e se deliciava com manobras infantis dos meninos que devem ter decido do morro pra conseguir uns trocados. Eles não cospiam nos próprios pés, mas cospiam nas próprias mãos, coitados. É que a saliva é boa pra grudar bocas e malabares.
E assistindo logo ao lado, a pobreza sorria. E assistindo bem distante, eu me encantava.
1) Sobre a revolução a gente ouve cada coisa... Lendo "Dias e Noites de Amor e de Guerra", de Eduardo Galeano, tive - como que se diz? - uma revelação.
" Dos rapazes que daquele tempo conheci nas montanhas, quem estará vivo? 4. Conversa que não sei se escutei ou imaginei, naqueles dias:
-Uma revolução de mar a mar. O país inteirinho levantando. E penso ver isso com esses meus olhos...
- E vai mudar tudo, tudo?
- Até as raízes.
- E não teremos mais de vender os braços por nada?
- De jeito nenhum.
- Nem aguentar ser tratado que nem bicho?
- Ninguém será dono de ninguém.
- E os ricos?
- Não haverá mais ricos!
- E quem é que vai pagar aos pobres, nas colheitas?
- É que também não vai ter mais pobre, não entende?
- Nem rico nem pobre.
- Nem pobre nem rico.
- Mas, então, não vai ficar ninguém na Guatemala. Porque aqui você sabe, o que não é rico é pobre."
E com os olhos cansados de tanto ler, eu me encantava. E com os olhos cansados de tanto sofrer, o sorriso da pobreza falecia.