Veja bem, eu não consigo juntar as sílabas como você faz. Expressar desejos, dúvidas e sentimentos com uma palavra e ponto final. “Antes uma única palavra do que onomatopéias”, eu poderia dizer. Mas não quero inventar desculpas por você ser como é. Eu quero ver a vida com o seu jeito, quero aceitá-lo. Percebe a força disso? Eu quero entrar nas coisas que vejo nos seus olhos e que ouço na sua voz, toda vez que você assim permitir. Mas também quero aceitar aquelas que jamais poderei tocar, por serem suas demais. Por você ser outro alguém. Já entendi que você jamais pertencerá a mim e nem eu a você. Eu não quero ser algo vital, tipo água, ou fogo, terra, ar e cosmo. Nem por um segundo, não quero te ver preso ou te ter só para mim. Você é tão maravilhoso batendo suas asas por aí, caminhando contra o tempo. Eu não sinto medo como antes. Eu sinto calmaria e, por enquanto, esse sereno não dói. Palavra e ponto final.
Natasha, to love is to suffer. To avoid suffering, one must not love. But, then one suffers from not loving. Therefore, to love is to suffer, not to love is to suffer, to suffer is to suffer. To be happy is to love, to be happy, then, is to suffer, but suffering makes one unhappy, therefore, to be unhappy one must love, or love to suffer, or suffer from too much happiness. I hope you're getting this down.
(É preciso antes contextualizar os sentimentos. Quando me disse que tinha me enviado um fino, eu fiquei com o coração na boca. Acho que isso foi há um mês atrás. É claro que sei que não é um gesto romântico. Mas eu também acredito que não é romantismo que espero. Porque eu teria que retribuí-los e não sei ao certo se saberia fazer isso. Com gestos, não sei. Lembro que também me disse que eu poderia te enviar o que eu quisesse. No começo eu pensava em te mandar fragmentos dos livros que leio, aqui, longe de ti. Depois pensei em te enviar tirinhas, de jornal, de revista e dos meus quadrinhos. E depois, quando percebi que, na verdade, nunca teria coragem de te enviar nada disso, passei a escrever cartas. Escrever de verdade, páginas e páginas das coisas mais banais. Das coisas que só são banais porque você não está aqui. Algumas hoje devem estar na reciclagem. Aqui fazemos coleta seletiva. O fato é que essas cartas são verborrágicas e quando as leio novamente, são aflitivas para mim. Você não me perdoaria se eu as enviasse, porque, diferente de ti, não sei dar um peso de afeto nas coisas que digo e não sei manter o mistério. Sou sempre dramática e as coisas que digo, não têm perdão. Eu teria dito que te amava, sem amar. Que te odiava, sem odiar. Porque o valor do que sinto, nunca é claro para mim. E a verdade, no final das contas, é que talvez nada sentia e não sinto. Só curiosidade por algo que nunca tive e, no seu caso, o algo que ninguém jamais conseguirá ter. É por isso que pensa que ninguém escreve ao Coronel. Pois se engana, eu escrevo ao matemático quase diariamente. Mas, a força de minhas palavras tanto me apavora que há muito tempo me livrei de teu endereço. O próximo passo será livrar-me de mim ou de ti. Veremos com o decorrer do tempo...)
Duas Semanas Atrás
Terminei de ler um livro hoje que meu amigo argentino me indicou. Foi o único indicado por ele que eu não tinha lido ainda. Por isso, o comprei. Me arrependi. Afora algumas metáforas, não vale R$ 39,90. E, não quero parecer preconceituosa, mas não sabia que japoneses sabiam fazer piadas de humor negro. Eles nem mesmo beijam em público, como podem ironizar?
Mas é engraçado, por mais medíocre que um livro seja, sempre há um trecho que prende minha atenção por alguns momentos. Uma vez eu tinha cinco reais no bolso e passei em uma banca para comprar um maço. Na época eu fumava Lucky Strike vermelho. Era uma época mais niilista. Acontece que não comprei o cigarro. Por algum motivo, comprei uma daquelas publicações com papel de jornal, de onde saem às novelas mexicanas. Já viu? Se houvesse algumas cenas de sexo nesses folhetins, estou convencida de que dariam filmes pornôs perfeitamente passáveis. Apesar de nunca ter assistido um de verdade, eles sempre me deram muito sono. Enfim, o trecho do folhetim que me deixou intrigada dizia:
“Latinoamericanos sabem como se deve sofrer”
Lembro que essa frase me arrancou um sorriso. Porque é um tanto animador atribuir o sofrimento como uma característica. Ou seja, o drama recebendo seu lugar de direito. É bonito, não é?
Outro dia minha mãe disse algo como o contrário disso. Ela disse que eu não sabia nem sofrer e nem ser feliz. Eu adoro a simplicidade como as coisas saem da boca dela. É claro que eu me denfendi, porque se não eu seria como um rio de nada, um tédio sem trilhos, “oceano sem mar”. Então, contei a ela sobre essa coisa dos trechos, como sou apegada as frases no geral. Ela se convenceu, disse que havia esperanças para mim, afinal. Tive que revelar outras manias também, associadas ao tema “das pequenas coisas”. Mas eu não contaria, todas elas, a você, em uma carta. Quer dizer, minhas manias são demasiado especiais para serem dadas assim, de bandeja. Não queremos que você se apaixone por mim. Vou poupá-lo então, da dimensão do meu charme.
Sim, voltando ao livro do Japonês. A personagem principal escreve ao narrador uma carta de cinco páginas. Apenas falando trivialidades, assim. Se eu escrevesse cinco páginas, você as leria? Teria paciência para elas?
Eu ainda não contei, entretanto, o trecho do livro que me fez sorrir. Vou transcrevê-lo aqui:
“ – Depois disso tudo, não comece a me odiar, está bem? – disse Sumire. Sua voz foi como uma fala em um velho filme preto e branco de Juan-Luc Godard, filtrando-se além de minha consciência.
- Depois disso tudo, não vou começar a odiá-la – repliquei.”
E então, o que achou? Primeiro eu sorri. Imaginar um diálogo em japonês em um filme do Godard, foi como imaginar um filme do Almodóvar sobre heterossexualismo. Depois eu me deixei envolver pela força do diálogo e claro, pelo sentimento do narrador. Deve ser incrível ouvir uma frase tão singular que ela faz com que você se sinta em um filme e deve ser impressionante ter o poder de infiltrar na consciência, brincar de se instalar ali sem que nunca mais consigam se livrar de suas palavras. Palavras eternas.
Será que um dia serei capaz de tais palavras?
Semana Passada
Eu preciso rebatizar o que sinto por você. Não é mais a mesma coisa. Nesse momento, não conheço a palavra que nomeia esse sentimento. Sinto você escorrendo para fora de mim e é algo simples, como suor nas noites de verão. Sinto a derrota de escapar mais uma vez, mas meu corpo aceita, submisso. Os meus olhos nem sequer ficam molhados vendo você se esvaindo, descendo pelo ralo de manhã. A idéia que eu tinha de você foi deposta, escorraçada em praça pública, apedrejada, humilhada e maltratada. A ilusão morreu.
Mas o que, então, é isso que sinto por esse você que existe aí, distante? Eu ainda não sei nomear e mesmo exercitando a minha leitura, não consigo trazer para o meu vocabulário essa palavra sutil que finalmente limitará seu poder sob mim e o meu sobre ti.
– Depois disso tudo, não comece a me odiar, está bem? –
Sempre achei que existiam apenas dois tipos de pessoas. As que gritavam e as que ouviam a curva do vento passar pela janela. Passei muitos anos e muitas linhas até descobrir que o grito não fazia com que o vento da janela fosse menos ameaçador. Era preciso menos urgência e, definitivamente, era preciso coragem.
Meu medo, pequenino, era um dia me calar de uma só vez, por dar mais valor à palavra do outro do que a minha própria. Seria sinal da minha imensa vulgaridade, a necessidade de outra voz. O que eu queria era a independência eterna. Eu não queria mais nada além de mim mesma e eu também não precisava.
“O que me vale mais, a felicidade barata ou o sofrimento elevado?”, dizíamos eu e Anna Karenina, viciadas no impossível, no intocado, na morfina e entregues ao suicídio depois que já não havia nada a ser realizado. Antes atropeladas por um trem do que pelo tédio.
Agora chego a esse impasse. A escolha silenciosa entre meu grito ou a curva incestuosa do vento. Fico muda, frente ao seu poder, sua negligência, sua existência escorregadia e sua absoluta falta de tato. Fico surda ao lamento dos outros, as suas preocupações com meu coração inexperiente. Fico cega e lamentavelmente fraca. Por você, sou inválida.
A verdade é que eu só não queria ser conhecida como alguém que sonhava os sonhos errados.