05 agosto 2010

Invalidez

Sempre achei que existiam apenas dois tipos de pessoas. As que gritavam e as que ouviam a curva do vento passar pela janela. Passei muitos anos e muitas linhas até descobrir que o grito não fazia com que o vento da janela fosse menos ameaçador. Era preciso menos urgência e, definitivamente, era preciso coragem.

Meu medo, pequenino, era um dia me calar de uma só vez, por dar mais valor à palavra do outro do que a minha própria. Seria sinal da minha imensa vulgaridade, a necessidade de outra voz. O que eu queria era a independência eterna. Eu não queria mais nada além de mim mesma e eu também não precisava.

“O que me vale mais, a felicidade barata ou o sofrimento elevado?”, dizíamos eu e Anna Karenina, viciadas no impossível, no intocado, na morfina e entregues ao suicídio depois que já não havia nada a ser realizado. Antes atropeladas por um trem do que pelo tédio.

Agora chego a esse impasse. A escolha silenciosa entre meu grito ou a curva incestuosa do vento. Fico muda, frente ao seu poder, sua negligência, sua existência escorregadia e sua absoluta falta de tato.  Fico surda ao lamento dos outros, as suas preocupações com meu coração inexperiente. Fico cega e lamentavelmente fraca. Por você, sou inválida.



A verdade é que eu só não queria ser conhecida como alguém que sonhava os sonhos errados.