29 julho 2009

The Curious Case of Dandara Lima

"Da mesma forma, e ao longo de todos os anos de uma vida sem brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em que é preciso carregá-lo. Vivemos para o futuro [...] Essas inconsequências são admiráveis, afinal, se trata de morrer. Mas chega um dia e o homem verifica ou diz que tem trinta anos. Afirma assim sua juventude. Mas, nesse mesmo lance, se situa com relação ao tempo. Ocupa alí o seu lugar. Reconhece que está num dado momento de uma curva que confessa ter de percorrer. Ele pertence ao tempo e, nesse horror que o agarra, reconhece nele seu pior inimigo. Amanhã, ele queria tanto amanhã, quando ele próprio deveria ter se recusado inteiramente a isso. Essa revolta da carne é o absurdo."


Como afirma Camus; eu também sou carregada pelo tempo e espero ansiosamente uma curva que me obrigue a percorre-la. E, desta forma, com que relutância me vejo idêntica aos demais, que, inconsequentemente, almejam por esse inimigo que nos acorrenta ao hábito de ter fé no futuro. Que fraqueza, que ingratidão! Eu só queria aceitar essa idade sem me fazer perguntas que só deveriam revoltar a minha carne daqui a dez anos. No entanto, como odeio os anos que ainda faltam para que eu consiga, finalmente, afirmar minha juventude que fora, de alguma forma, arrancada de mim algum tempo atrás. A verdade é que eu nasci velha.

25 julho 2009

O Hábito

Se me fosse dado o dom de assistir à minha própria vida do lado de fora, provavelmente nenhuns desses desgostos jamais me ocorreriam. A não ser, certamente, que eu assim o permitisse. Mas, às cegas e com uma ingenuidade inata, mantenho-me em posição desfavorável, sem me certificar da areia movediça antes de meter os dois pés à frente do passado. Por fim, me contento a não renovar os laços da famosa escolha, que muitos dizem ser fundamental para toda e qualquer relação humana. Eu sou vencida. A escolha enfraquece e deteriora-se, até que eu não mais tenha em minha memória os motivos para a inicial aproximação. E é muito simples, uma vez que não cuidamos das nossas relações, elas tendem a desaparecer. Porque isso de vivermos em conjunto só ocorre à base de muita dedicação e paciência. De minha parte, não acho tão terrível viver trancafiada em um quarto com janela. Poderia olhar para o céu quando ele estivesse bonito e teria todo o tempo do mundo para não ser incomodada. Li em algum lugar que felicidade estava unicamente relacionada à “viver em paz”. Mas chego então a uma contrapartida, pois, uma vez que nos aceitamos frente aos olhos dos outros, e dessa experiência descobrimos a pessoa que somos, como poderíamos ser alguém se todos eles, os quais escolhemos, nos deixassem em paz? Por hábito, permaneço em silêncio, fingindo que a escolha ainda possui algum sentido. Porque se eu desse de ombros a essas escolhas, a solidão me arrancaria os adjetivos que só aprendemos em sociedade. Ser é ser percebido: não no sentido de ser notado, mas no sentido de ser tocado, de proporcionar experiências, de existir de forma singular como objeto causador de algum assombro. E cá entre nós, não acredito que alguém se assombre ao encarar o espelho, pois já nos acostumamos a nossa presença. O grande desafio é aprender sobre nós mesmos na interpretação de outrem. Pois essa interpretação é a que machuca, a que abre os olhos e as feridas do ego. Deveríamos aprender a odiar a omissão, a elisão e o eufemismo. Eu gosto de gente que me insulte com a verdade, porque é da amargura resultante que me torno mais humana: frágil e humilde. Mais eu mesma.

Em dias de tempestade eu penso na Caverna de Platão. No meu pequeno quarto com a janela mostrando o céu bonito. Um céu que eu não poderia tocar ou amaldiçoar. Mas, então, percebo a minha existência enfraquecendo e por hábito pela vida, pego o telefone e tento ir a qualquer lugar. Quando isso não funciona, eu escrevo. Ou tento.
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Is it not the choosing that makes the life we live so intricate?
Are the options we have too endless to control?
Can we oversee the offers and their demands and their goals?
Can we oversee our own needs if we do not know
What it is we really want?
Our minds, instead of our hearts
What we feel confuses our thoughts
Security, an ancient quest
Standing alone, the ultimate test
Still we search for warmth in the materialized luxuries in life
The times have changed but we are still the same
Another choice ‘cause we still don't know
- After Forever, My Choice

20 julho 2009

Globo Ocular

Era uma noite gélida, as conversas acompanhavam o vapor quente que subia como fumaça de cigarro opera sozinha. Vai de encontro ao desconhecido até que some e é carregado para o resto do mundo. Então não podemos mais vê-la, a fumaça e o vapor. Uma necessidade sombria e consciente de colocar o pé na rua antes que seja tarde demais. Do tédio, da obrigação, da segunda-feira te barganhar tudo o que há de bom nessa vida. Vamos na valsa, pisamos um no pé do outro. Sou uma negação para dançar e definitivamente não consigo ser guiada. Mas insisto no escuro, nas células mortas do ouvido que ainda te incomodam até o dia seguinte. Que é um novo dia para matar mais células ainda, ouvindo seu mundo particular nos fones velhos e encardidos. É preciso troca-los. E, com a cabeça no travesseiro projetado pela NASA, ainda penso, ainda peço durante uma hora ou duas por algo que seja significativo e que não me machuques. Algo verdadeiro, algo para acreditar. No dia seguinte me impedem de lamber minhas feridas, para não abri-las e infecciona-las. E ainda limitam o meu horizonte em movimentos mal coordenados de esquerda-direita. Meus 160° graus interrompidos por uma necessidade de pequeno-burguês de se sentir bem com todos os músculos. E meus olhos míopes e melodramáticos, haveriam de ver mais do que estavam até então preparados. Hoje eu vi um espaço vazio de globo ocular. Alguma fatalidade, de nome Pobreza. E que me preocupem todas as necroses, a “carne de minha perna” e as feridas abertas frente às telas de tevê. Nada me afetou mais do que o globo ocular vazio. É como um peito aberto onde se encontra apenas “um pulso ensangüentado”. Eu me sentei ao lado do Ciclopes.

11 julho 2009

Capacidades

Hoje me lembrei de um dia fugaz e, ao mesmo tempo, sem total importância. Eu saía da Igreja com minha avó materna – Dona Nilza, doceira de mão cheia e mineira com vontade – e ia tomar sorvete de chiclete na Almeida. Nisso se resumia meus sábados de manhã. Missa das crianças e depois o sorvete (havia dezenas de sabores, mas eu sempre escolhia o chiclete). Era o único dia que eu podia comer doce antes do almoço. Não me lembro de nenhuma característica da Igreja Padre Eustáquio, do Padre ou da missa. Mas recordo, com perfeição, da minha avó me pegar pela mão, atravessar a rua, me oferecer sorvete e me levar de volta para casa. A mim e o sorvete que logo lambuzaria todo o meu rosto de dez anos. Que já era redondo assim, mas ainda por cima possuía um sorriso “aparelhado”.

Não me preocupava em agradar Dona Nilza, porque sempre tive um espírito forte que se contentava em responder as minhas vontades, apenas. Muito me arrependo. Se pudesse prever toda essa nostalgia que me estapeia as manhãs de sábado, eu teria aceitado, de bom grado, ser evangelizada e também teria decorado todas aquelas frases do tipo “ele está no meio de nós”. No entanto, por um ímpeto de nascença, nunca houve em minha vida mínima esperança ou fé de que algo ou alguma coisa estivesse olhando por mim e acompanhando meus passos. Em bem verdade, eu nunca desejei que houvesse algo tão desocupado que perderia seu tempo medindo meus atos ou os de qualquer outro humano medíocre como eu. Eu não via necessidade física ou emocional de criar um Deus para mim e sempre me orgulhei disso.


Mas um dia me chamaram de “racional”. De um jeito grosseiro, impiedoso e profundamente sincero. Colocaram minha capacidade de amar em prova e isso me alarmou. Naquele dia, eu olhei para o céu que é divinamente bonito nos fins de tarde de Brasília e pensei que poderia haver algo ali. Por um momento pensei em minha avó e na fé desesperada que ela tinha em Deus e na capacidade que esse Deus tinha de melhorar nossas vidas. Eu olhei para o céu e fiquei esperando por essa capacidade. Mas o sol me cegou e eu me senti tragicômica. Porque faz exatamente seis anos que não tomo sorvete de chiclete. E então eu sorri, para a minha avó, para o meu sorvete e para a certeza que, mesmo racional assim, não existe ninguém nesse mundo que seja mais capaz de amar do que eu.