É complicado descomplicar, pelo simples motivo de que, quando uma pessoa se acostuma à infelicidade, ela já não consegue viver a vida de outra forma. E em ‘viver a vida’ eu quero dizer exatamente o que se diz, pois não há redundância que explique o que a minha vida tem sido ou o que vivê-la tem representado.
Há aquele momento em que descobrimos que, daqui para frente, é sempre ladeira abaixo. Os cabelos e os amigos começam a rarear. O tic-tac do relógio é assombrosamente mais barulhento do que o nosso próprio respirar. E respirar torna-se algo doloroso, cansativo e dispensável. Nos últimos dias eu andei contando os meus passos e cronometrando o tempo que consigo ficar sem afeto e sem ar. Descobri que tenho todo o tempo do mundo e a incrível capacidade de não ter ninguém ao meu lado é suportável frente a minha própria presença. Tolice a minha pensar que era de peito aberto que se devia prosseguir e sinto pena de mim mesma, pois acredito que perdi o dom de acreditar. Já não faço mais amigos, amores e conquistas. Não confio em minha existência a partir de agora. E eu sinto muito se dessa forma estou delegando aos futuros e aos meus sobreviventes o fracasso e a desilusão.
Não creio que há alguém pra me libertar. Não mais.